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Livro mostra Joey Ramone como cantor andrógino e adolescente perturbado

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Os irmãos Joey Ramone e Mickey Leigh cantam em show Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

11/11/2013 17h17

O título pode até dar a impressão de que se trata de um livro repleto de revelações de uma ex-amante de Joey Ramone, morto em 2001. Mas quem escreveu “Eu Dormi com Joey Ramone”, na verdade, teve muito mais intimidade que qualquer mulher com quem Joey se envolveu (e todas elas aparecem no livro). “É um bom título, não?”, pergunta Mickey Leigh , irmão do músico, ao UOL.

Músico e escritor, Mickey não apenas dormiu ao lado de Joey, como também participou da explosão que foi o surgimento dos Ramones nos anos 1970, quando a paz e o amor dos hippies foram enterrados por uma nuvem de riffs simples e agressivos. “Reunir todas essas coisas, desde o momento em que nascemos, foi uma pequena tortura. Só de tentar lembrar já era difícil, e escrever então só aumentou o trabalho”, comenta Leigh.

Leia em primeira mão prólogo do livro "Eu Dormi Com Joey Ramone"

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      Capa do livro "Eu Dormi com Joey Ramone"

    Do esforço quase físico, dividido com Legs McNeil, coautor da bíblia do punk “Mate-me Por Favor”, Mickey relembra o momento crucial, que tornaria aquela família no Queens, marcada por um divórcio e por mortes de seus padrastos, em um celeiro do punk. “Éramos uma ‘happy family’, como dizia a música, ou pelo menos éramos mais felizes do que muitas. Eu ainda não ia para escola, tinha apenas 4 anos. Tinha terminado de tomar o café da manhã e ouvi aquela música do Ritchie Valens, 'La Bamba', e corri para meu irmão para contar”.

    Joey Ramone (que nasceu Jeffrey Ross Hyman) ganha um retrato fiel, emocionante, mas não menos chocante de sua vida. Da sua infância, quando gostava de caçar borboletas e tocar acordeon, à tumultuosa adolescência, quando era chamado de estranho e desengonçado -- culpa de seus dois metros de altura -- e viria a ser afetado por um descontrole emocional, agravado pelo diagnóstico de TOC.

    “Ele foi a um médico que um endocrinologista indicou, que, por sua vez, o indicou a um psiquiatra, que disse à minha mãe que Jeff não estava nem um pouco bem e que jamais seria produtivo em sociedade. 'Ele provavelmente será um vegetal', disse”, escreve Mickey no livro.

    Joey voltaria mais algumas vezes a uma clínica psiquiátrica. A avaliação psicológica – que Mickey veria na prática, quando Joey chegou a apontar uma faca para ele durante uma briga – dizia: “O paciente essencialmente se enxerga com baixa autoestima (..), sofrendo grande dor emocional na forma de ansiedade (...); a personalidade do paciente é consistente com o diagnóstico de esquizofrenia do tipo paranoide”.

    “Se o punk salvou sua vida?”, comenta Mickey. “Muita coisa salvou a vida dele. O punk, seu talento, a ajuda que eu e minha mãe demos. Encorajamos Joey para que ele nunca desistisse dele mesmo”.

    No entanto, antes de Jeff se tornar Joey Ramone, o ícone punk, ele foi Jeff Starship, o vocalista andrógino da banda de glam rock Snipers. “Na primeira banda, ele usava macacão preto com um sapato com plataforma. Parecia muito com David Bowie. O poder de sua voz, no entanto, sempre esteve lá. Mesmo quando ele tentava emular Bowie”, conta o irmão.

    Enquanto isso, o próprio Mickey já tocava com John Cummings e Tommy Erdelyi, que viriam a se tornar conhecidos como Johnny e Tommy Ramone. Dessa época, Mickey se recorda da vez que entrou em estúdio aos 14 anos, e foi produzido pelo irmão. “Lançaremos essa canção em breve”, promete. Mickey trabalharia no staff do Ramones do primeiro show, no lendário CBGB – onde Joey vivia caindo do palco --, até 1977.

    “Havia um pouco de competição, de atrito. Éramos irmãos. Aquela coisa de quem é o primeiro a conseguir isso ou aquilo. Mas nos ajudávamos muito um ao outro. Muito mais tarde, eu amadureci e até o ajudei a escrever algumas canções, a cantar no primeiro disco da banda”.

    • Noel Hyman/Divulgação

      Direto do álbum de família: Joey Ramone (nascido Jeff Hyman) segura taco de beisebol, enquanto o tio posa ao lado de Mickey


    Camisetas e aperto de mão
    Mickey cumpre agenda de lançamento durante esta semana e a próxima em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Caxias do Sul (RS). O Brasil, ele recorda, era adorado pelo irmão. “Ele dizia que o país era incrível e que havia muitas pessoas que gostavam dele. Era uma coisa do Brasil, da Argentina. Esses dois lugares, mais do que outros, eram especiais. Eu acho que ele desejava que não fossem tão distantes”.

    Joey sabia da popularidade do Ramones no país, mas talvez duvidasse de que as camisetas da banda virariam item fashion em lojas de roupas.  “Até Angelina Jolie usa camiseta do Ramones e veste seu filho pequeno. Mas parece que isso incomoda os fãs mais fervorosos”, observa o escritor.

    “É bom, por um lado. É uma exposição. Deixa as pessoas curiosas. Quem são eles? Quem são esses Ramones que todo mundo usa a camiseta? Mas por outro lado, parece que rola uma insignificância, afinal, as pessoas usam sem saber o que é apenas por associação”. Mickey, no entanto, assegura: nunca ganhou nada com a venda de roupas e acessórios por aqui. “As pessoas acham que a gente é rico com essas camisetas. Mas não há uma camiseta na América do Sul pela qual somos pagos. Nenhuma”.

    Com o livro chegando em um território onde Joey e os Ramones ainda reinam, ele recorda a última conversa que teve com o irmão, já no hospital, após ser diagnosticado com um linfoma. “Naquele ponto, ele não conseguia falar muito. Tinha uma edição de aniversário do punk, feita pela revista “Spin” que trazia Joey na capa. Anúncios foram espalhadas pela cidade inteira para falar dessa edição. E eu contei isso para ele, disse que estava muito orgulhoso. Mas ele não podia falar muito. Apenas apertou minha mão”, conta, com a voz embargada. “Bom, agora precisamos de uma história engraçada...”, ri. “Eu Dormi com Joey Ramone” está aí com muitas delas.

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