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Leia trecho de "Quentin Tarantino"

Paul A. Woods

26/08/2012 07h00

  • Divulgação

    Capa do livro "Quentin Tarantino", organizado por Paul A. Woods

Trecho de "Quentin Tarantino".

Introdução - 2005

Tarantino como uma "figura literária" escrevendo diálogos que subvertiam o gênero, mais do que o estilo cinematográfico.

Tarantino elegeu os seus melhores filmes (ver p. 66), nos dando uma pequena evidência da gama de películas de grind house a que "Kill Bill" presta tributo. Talvez seja uma forma de confessar os seus antigos amores, mas seu adiado drama de vingança é composto de elementos de filmes japoneses de samurai, filmes de kung fu, faroestes-espaguete (em maior parte citados na trilha sonora do Volume 1 e discernível em termos de estilo no mais lento Volume 2) e dos mais recentes filmes de Yakuza, de Takashi Miike, que elevam a violência a um nível transgressor.

Volumes 1 e 2 também têm uma mudança definitiva de tom, da frenética ação influenciada pelo Oriente e sangue para uma malevolência mais taciturna e verbal (com uma amostra atraente de cultura pop com o vilão Bill, fundindo Nietzsche e o Super-Homem da DC Comics). Que o argumento de segunda mão de "Kill Bill" tenha feito jus a dois longas, entretanto, diz menos sobre o material do que o fato de a Miramax ter perdido por pouco o trunfo de filmar O Senhor dos Anéis como uma trilogia e agora via a chance de produzir dois filmes de Tarantino em um ano
por menos de trinta milhões de dólares cada.

Por enquanto, como sempre, Tarantino permanece trancado no submundo néon da cultura pop e no universo autorreferente que ele criou. Retribuindo o favor do melhor amigo Robert Rodriguez, por ter feito uma trilha sonora elétrica mexicana-faroeste para o Volume 2 por apenas um dólar, ele dirigiu uma sequência de dez minutos do muito aguardado Sin City – a realização digital El Mariachi dos quadrinhos noir do novelista gráfico Frank Miller – pela mesma soma. Com uma clássica narração noir, a cena de Tarantino supostamente traz o tradicional estilo pulp a um enfoque de outro modo high-tech.

Buscando de volta o episódio de Plantão Médico que trazia um incidente com uma orelha cortada, o diretor também reforçou seu domínio geek na TV ao filmar um episódio de CSI em que o personagem de Nick Stokes encara o macabro cenário de ser enterrado vivo assim como o apuro de Beatrix no Volume 2 e o de Poe.

Quanto a seus próprios projetos pessoais, o desejo de filmar uma versão semifiel de Cassino Royale, de Ian Fleming, foi destruída pelos produtores de Bond, mas o que não falta a ele é ambição. "Vou fazer um filme de guerra [Bastardos Inglórios]", afirma. "Vou fazer um filme assumidamente de ação e vou fazer minha primeira sequência." A sequência é outro projeto há muito discutido, The Vega Brothers, ressuscitando Vic (também conhecido como sr. Blonde, Michael Madsen) de "Cães de Aluguel", e Vincent (John Travolta) de "Pulp Fiction". O único porém seria que ambos os personagens já morreram, o que sugere um prequel, mas nenhum dos dois atores está um pouco sequer mais moço. De acordo com as declarações conflitantes do próprio homem, isso não inviabiliza o filme nem o faz forçar a barra. ("Tive uma ideia que não importará muito a idade deles", ele disse recentemente.)

Ele também sonha sobre como "daqui a quinze anos farei uma terceira versão de "Kill Bill", em que a filha de Vernita Green, do Volume 1, cresceu para se tornar ela mesma uma assassina". Mas essa nova expansão do universo de Tarantino poderá, se seus devaneios refletem seus planos de jogo, ser sua última. Porque Tarantino nutre a fantasia de desistir do jogo depois que seus sonhos de filmes tenham sido realizados e gastos, e pretende cuidar de um cinema numa cidadezinha americana.

Então, ignore-o quando diz: "a visão mais errada sobre mim é que... tudo o que eu faço é ver filmes e isso é tudo o que eu sei sobre a vida...". Ele pode ter tanto de vida "real" quanto muita gente na nossa sociedade ocidental saturada pela mídia, mas seu coração está no "cinema, no universo do cinema", onde seus personagens vivem. Questionado sobre os ataques apocalípticos de 11 de Setembro, ele respondeu: "Não me afetou, porque há num filme de ação de Hong Kong... chamado
Purple Storm e... eles trabalham nessa coisa enorme da trama que eles explodem um arranha-céu gigante". (Esse, afinal, é o homem que mostrou a filhinha de Beatrix no Volume 2 sorrindo, feliz e sem traumas enquanto vai embora com a mãe que nunca conheceu, que agora matou seu pai.) É um lastro para os detratores de Tarantino que o atacam por ter "nada a dizer" sobre violência (enquanto raramente possuem a compreensão que falta a ele).

E ainda assim...

No mundo "real" dominado pela mídia, os filmes de Tarantino possuem um status icônico. (É uma ironia não aclamada que durante a Guerra do Iraque, um dos momentos definitivos da história recente, uma cópia de "Pulp Fiction" foi encontrada no palácio de Saddam, o antigo aliado do Ocidente.) Nesta era pós-moderna, ele é o coreógrafo que mescla a evocação barata do imaginário pop com atrocidade. Apesar de toda a fragilidade da premissa de "Kill Bill", esse escritor foi fisgado no momento em que ouviu Nancy Sinatra entoando as palavras bang bang, that awful sound – remetendo até sua primeira infância nos meados anos 1960 – com uma imagem terrível de Uma Thurman detonada. Para nós, literatos não sofisticados da mídia, emoções intensas e primitivas ressoam de justaposições como essas.

Esqueça a grande ópera. Tarantino é Artimanha Encarnada.

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