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Diretor questiona decisão judicial que proíbe peça sobre o caso Isabella Nardoni

Cena da peça "Edifício London", do grupo Os Satyros - André Stéfano/Divulgação
Cena da peça "Edifício London", do grupo Os Satyros Imagem: André Stéfano/Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

04/03/2013 18h20

A peça “Edíficio London”, da companhia Os Satyros, que entraria em cartaz à meia-noite do último sábado (2), foi proibida pela Justiça de São Paulo, pouco antes de sua estreia. Com texto de Lucas Arantes e direção de Fabricio Castro, o espetáculo foi inspirado no caso, de grande repercussão no país, do assassinato da menina Isabella Nardoni, aos cinco anos de idade, em 2008. “Por que o teatro não pode fazer uma reflexão sobre um caso que mobilizou a sociedade em uma sala com 70 lugares?”, questiona o diretor do grupo teatral, Rodolfo Vásquez.

“O Ratinho e o Datena fazem um circo para milhões com o que querem todos os dias. Só eles podem discutir questões sociais atualmente?”, prossegue o diretor. Vásquez conta que o grupo foi surpreendido pela decisão judicial na véspera da estreia, às 23h de sexta. Foi fixada multa de R$ 10 mil, caso a peça seja encenada.

O pedido de cancelamento da peça veio da mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, atendido pelo desembargador Marcelo Fortes Barbosa, da 6° Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo.

A decisão judicial argumenta que a peça faz "remissão direta ao homicídio de que sua filha foi vítima, na qual, 'em verdadeira aberração', é, inclusive, lançada uma boneca decapitada por uma janela, configurando violação à imagem de sua filha morta e efetiva agressão a sua pessoa". O grupo afirma que esta cena não existe na peça.

“Conversei por horas com a direção da companhia e com o diretor da peça, Fabrício Castro. Eles estão surpresos com a afirmação de que uma boneca é lançada pela janela. Essa cena simplesmente não existe. A boneca utilizada na obra teatral representa justamente uma personagem sem identidade, sem nome, sem rosto”, observa o advogado da companhia teatral, Dinovan Dumas.

Rodolfo Vásquez se diz chocado com a decisão. “Programas de TV esmiuçaram a história trágica da morte da menina indefesa, cada passo dos envolvidos, cada hipótese, tudo foi exaurido de forma quase mórbida”, salienta.

Para ele, somente ao teatro está sendo negado refletir sobre a tragédia que abalou o imaginário da sociedade. “Especialistas foram convocados a falar, de milhares de pontos de vista. Os envolvidos cederam entrevistas a programas que alardearam sua exclusividade. Todos puderam falar sobre o assunto: de celebridades a mães anônimas, de pedreiros a psicólogos, de autoridades a jogadores de futebol”.

“O que está ocorrendo é uma censura previa, respeitamos a decisão, mas entendemos que merece reforma, porque a arte está sendo podada, sem ao menos ser conhecida”, acrescenta o advogado Dinovan. Ele protocolou nesta segunda (4) documento pedindo a revisão da decisão, para, segundo ele, “fazer valer o que prescreve na Constituição Federal brasileira, que diz, de forma clara e precisa, que 'é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

“Demonstraremos ao Desembargador que o objetivo da peça é impulsionar a reflexão acerca dos novos arranjos familiares. Como a sociedade acompanha o ritmo dos relacionamentos e suas legitimidades, como as crianças enfrentam os conflitos das famílias monoparentais (com apenas pai ou mãe)”, explica Wagner Nunes, outro advogado do grupo.

Para o dramaturgo Lucas Arantes, o problema só ocorreu porque a mãe de Isabella não conhece o texto. “É uma obra ficcional”, ressalta. “Só levamos a questão para o campo da discussão filosófica, como um pai pode matar a própria filha”. Ele observa que a peça também faz referencias à “Macbeth”, de William Shakespeare, e “Medeia”, de Eurípedes, que tratam de tragédias familiares.

“Dezenas de crianças são agredidas diariamente, sem receber o mesmo holofote da mídia”, rebate o diretor do espetáculo, Fabrício Castro. “A boneca sem cabeça é uma referencias a essas crianças invisíveis”. Ele acredita que a controvérsia envolvendo a cena da boneca arremessada pela janela, que ele também afirma não existir, se deve a uma leitura incorreta do cartaz, que mostra uma janela e uma boneca sem cabeça. “O fato de não ter cabeça ressalta o lado ficcional da trama, pode ser qualquer criança”.

A decisão judicial alega que, neste caso, “a liberdade de expressão artística, à primeira vista, está em direto confronto com os direitos de personalidade invocados”.

O grupo teatral rebate: “A própria Constituição Federal assegura outros tipos de solução para eventuais conflitos entre a liberdade de expressão artística e os direitos da personalidade (o que não ocorre no caso concreto, é bom dizer). Isso demonstra que a censura não pode prevalecer”, diz o advogado Dinovan Dumas.

Roberto Zucco
Há três anos a companhia Os Satyros montou a peça “Roberto Zucco”, baseada na história do serial killer italiano homônimo, escrita pelo dramaturgo Bernard-Marie Koltès. Semelhante ao caso Nardoni, o espetáculo abordava um fato amplamente divulgado pela mídia.

“O grande Koltès criou uma tragédia contemporânea. No Brasil, ele teria sido barrado por não ter tido respeito à personalidade dos envolvidos?", questiona Rodolfo Vásquez. "Só podemos então falar sobre a realidade que não ocorre no Brasil?", dispara o diretor do grupo teatral. "Se o teatro não dialogar com a sociedade, torna-se uma arte desnecessária."

Outro detalhe ressaltado por Vásquez é de que a peça não teve nenhum patrocínio “Toda a equipe ensaiou e trabalhou de graça, durante nove meses, pois acredita na força das ideias que estamos colocando no palco”, diz. “Só me pergunto por que ela não tentou impor o direito dela ao Ratinho, ao Datena e ao “Globo Repórter”, eles sim ganharam muito dinheiro e audiência com toda essa história”, conclui o indignado diretor.

Ele acrescenta que respeita a dor da mãe de Isabella Nardoni, Ana Carolina Oliveira, e observa que ao abordar o caso, o teatro pode exercer um papel importante, evitando que volte a acontecer com outras crianças. “É justamente pensando nas vítimas potenciais que queremos discutir essa tragédia que ocorreu com a filha dela”, diz o diretor. “Não queremos prejudicar ou ferir ninguém”, finaliza.

A menina Isabella Nardoni foi morta no dia 29 de março de 2008, jogada do sexto andar do edifício London, na Vila Guilherme em São Paulo, onde moravam o pai, Alexandre Alves Nardoni, e a madrasta da menina, Anna Carolina Trotta Jatobá, ambos condenados, em março de 2010, por homicídio triplamente qualificado e fraude processual (por ter alterado a cena do crime).

O texto da peça, que teve pré-estreia em Ribeirão Preto (SP), em setembro de 2012, já foi publicado em livro pela Editora Coruja (R$ 10, 110 págs.) em novembro do ano passado.

Procurado pela reportagem, o Tribunal de Justiça de São Paulo não quis se manifestar, apenas informou por meio de sua assessoria, que cabia recurso à decisão.