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Em nova HQ, autor de "Retalhos" retrata fábula romântica no islamismo

Divulgação/Alicia J. Rose
O quadrinista norte-americano Craig Thompson, autor de "Retalhos" e "Habibi" Imagem: Divulgação/Alicia J. Rose

Márcio Padrão

Do BOL, em São Paulo

16/08/2012 07h00

Em tempos de mudanças políticas no Oriente Médio causados pela onda de protestos conhecida como Primavera Árabe, a Companhia das Letras está lançando nesta semana "Habibi", quarta graphic novel do norte-americano Craig Thompson, conhecido no Brasil principalmente pelo seu maior sucesso de público e crítica, "Retalhos", de 2003.

A história de "Habibi" - que levou o prêmio Eisner deste ano na categoria melhor escritor/ilustrador - vai na contramão dos acontecimentos recentes no Oriente para abordar uma fábula romântica entre dois ex-escravos e as dificuldades pelas quais passarão para ficar juntos. As influências diretas de Thompson durante os sete anos de produção de "Habibi" foram o Corão e as lendas das "Mil e Uma Noites".

Em entrevista por telefone, o artista de 36 anos comentou um pouco sobre a produção da obra e como ela se conecta com seu estilo intimista e sua abordagem cheia de nuances sobre os relacionamentos amorosos e a sexualidade, características que o tornaram aclamado em "Retalhos".

Thompson, que teve uma rígida educação catótica na infância, se interessou pelas semelhanças entre o islamismo e o cristianismo, mas tentou não perder o foco na força do amor e traumas sexuais do casal protagonista, uma prostituta e um eunuco com uma diferença de idade de nove anos entre os dois. "Todos esses detalhes da história são só camadas do céu e do inferno pelo qual esses personagens irão atravessar para estar juntos", afirmou.

As cenas de estupro em "Habibi" e o olhar fantasioso sobre a cultura árabe incomodaram parte da crítica americana, mas Thompson garante que foram as únicas críticas reais à obra. "Ironicamente, muçulmamos e leitoras se identificaram e entenderam o livro", afirma o autor.

  • Divulgação

    Capa do romance gráfico "Habibi", de autoria do norte-americano Craig Thompson

UOL - A produção de "Habibi" consumiu sete anos, não foi?
Craig Thompson -
Foram dois anos escrevendo, quatro anos desenhando e eu levei mais outro ano para fazer o trabalho de produção, design e a agenda de promoção, então tudo junto dá sete anos.

Antes de "Habibi" existir, como era seu ponto de vista da cultura árabe?
Eu diria que era realmente boa. É um tanto difícil examinar qualquer grupo de pessoas com uma grande cultura étnica mas eu realmente acho que, como indica a Primavera Árabe, a dinâmica entre eles está mudando e está se tornando mais liberal. Em todos os meus encontros com essa cultura árabe e islâmica eu encontrei pessoas com a mente muito aberta e elas realmente introduziram novas ideias na discussão.

Mas sua perspectiva sobre esse assunto mudou muito de sete anos para cá?
Sim. Eu não tinha nenhum amigo muçulmano e certamente a expectativa de trabalhar no livro me colocou mais próximo de um círculo de amigos muçulmanos. E olhei para a fé islâmica pela primeira vez na minha vida. Eu estava lendo o Corão e fiquei interessado nas conexões, porque eram uma nova forma de observar meu repertório cristão com o qual cresci. Existem muito mais conexões entre essas religiões do que diferenças. Eu tinha isso como um trampolim para relacionar todos esses elementos. Mas a história interage também com os muçulmanos americanos e ocidentais. Através deles tive uma visão com mais nuances do que a experiência de apenas conhecer pessoas no Oriente Médio.

Por que pular de "Retalhos", uma história de cunho pessoal e intimista, para o retrato sobre culturas estrangeiras, como em "Carnet de Voyage" e "Habibi"?
Bem, o núcleo é na verdade bastante pessoal. Não em um sentido literal mas em um sentido emocional, naquela dinâmica entre os dois personagens, Dodola e Zam. Eu queria fazer um livro que examinasse a questão do trauma sexual, que toquei muito suavemente em "Retalhos" com a cena da molestação da baby-sitter. Quando eu era criança alguém muito próximo de mim foi estuprado. Essa experiência afetaria minha própria sexualidade e é algo que eu gostaria de examinar mais de perto. Acho que trabalhar em um mundo fictício com todas essas distrações e ornamentações me ajudou a ser mais honesto com a realidade, com o trauma sexual e o lado negro disso.

  • Reprodução

    "Na maior parte da história eu foco na beleza da cultura islâmica. Obviamente muito disso está no visual dos padrões de ornamentação, na poesia, e claro, na caligrafia", diz Craig Thompson

Como foi a recepção ao livro nos Estados Unidos?
Foi uma grande recepção, eu não posso reclamar. Talvez a maioria dos leitores seja de fãs de "Retalhos" que continuam comigo e também apoiam esse projeto. E também encontrei muitos leitores novos pelo caminho. Mas o irônico é que toda a repercussão crítica contra o livro tenha vindo de leitores americanos conservadores progressistas. Fora isso, eu não tive nenhuma crítica de fora dos Estados Unidos. Conheci alguns leitores muçulmanos e leitoras que se identificaram e entenderam o livro, o que não aconteceu com muitos leitores masculinos brancos americanos.

Você tinha em "Habibi" uma oportunidade para derrubar antigos preconceitos do Ocidente sobre a cultura do Oriente através de uma história de amor. Acha que o objetivo foi cumprido?
Acho que sim. Na maior parte da história eu foco na beleza da cultura islâmica. Obviamente muito disso está no visual dos padrões de ornamentação, na poesia, e claro, na caligrafia. Por outro lado, deliberadamente estava criando algo como uma fantasia das Mil e Uma Noites. Então você pode dizer que pega emprestado estereótipos muçulmanos, mas era um alívio perceber a beleza e o senso de brincadeira deles.

Foi um desafio adaptar seu estilo de desenho à formalidade da caligrafia árabe? Em "Retalhos", por exemplo, seu traço é bem mais solto.
Acho que foi, pois o que eu estava fazendo era essencialmente glorificar o traçado. Eu não iria me expressar nessa caligrafia, pois eu não consigo ter fluência nessa língua. Em "Retalhos" eu tentava ser bem rápido, bastante expressivo e meio "desleixado" às vezes. E havia uma real precisão que "Habibi" requeria. De certo modo eu estava procurando fazer um livro de gravuras e ilustrações.

  • Reprodução

     "Acho que a vida dos dois protagonistas, Dodola e Zam, possuem diferentes fases de uma relação romântica", diz Thompson

A premissa de "Habibi" parte da escravidão dos protagonistas, que fogem juntos e depois se apaixonam. Seria uma metáfora do amor como uma chave para a liberdade?
Eu não sei se era a minha intenção. Acho que a vida dos dois protagonistas, Dodola e Zam, possuem diferentes fases de uma relação romântica. Suas experiências românticas no primeiro ato do livro tem a ver com a infância, com inocência e semelhanças com um sonho. O segundo ato, todo construído na separação, mostra como adolescentes se amam e o quanto isso dura. E no terceiro ato há o reencontro e eles precisam lidar com as realidades da vida adulta. Eles não estão mais à mercê das forças externas mas há forças internas em suas personalidades. Todos esses detalhes sobre o ambiente, ou religião, ou escravidão, são só camadas do céu e do inferno pelo qual esses personagens irão atravessar para estar juntos.

Você contou com a consultoria de amigos muçulmanos enquanto escrevia "Habibi". Como foi a rotina dessa contribuição? Eles ficaram satisfeitos com o resultado?
Acho que sim. Todos eles ficaram felizes. Nenhum dos meus amigos com os quais trabalhei na HQ tiveram qualquer problema com o livro. Alguns acharam que talvez fosse ser um pouco irritante para as famílias deles, mas até eles gostaram.

  • Reprodução

    "Creio que as artes visuais estão ficando mais populares no geral e estamos nos tornando uma cultura visualmente orientada", diz Thompson

Você afirmou uma vez que criou "Retalhos" como "uma reação aos típicos quadrinhos americanos". Poderia falar mais sobre o estado atual desses quadrinhos na sua opinião?
Quando fiz "Retalhos" havia alguns exemplos de graphic novels mas não como hoje, com tantos gêneros diferentes lá fora. Acho que estes são anos de glória para as graphic novels americanas. Alguns desses gêneros, como por exemplo os super-heróis, limitam a mídia um pouco e estão migrando mais para o digital. As pessoas estão olhando mais para as histórias de longa duração e mais íntimas. A paisagem criativa mudou bastante nos últimos dez anos na América. E eu acho que é provavelmente internacional. É um tempo difícil para as editoras pois as pessoas estão comprando menos livros e por disso há menos impressões. Mas creio que as artes visuais estão ficando mais populares no geral e estamos nos tornando uma cultura visualmente orientada, então as HQs estão sobrevivendo a um monte dessas transições na indústria das publicações.

Você tem contato com artistas brasileiros, como Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Grampá. Como você avalia a produção desses artistas e como elas se conectam às suas impressões do Brasil?
Fábio e Gabriel são dois dos meus amigos mais próximos na indústria. E claro, na Comic Con deste ano passamos um bom tempo nos falando. Acho que temos realmente estilos próximos, especialmente Fábio e eu, porque trabalhamos com pincel, há uma certa sobreposição entre o jeito que trabalhamos, mesmo no conteúdo. Outro artista brasileiro que conheci na Comic Con foi Grampá, e adoro seu trabalho. Não tive a chance de conhecê-lo quando fui ao Brasil. Mas em geral o que sei do Brasil é que é o país do futuro. Sinto isso nos quadrinhos daí também, sinto um monte de energia neste momento dos quadrinhos brasileiros.

Como será seu próximo projeto?
O livro no qual estou trabalhando será sobre uma aventura de amizade para todas as idades. É bem diferente de tudo que fiz antes, será todo colorido, com cerca de trezentas páginas. É uma história divertida, um épico familiar em uma nave espacial. Mas é também sobre luta de classes, crise ambiental e crises energéticas em geral, então haverá alguns elementos sérios também. Estou quase terminando para o ano que vem, então creio que deverá ser publicado em 2014.


"Habibi", de Craig Thompson
672 páginas
Preço sugerido: R$ 57
Companhia das Letras

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