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Mais pop que "50 Tons de Cinza", livro apresenta Leminski complexo à geração do Facebook

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

17/05/2013 06h05

Feito raro num país que dá pouca bola à literatura, Paulo Leminski é pop. Morto em junho de 1989, aos 44 anos, os versos do escritor e jornalista paranaense circulam há décadas em agendas e cadernos de estudantes e, hoje, encontram terreno fértil também na internet, sobretudo em redes sociais como o Facebook. Um dos poemas mais populares na rede diz o seguinte: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

E é para além do universo de citações fáceis - e muitas vezes descontextualizadas ou incorretas - que uma série de lançamentos e projetos futuros, incluindo livros, filmes, discos e site, pretende levar a obra do autor descrito por Caetano Veloso como "concretista beatnik", por Haroldo de Campos como "polilíngue paroquiano cósmico" ou simplesmente como "samurai malandro", por Leyla Perrone-Moisés.
 

50 TONS DE LARANJA

  • Reprodução

    Capa do recém-lançado "Toda Poesia", que reúne mais de 600 poemas de Paulo Leminski

Recém-publicado pela Companhia das Letras, "Toda Poesia" reúne os seus mais de 600 poemas, de diferentes fases e estilos, e procura decifrar o complexo universo de Leminski, que transitou com desenvoltura pelos territórios distintos, e eventualmente opostos, do erudito e do popular.

Prova de que o poeta é mesmo pop, o livro está há semanas no topo da lista dos mais vendidos nas livrarias brasileiras na categoria ficção e já desbancou até mesmo o best-seller pornô soft "50 Tons de Cinza".

No conjunto, a criação poética de Leminski apresentada em “Toda Poesia” mostra como ele circulava livremente por diferentes estilos. Do concretismo ao coloquialismo, em haicais ou poemas-piadas, o caboclo polaco-paranaense (descendente de negro e polonês), exibe uma linguagem, que resiste ao tempo.

Apesar de não trazer nenhum texto inédito, o lançamento republica material de livros raros, quase todos já fora de catálogos. A maior parte organizada em livros pelo próprio Leminski, segundo a poeta Alice Ruiz, viúva do autor, e responsável pela seleção dos poemas reunidos na nova publicação.

“O que ficou de fora foi porque ele assim quis, e respeito isso”, diz. “O que ele não considerou pronto não será publicado”, completa. 

Múltiplo Leminski
Os holofotes que se voltam sobre Leminski nesse momento, além de recolocar em destaque um nome de relevo da poesia brasileira, também devem jogar luz sobre facetas do autor mais desconhecidas do grande público. 

Por trás de tudo isso, o esforço da família, Alice e as filhas Estrela e Áurea, que há anos trabalham na organização e difusão da extensa produção de Leminski nas mais diferentes áreas. Parte desse trabalho resultou na exposição “Múltiplo Leminski”. A mostra, que fica em cartaz até junho em Curitiba e depois segue para Goiânia, Recife e Foz do Iguaçu, além da obra poética, destaca os trabalhos do artista na música, no cinema, grafite e quadrinhos.

Áurea também está à frente da digitalização do acervo de Leminski. “Trabalho muito extenso”, desabafa. “Já são quase três anos debruçada sobre esse material”, conta. O motivo de tanta labuta é lançar em agosto deste ano o acervo digital do autor, a ser distribuído em bibliotecas e universidades.

Outra parte deve se tornar um site oficial gerido pela família. Embora familiarizada com a obra do pai, Áurea diz ter se surpreendido com a multiplicidade de suas criações. “Ele era profundamente interessado em todas as formas de conhecimento, sobretudo as ligadas às áreas humanas”.
 

QUASE PARCEIROS

  • Mônica Vendramini/Folhapress

    Uma história pouco conhecida de Leminski é sobre sua ‘quase’ parceria na canção “Tô Tenso”, dos irmãos Arrigo e Paulo Barnabé e Itamar Assumpção. Paulo Barnabé conta que depois que se tornaram amigos em um boteco de Curitiba, e de se encontraram depois em shows e lançamentos de livros, ligou para o poeta em Curitiba para pedir uma ajuda. “Estava escrevendo a música e passei a ele a letra, queria ela mais comprida”, explica.

    Depois de uns dias Leminski mandou o complemento, que segundo Paulo Barnabé ficou muito bom. Mas o trecho acabou não sendo usado. “Infelizmente eu perdi o papel. Naquela época não tinha internet, ficou difícil falar com ele sobre isso novamente, acabei deixando pra lá”, justifica.

A produção musical de Leminski também é robusta. Suas canções foram gravadas por nomes como Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, Jorge Mautner e Itamar Assumpção. Do extenso cancioneiro do poeta pop (também compositor, cantor e músico), quem está cuidando é a outra filha, a compositora e escritora, Estrela.

É ela quem está digitalizando o acervo de gravações em fita cassete. “Tarefa nada fácil”, garante. “Algumas estão com bolor, outras grudadas”. Ela está reunindo todas as composições do pai para um songbook, que será lançado em 2014.

Em paralelo, ainda está gravando um CD duplo. “Um disco será composto de parcerias do meu pai com diversas pessoas, Itamar Assumpção e Moraes Moreira, por exemplo, e o outro com composições só dele”, explica. “Estou mergulhando na linguagem dele, acho que é mais fácil pra mim por ter crescido ouvindo essas músicas e por saber bem o gosto musical do meu pai”, observa Estrela.

Mas a falta de distanciamento embolou um pouco o meio de campo, na hora da seleção das músicas. “Minha vontade era de gravar todas as inéditas, mas já sei que nesse projeto não vai caber tudo”. Segundo ela, os discos terão algumas participações especiais, como de Zélia Duncan e Zeca Baleiro.

Alice e Paulo
A vida e a obra de Paulo Leminski e Alice Ruiz também vai virar filme. Ou melhor, dois filmes. Segundo o produtor João Pedro Albuquerque, são dois projetos, paralelos e complementares, chamados provisoriamente de “Alice e Paulo”. “Representarão toda a pulsação criativa destes poetas”, adianta. Ambos em fase de captação serão lançados em 2014, de acordo com o produtor. 

O longa, dirigido por Gustavo Tissot, vai retratar a vida e o amor do casal. “Uma incrível jornada de dois jovens que se conheceram e se apaixonaram em Curitiba, em 1968, e fizeram história em uma geração de contestação cultural”, diz.

Em paralelo, ele conta que está sendo produzido um documentário sobre a vida e a obra dos dois poetas, dirigido por Oscar Rodrigues Alvez. “Trará diversas entrevistas e imagens reais da vida e construção da obra deles”.

Para Estrela, o objetivo central de tantos projetos é preencher uma lacuna. “As pessoas hoje conhecem muitas coisas pela web, mas perdem o todo do autor, como o meu pai é múltiplo, sinto que há um buraco de informações”.

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