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Em São Paulo, Vargas Llosa faz crítica à cultura do espetáculo

EFE/Zipi
Mario Vargas Llosa é uma das principais atrações do Fronteiras do Pensamento Imagem: EFE/Zipi

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

18/04/2013 05h27

“A cultura já não é mais a mesma, se tornou um circo, um espetáculo que, ao abarcar tudo, não é mais nada”, alfineta o intelectual e escritor Mario Vargas Llosa logo no início de sua apresentação na conferência de abertura do evento Fronteiras do Pensamento, na noite desta quarta-feira (17), em São Paulo.

Tranquilo e elegante, aos 77 anos, o escritor peruano, Prêmio Nobel da Literatura em 2010, reafirmou a fama de exímio conferencista para uma plateia que lotou o Teatro Geo, do complexo cultural Tomie Ohtake, que sedia a terceira edição do ciclo anual de palestras na capital paulista.

Antes de criticar o avanço do entretenimento barato, Llosa fez elogios à grande cultura que, segundo ele, descobriu aos cinco anos de idade, quando aprendeu a ler. “Foi a coisa mais importante que me aconteceu, enriqueceu minha vida de maneira formidável”.

Ele se diz moldado por essa cultura, descortinada a princípio no universo das letras. “Foi o que me fez escritor, ajudou-me a descobrir a mim mesmo, e a perceber a extraordinária riqueza da vida”, diz. “É essa cultura, que nos faz sair da caverna e alcançar as estrelas, que está sendo apagada pelo apelo irresistível da diversão imediata”.

O escritor peruano fala de uma produção cultural instigadora que por todos os lados anda cada vez mais escassa – aquela que costuma ser o principal alvo de censuras e ditaduras. Uma arte transgressora e rebelde, que, para ele, representa a fonte do progresso humano. “É o que nos desliga das massas, que nos torna individual e único”.

Esse “paraíso perdido” é a inspiração e o tema do livro de ensaios “A Civilização do Espetáculo”, que será lançado no Brasil em setembro pela editora Alfaguara. Um trabalho sóbrio, porém desiludido, descreve o autor. “Escrevi com muita angústia, porque preferia não ter razão”. Na obra, Llosa faz uma crítica severa a essa sociedade inundada de informação, mas esvaziada de conteúdo. “Caminhamos para um cenário semelhante às previsões apocalípticas descritas em ‘1984’, de George Orwell, uma sociedade cibernética de pessoas robotizadas”, compara.

“Conversão das culturas facilita manipulações”, afirma Llosa

A irritação que deu origem ao novo livro, conta Llosa, começou há mais de uma década, durante uma visita à Bienal de Veneza. Lá, no aclamado templo da grande arte, se deu conta que não queria nenhuma daquelas obras. “Era uma ruptura com o que eu pensava sobre museus, parecia um espetáculo”, relembra. Não faltaram outras decepções pelo caminho. 

O intelectual atacou também o que chama de “revolução audiovisual”, que reconhece, porém, ter realizado milagres no mundo das comunicações. Internet e novas tecnologias converteram tudo ao centro, para ele, avanço importante, sobretudo no campo da liberdade de expressão. “Ficou mais fácil driblar censuras”, diz. Mas Llosa chama a atenção para o dilúvio de informação, jogada sem discriminação, responsável por um “estado de confusão absoluta”.

“Esse processo de conversão das culturas, que chamam de democratização, não gera protagonismo, pelo contrário, torna mais fácil a manipulação”, afirma. E o resultado, prossegue o escritor, não tem nada a ver com cultura. Ele cita as “palhaçadas” nas artes plásticas. “O pintor mais caro de nossa atualidade não sabe pintar”, ataca.

Llosa se refere ao artista britânico Damien Hirst, que durante a década de 1990 ganhou fama internacional e amealhou uma fortuna misturando um eficiente trabalho de marketing com obras polêmicas de forte apelo midiático. “Sua primeira proeza artística foi se fotografar em um necrotério junto a um homem decapitado”, observa. “Tem algo errado em um mundo onde acontece isso”.

Para Llosa, a ideia de que a cultura pode ser qualquer coisa, de que é uma brincadeira, pode empobrecer enormemente a vida. “Se isso ocorre em Londres, o que mais pode acontecer no resto do mundo?”, questiona.

Llosa e seus demônios

Questionado se a marca de sua obra seria o compromisso com a liberdade, Llosa se esquiva. “O compromisso de um escritor é com seus demônios, é com aquilo que o inquieta, que o assombra, excita, e que eventualmente pode até maldizê-lo, mas desde que seja autêntico e verdadeiro”. 

Ele cita os “malditos”, como Marques de Sade. “A grande literatura mostra eventualmente o que não queremos ver, é um testemunho fiel da condição humana”, diz.

Embora sem citar a Venezuela, Hugo Chávez ou Nicolas Maduro, Llosa, que é um desencantado assumido com as esquerdas latino-americanas, diz se reservar o direito de não dar as costas às causas sociais, seja como escritor ou intelectual. “Precisamos participar da política, mesmo que seja com o nariz tapado”.

A inclinação para a politica, aliás, levou o simpático escritor peruano a concorrer à Presidência do Peru, em 1990. “Experiência ingrata”, diz. “O apetite pelo poder pode converter as pessoas em monstros capazes das piores maldades, descobri que jamais seria político”.

Sangue latino

Llosa relembrou ainda em sua palestra, o período em que viveu na França, e de como isso foi importante para sua formação como escritor e intelectual. Ele conta que acreditava existir uma aura mágica em Paris, e que bastaria chegar à capital francesa para se tornar imediatamente um artista. Não foi o que ocorreu. “Descobri que jamais seria francês, e mais do que isso, que era peruano e latino-americano”, conta.

Ele também falou da admiração pela literatura brasileira, especialmente por “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. “Ajudou a entender o que é, e o que não é a América Latina”.

Seu próximo livro, ainda com o título provisório de “O Herói Discreto”, também se debruça sobre a realidade latino-americana, mas foca na cena atual do Peru. Segundo ele, a aparente boa fase que o país vive, reflete um momento cheio de interrogações sem respostas. Em paralelo, conclui a adaptação para o teatro de “Decamerão”, obra clássica de Giovanni Boccaccio, na qual atuará como ator. “Não me faltam projetos, o que me falta, infelizmente, é tempo”, conclui o escritor.

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