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Blocos cariocas abrem filiais em São Paulo para formação de ritmistas

Jussara Soares

Do UOL, em São Paulo

14/11/2013 06h00

De salto, vestida de preto e maquiada, a publicitária Lígia Furlan, 31, chama a atenção na rua ao carregar nas mãos um tamborim. Parada no trânsito, ela não resiste e vai batucando para aliviar o estresse do congestionamento de Santo André, no ABC, onde mora, ao trabalho no Itaim, na Zona Sul de São Paulo. A vida da publicitária tem sido assim desde que, em junho, começou a frequentar a oficina de percussão do bloco carnavalesco carioca Quizomba, às terças-feiras, na quadra da escola de samba Pérola Negra, na Vila Madalena, na Zona Oeste.

Não muito longe dali, na casa noturna Estúdio Emme, em Pinheiros, outro tradicional grupo de percussionistas do Rio de Janeiro, o Bangalafumenga, também ensina os meandros do batuque a cerca de 200 paulistanos que não tinham intimidade com tamborim, repique, caixa, surdo e chocalho, mas agora juntos são capazes de botar muita gente para sambar. As oficinas são realizadas às terças e quartas-feiras.

O Bangalafumenga e o Quizomba, ao lado do Monobloco, mudaram a cara do Carnaval de rua do Rio de Janeiro a partir do início do anos 2000 quando misturaram rock, pop, funk e outros ritmos nacionais à batida do samba. E agora, de olho na vontade foliã do paulistano, os cariocas montaram suas filiais por aqui e estão atraindo para suas baterias gente que nunca se imaginou como ritmista.

O primeiro bloco carioca a desembarcar em São Paulo foi o Banga, como é chamado por seus integrantes. A turma do músico Rodrigo Maranhão foi “importada” por um grupo de amigos paulistanos que curtiam o Carnaval do Rio e queriam trazer para cá o bloco. Em 2011, Flávia Carvalho, Alan Edelstein e Rogério Oliveira fundaram a Oficina de Alegria, responsável pela realização da oficina em São Paulo e por colocar o bloco na rua.

No primeiro Carnaval, em 2012, o Bangalafumenga, que sempre tem o reforço dos batuqueiros cariocas, reuniu 7 mil pessoas pelas ruas da Vila Madalena. Em 2013, segundo a organização, mais de 25 mil pessoas acompanharam o bloco, o que ajudou a aumentar o interesse pela oficina para sair no Carnaval de 2014. A previsão é que o Bangalafumenga saia no dia 22 de fevereiro, o sábado pré-Carnaval.

“Na primeira oficina, tínhamos 60 alunos. Depois já estourou. Hoje já são 200 ritmistas”, diz César Pacci, diretor da Oficina de Alegria. O curso, que começou em abril e vai até fevereiro, custa R$ 212 por mês. Entretanto, a participação na oficina não garante que o aluno vá desfilar como ritmista. “Claro que o perfil do bloco é a alegria em primeiro lugar, mas é preciso alcançar um certo grau de desenvolvimento rítmico”, diz o mestre carioca Negão da Serrinha, que comanda as aulas em São Paulo.

Quizomba

Fundador e diretor geral do Quizomba, o músico carioca André Schmidt resolveu trazer o bloco para São Paulo em 2012. No ano passado, a oficina ocorreu na rua Augusta, no antigo Studio SP, com 38 pessoas que formaram a bateria do bloco do Baixo Augusta, que desfila pela Centro. No dia do desfile, 80 batuqueiros do Quizomba do Rio de Janeiro vieram para dar uma força aos paulistanos.

 “São Paulo é um mercado grande e achamos que seria legal trazer o bloco pra cá. Muitas pessoas daqui enviavam mensagem nos pedindo a oficina”, diz André. Em 2014, eles vão repetir a parceria com o bloco do Baixa Augusto. O desfile está marcado para o dia 23 de fevereiro, o domingo anterior ao Carnaval.

No Quizomba, a mensalidade custa R$ 180 e até o início de novembro a oficina recebeu novos alunos. “Dificilmente alguém ficará de fora do desfile. Temos um método pedagógico próprio e videoaulas pela internet que ajudam muito”, diz André, que comanda os ensaios em São Paulo.

Batuque é terapia

A publicitária Lígia Furlan frequentava o Sambódromo do Anhembi para assistir aos desfiles das escolas de samba e ficava fascinada com os tamborins. “Até o dia que, com a cara e com a coragem, eu me inscrevi na oficina do Quizomba. Fico ansiosa para chegar terça-feira. Não falto um dia, dá uma aliviada nas pressões do trabalho”, diz.

Ela não foi a única a ter encontrado na batucada uma terapia.  “Minha semana ganha um ar novo com os ensaios. Fica muito mais divertido”, diz o advogado Pierro Sellan, 32, que participa do Bangalafumenga desde 2012 e vai do trabalho direto para o ensaio. A publicitária Léa Moreira, 36, também toca tamborim no Bangalafumenga desde 2012, mas por conta do ritmo de trabalho quase abriu mão da oficina. “Mas depois eu me dei conta de que esta era minha válvula de escape e continuei.”

“Em São Paulo, a oficina acabou mesmo ganhando um perfil de terapia para muita gente. Afinal, aqui é a terra das novidades, das oportunidades, e as pessoas acabam vendo na bateria uma maneira de fugir das regras”, diz Negão da Serrinha.

Tanto no Quizomba quanto no Bangalafumenga, para cada instrumento há um mestre, responsável por ensinar os aprendizes de batuqueiros. Em geral, já na primeira aula, todo mundo já sai de lá fazendo um som, mesmo que longe da perfeição. O instrutor do Bangalafumenga Hamilton Fofão diz que não há diferença entre ensinar cariocas ou paulistanos. “A dificuldade é a mesma para quem nunca teve contato com nenhum instrumento. Não é tão difícil. No geral, a galera pega o jeito”, diz Fofão, lembrando que, diferentemente de uma bateria de escola de samba, os batuqueiros não desfilam para ganhar nota de jurados. “Ninguém vai virar profissional. Vamos ensinar a tocar as músicas da melhor maneira possível e se divertir”, acredita.

No Quizomba, o combustível principal para o aprendizado também é o prazer. Durante a visita da reportagem do UOL, o gerente de marketing Pedro Alvarez, 39, teve sua primeira aula de caixa. Após as primeiras instruções com um grupo iniciante, ele já se misturou à turma para entrar no ritmo. “É uma energia incrível. Vim para fazer uma aula experimental, mas gostei tanto que vou ficar. Tenho muito ensaio pela frente ainda, mas quem sabe eu não desfilo também?”, diz Pedro.

Ensaios abertos

Até o Carnaval, os batuqueiros farão ensaios abertos. É um jeito dos novos ritmistas se entrosarem na apresentação e uma oportunidade do público começar o esquenta para a folia.

Na próxima terça-feira (19), véspera do feriado da Consciência Negra, o Bangalafumenga fará seu ensaio aberto no Estúdio Emme (av. Pedroso de Morais, 1036, Vila Madalena).  O principal líder do grupo, Rodrigo Maranhão, e o time de metais do bloco também estarão no evento. O ingresso custa R$ 30 e é vendido antecipadamente pelo site www.sympla.com.br.

O Quizomba realizou seu último ensaio aberto de 2013 em outubro, mas, segundo o diretor do bloco André Schmidt, até o Carnaval outros dois estão garantidos, ainda sem data.

As oficinas dos blocos já estão recebendo pré-inscrições para 2014. No Quizomba, o contato pra os candidatos a batuqueiros é oficinaquizomba@gmail.com. Já no Bangalafumenga o contato deve ser feito pelo e-mail oficinadobanga@oficinadealegria.com.br.

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