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Nelson Motta dispensou biografia "bem fraca" de Elis para compor musical

Maria Martha Bruno

Do UOL, no Rio

08/11/2013 06h00

Em tempos de atritos entre biógrafos e biografados, a história de uma das maiores cantoras da música brasileira chega aos palcos do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (8) de modo pouco documental. O espetáculo "Elis, A Musical" retrata, segundo Nelson Motta, um dos autores do texto, a trajetória da artista com a linguagem "de fantasia e de absurdo", característica dos musicais.

Para isso, Motta garante que deixou de lado o relato mais conhecido sobre a vida da cantora, "Furacão Elis", biografia lançada por Regina Echeverria após a morte da artista, em 1982. "Eu não usei o livro [para compor o roteiro]. E não sei se o resto dos atores leu. É um livro bem fraco. Em um musical, se alguém tentasse um compromisso biográfico ou documental, seria pateticamente ridículo", disse ele ao UOL.

Autor de "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", base para outro musical que retratou a vida de outra estrela da MPB nos palcos, Motta disse que o nível de compromisso com a história de ambos artistas é igual nas duas peças, ainda que a vida pessoal de Tim tenha sido mais exposta na montagem que a de Elis.

Transformação dos personagens

"Tudo da vida do Tim Maia era escancarado. Sua vida privada era pública. Toda a biografia eu poderia ter escrito só com o que ele falou. A característica dele era a loucura, o excesso. A Elis não era uma pessoa assim. Ela era brava, briguenta, meio paranóica. Jamais foi uma drogada. Nos anos 1970, até o Papa fumava maconha, mas não era do temperamento dela", disse. O envolvimento de Elis com as drogas no final de sua vida e a morte da cantora por overdose ficaram de fora da peça.

Nelson Motta assina o texto com Patrícia Andrade, e Dennis Carvalho dirige o espetáculo. A atriz Laila Garin vive Elis ao lado de Felipe Camargo (na pele de Ronaldo Bôscoli, primeiro marido da cantora) e Claudio Lins (como Cesar Camargo Mariano, parceiro e segundo marido, pai de Maria Rita e Pedro Mariano). Há ainda 16 atores em cena. A trajetória da cantora é contada através de 51 músicas, a maioria grandes sucessos, como "Vivendo e Aprendendo a Jogar" (que mostra a saída dela da cidade natal, Porto Alegre) e "Me Deixas Louca" (que ilustra claramente a parceria de Elis e Cesar). A peça fica em cartaz no Rio até março e depois segue para São Paulo e outras cidades do país.

Preparação do elenco
"A Bossa do Lobo", biografia de Denilson Monteiro sobre Bôscoli, é de grande valia para Felipe Camargo. Ele contou ao UOL que o relato o ajuda a compor um homem controverso e de temperamento forte, evidenciado nas cenas das brigas do casal. Na mistura da biografia e com sua própria subjetividade, Felipe disse que o personagem sai de sua maneira.

"Ele tem o jeito carioca, o humor ferino, a língua afiada. Isso é o que ficou mais do personagem. A birita também [risos]. Tem algumas cenas de brigas com bebedeira", lembrou. Um dos momentos do musical mostra uma discussão que leva Elis a jogar os discos de Bôscoli de Frank Sinatra pela janela. Irritado e tomando um uísque, o marido a empurra e a joga ao chão.

Bem humorado, Felipe lembra que já passou por situações semelhantes. "A coisa entre eles era explosiva. Já vivi isso de uma certa maneira. Tenho um background [risos]". Para arrematar sem evidenciar ele cita "Como Dizia o Poeta", de Vinicius de Moraes: "Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu".

Laila Garin, bailarina escolhida entre 200 candidatas, leu "Furacão Elis" e afirmou que a obra a ajudou a entender o contexto de algumas obras gravadas pela cantora. "É preciso saber que 'O Bêbado e o Equilibrista' não é só uma música linda, mas estava falando da ditadura e virou o hino da anistia. E há ainda o contexto da relação dela com o Henfil [cartunista, que em 1972 publicou em 'O Pasquim' uma charge enterrando a cantora após um show dela para o exército brasileiro]. O livro da Regina é uma tradução, uma versão e uma interpretação. É necessário ler".

Claudio Lins, que vive Cesar Camargo Mariano, também leu a biografia e a enxerga como um documento importante para entender o subtexto de muito do que se passa no palco, como o relacionamento entre ambos. "A Regina vai mais fundo nas relações pessoais", disse, lembrando que na narrativa há depoimentos de músicos sobre as brigas entre ela e Cesar que contribuíram para retratar a separação do casal. "Solo Memórias", escrito pelo próprio Cesar Camargo, de certo modo também é (auto)biográfico, e é um dos pontos de apoio principais de Claudio para a elaboração do personagem.

Segundo o diretor Dennis Carvalho, a intenção do espetáculo --empresariado por Luiz Calainho e com investimento de R$ 10 milhões-- é prestar uma homenagem a Elis Regina, e não fazer uma imitação ou um relato documental da amiga.


"Elis, A Musical"
Estreia: 8/11 (sexta-feira)
Horários: Quintas e sextas: 21h; sábado: 17h e às 21h; domingo: 19h.
Local: Teatro Oi Casagrande (Av. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, Rio de Janeiro)
Quanto: de R$ 50 a R$ 180
Informações: (21) 2511-0800

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