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Autor de polêmico manual do crime afirma que seu livro ensina a não ser vítima de delitos

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Christopher Lee Barish, autor de "O Livro Maldito - Tudo o Que Você Precisa Saber Se Não For Um Mané" Imagem: Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

20/12/2012 05h00

Em plena época do politicamente correto, o publicitário americano Christopher Lee Barish optou por tomar a via inversa. Dando de ombro para as instituições, a ética ou o bom senso, ele escreveu um divertido, detalhado e polêmico manual da picaretagem. Na capa de “O Livro Maldito”, um selo ressalta o teor ‘casca grossa’ do conteúdo: 100% perverso. Apesar dos contornos de comédia, o autor não parece estar para brincadeira. Ele dá o passo a passo de como cometer uma série de falcatruas, como falsificar dinheiro, fabricar bombas, se livrar de multas, entre outras contravenções. E garante: quem seguir a risca, não passará aperto nem será preso. E parte do que escreveu foi inspirado em seu próprio cotidiano, disse Barish em entrevista exclusiva ao UOL.

“Uma vez, desembarquei em Washington após uma viagem de família para a Itália, com um pouquinho de haxixe escondido na meia. Ainda no aeroporto, estava com minha meia-irmã, que não fazia a menor ideia da minha ‘bagagem extra’ e resolveu brincar com alguns cães farejadores de droga ‘bonitinhos’ que encontramos no caminho”, conta Barish. Ele não foi pego, mas disse a si mesmo que se fizesse isso outra vez precisaria de um plano muito mais inteligente. “Foi quando tive a ideia de fazer um capítulo sobre contrabando”. Mas, por aqui, o humor ousado do publicitário nova-iorquino desagradou polícia e políticos em Brasília.

Guia do Mal

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“As piadas que ensinam como fazer parte de uma quadrilha ou para entrar em uma igreja satânica são apenas isso: piadas”, afirma o publicitário. Ele diz que o livro é para os leitores que preferem dar boas gargalhadas dos crimes detalhados em vez de praticá-los. Seja lá qual for de fato sua intenção, o que não faltam são opções no cardápio de maldades de Barish. O ‘guia do mau’ traz em quase 200 páginas 34 capítulos com uma lista de ilícitos que atendem aos mais variados perfis e aos objetivos mais sórdidos.

Lançado no Brasil em 2011, pela editora Best Seller, a publicação “O Livro Maldito” entrou na mira da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente do Distrito Federal, que solicitou a busca e apreensão dos livros na editora, mas teve o pedido negado pela Justiça. “É inadequado para o público infantojuvenil”, afirmou a delegada Valeria Martirena em reportagem do SBT. A deputada distrital Celina Leão (PSB) também não gostou nada da obra de Barish e encaminhou ao Ministério Público Federal (MPF) um pedido de suspensão da venda nas livrarias e até na internet. “O ‘livro incita ao crime e fere o código penal”, afirmou.

A reportagem do UOL tentou contato com a editora e com a deputada, mas não se pronunciaram. O MPF informou por meio de sua assessoria que a solicitação sobre “O Livro Maldito” foi encaminhado para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro por não existir competência federal no caso. Embora a matéria do SBT afirme que o livro desapareceu das livrarias de Brasília, não há nenhuma decisão da justiça proibindo a comercialização da publicação, que permanece indicado em sites de grandes livrarias. Segundo o autor, nos Estados Unidos e em outros países não houve controvérsias. “Crítica e público acharam divertido”.

“Soube que os políticos brasileiros não gostaram do meu livro, acho que simplesmente não partilham de meu senso de humor”, defende-se Barish. Sobre por que escreveu um livro como esse, responde: “Pensei que seria fascinante entender o que leva pessoas más a fazer coisas más”. O publicitário acredita que as informações podem ainda ser de importância vital, justamente para que o leitor não seja vítima de um desses delitos. “Por que sermos ignorantes?”, questiona. “Policias, criminosos, vagabundos, produtores de cinema e até o vizinho punk já sabem, então por que não nós?”, defende-se. “Além disso, quando eu jogar ‘blackjack’ prefiro trapacear, contando as cartas. Melhor ter uma vantagem sobre o cassino. Quem não prefere?”.

A pesquisa para o livro tomou um ano de trabalho, conta o autor. Envolveu um bocado de entrevistas com "especialistas" e muita leitura. O resto veio de sua própria vida, diz. “Por exemplo, um idiota deixava seu cachorro fazer porcaria em meu gramado e depois tentava encobrir a sujeira, coloquei seus métodos no livro”. Sobre suas fontes, evidentemente não revela muita coisa. “Prometi manter suas identidades no anonimato, mas posso lhe dizer que conversei com policiais, com um produtor de maconha, especialistas em cassinos, um professor de inglês, psicólogos e trapaceiros em geral”, diz.

Teoria do Pinguim

Alguns capítulos de “O Livro Maldito” podem ser lidos na internet, entre eles o que dá a receita para puladores de cerca desorientados de como ter uma bem-sucedida relação extraconjugal. O texto começa derrubando a teoria do pinguim. Já ouviu falar dela? Barish explica. “Sempre que um homem vem com aquele papo de ‘nós fomos programados para espalhar nossas sementes’, certas mulheres rebatem com a teoria dos pinguins – mamíferos cujos machos passam a vida fiéis a apenas uma parceira. Só que você é mais inteligente, maior e mais forte do que um pinguim. Portanto, foda-se o pinguim”, orienta o autor.

As dicas seguem com informações sobre a amante ideal. “Uma mulher estranha e gostosa, sem qualquer relação com sua vida, (...) e que seja alguém que o irrite, para que o caso nem tenha chance de virar um caso amoroso”. O texto avança com uma lista de ‘sábios conselhos’, cuidados como ‘nunca usar o telefone de casa, do trabalho ou o celular para ligar para a amante, não usar e-mail pessoal, não ir duas vezes ao mesmo motel’. E, por fim, ensina o infiel marido como lidar com a esposa. Coisas como manter uma rotina consistente, fingindo interesse nela e nas banalidades da vida cotidiana. Mais informações no site http://www.olivromaldito.com.br.

Eventualmente, essas conversas aconteciam em locais públicos, conta Barish, onde nem sempre foi possível manter o assunto restrito como gostaria. “Teve uma ocasião em que eu estava com uma artista em um café, apurava informações sobre como fabricar um coquetel molotov, uma mulher ao nosso lado nos observava e ouvia nossa conversa, ela parecia aterrorizada”.

Entretanto, a polêmica em torno do livro que ensina o leitor até a fabricar seu próprio explosivo, por uma infeliz coincidência ocorre no mesmo momento em que o mundo assiste horrorizado mais um massacre em escolas americanas – um dos piores. Desta vez em Connecticut, com 26 vítimas. Barish diz que está chocado com mais esse ataque violento e ressalta que o objetivo de seu livro não é o de incentivar a violência, mas entreter e informar.

O receio dele é de que a tragédia nos EUA dê mais argumentos para a chiadeira em torno da publicação. Não seria de se estranhar, afinal “O Livro Maldito” não parece se diferenciar de outros tantos produtos da indústria americana de entretenimento que têm como temas bombas, crimes e mortes, e que de tempos em tempos são acusados de estimular barbaridades como a que acaba de acontecer. O texto, aliás, foi inspirado no conhecido game "Grand Theft Auto" (GTA), bem popular, inclusive entre crianças. No jogo, ganha pontos quem mais se der bem em atividades criminosas de diversos gêneros, como espancamento, homicídio e roubo.

Ele argumenta que o que é ensinado em “O Livro Maldito” pode ser descoberto por outros caminhos. “Acho difícil acreditar que as pessoas hoje não têm acesso à internet, filmes, reportagens”, diz. “Também acredito que, se alguém é verdadeiramente mau, irá encontrar uma maneira de realizar seus objetivos, independentemente desse livro”, completa.

Ao ser questionado se escreveria outro livro do gênero, disparou: “Sim, estou terminando um guia para fabricar bombas atômicas caseiras, sem utilização de plutônio, mas que se explodirem só mandará para os ares vovós e filhotes”.  Logo em seguida, ele volta atrás. “Brincadeira, não quero explodir ninguém, nem cachorrinhos, mas você gostou da ideia?”. Barish diz que atualmente dedica-se à publicidade de marcas de bebidas, vodca, cerveja, tequila, e de preservativos, entre “outros vícios deliciosos”.

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