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Coautor de "Elite da Tropa" retrata traficante e diz que seu personagem não é Johnny

Bruno Veiga/Divulgação
O escritor Luiz Eduardo Soares, autor de "Tudo ou Nada", que participa da Flip 2012 Imagem: Bruno Veiga/Divulgação

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

15/06/2012 07h00

Depois de comandar a secretaria nacional de segurança pública e ajudar a dar vida ao Capitão Nascimento como coautor dos livros “Elite da Tropa” e “Elite da Tropa 2”, Luiz Eduardo Soares, 58, um dos convidados da Flip 2012, agora retrata um personagem que pode parecer familiar para leitores e espectadores de cinema: um carioca de classe média alta que se envolve com o tráfico de drogas e acaba na prisão. Mas o autor faz questão de apontar que o protagonista de “Tudo ou Nada”, seu novo livro, não é Johnny.

“As características gerais são muito parecidas”, diz, referindo-se a “Meu Nome Não É Johnny”, livro de Guilherme Fiuza sobre João Guilherme Estrella, que inspirou o filme homônimo. “Quando eu conheci o Ronald, imediatamente fiz a associação e achei que não haveria originalidade e necessidade de contar mais uma história. Mas depois entendi que se tratava de uma história muito diferente, também muito original e muito significativa como aquela, mas bastante distinta. O João Estrella foi preso com seis quilos de cocaína e se vinculou ao comércio da droga por conta do seu vício, enquanto o Ronald foi condenado por estar vinculado ao tráfico de duas toneladas, numa rede internacional que conectava o cartel de Cali à Europa”, conta.

Ronald é Ronald Soares, um ex-operador da Bolsa de Valores, hoje com 61 anos, preso em 1999 em Londres. De 1996 a 1999, ele usou a experiência dos anos no mercado financeiro para cuidar da tesouraria e a perícia como velejador para traçar rotas de tráfico para a conexão Colômbia-Caribe-Inglaterra, que movimentava uma tonelada de cocaína e 20 milhões de libras por ano. Com o nome fictício de Lukas Mello, Soares apresenta a trajetória desse personagem, que abandonou uma carreira promissora para realizar o sonho de navegar pelo mundo e mais tarde acabou se envolvendo com o tráfico internacional de drogas.

“O livro é um mergulho nos bastidores do tráfico internacional, mas também na vivência individual de um personagem real. Acompanha um personagem que não é tão diferente dos leitores, e que fez um caminho muito particular. Ele se identificava com o movimento hippie, o momento em que a droga por excelência era a maconha. Depois, ele vivenciou a outra etapa cultural, a etapa yuppie, da glorificação do mercado, da ambição, da competitividade agressiva, do lucro a qualquer custo, o momento da derrocada das utopias socialistas, de sepultamento daquele movimento hippie. E a droga por excelência desse momento é a cocaína. Ele passa por esses dois momentos e passa por outra etapa importante: a conversão do consumo da droga em comercialização”, conta.

Assim como os livros anteriores de Soares, a história de “Tudo ou Nada” também é bastante cinematográfica, mas ainda não existe nenhuma perspectiva concreta de levá-la às telas. “Já houve manifestações de interesse, mas não há nada de concreto. Acho que poderia se transformar num filme interessante. É uma história humana muito rica e complexa, mas é também cheia de aventura, com locações muito interessantes. Mas, justamente por tudo isso, seria uma produção muito cara e isso afasta as pessoas interessadas”, diz o escritor, que evita apontar um cineasta como sua escolha para uma possível adaptação. “Eu tenho amigos no cinema e não poderia constranger ninguém”, desconversa.

  • Daniel Marenco/Folhapress

    Ronald Soares (esq.) e o escritor Luiz Eduardo Soares, que narra sua história de associação ao tráfico internacional de drogas (21/5/2012)

Flip, ditadura e Capitão Nascimento

Além de lançar o novo livro, Soares participará da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na mesa “Autoritarismo, passado e presente” (5 de julho, às 19h30). Ao lado de Fernando Gabeira e com mediação de Zuenir Ventura, ele vai discutir a relação entre as ações de agentes do estado durante a ditadura e a violência policial e afirma que as duas coisas estão ligadas a um terceiro elemento, que é a forma como o Brasil passou da ditadura para a democracia.

“Nós não vivemos o momento da verdade, pensando na equação do [Nelson] Mandela, que considerava possível e necessária a reconciliação nacional, mas achava indispensável olhar nos olhos o passado recente, chamar o crime pelo seu nome –a tortura de tortura, o assassinato de assassinato – e deixar claro o que aconteceu, sem hipocrisia, sem cinismo, para que a sociedade pudesse exorcizar esse momento. O Brasil, como costuma acontecer entre nós, desviou os olhos da barbárie desses anos. Então, isso persiste e nos assombra como uma espécie de espectro do passado. Se não houve esse momento de crítica nacional, de manifestação de horror e de repulsa à tortura e à barbárie praticadas pelo Estado, os agentes do Estado podem perfeitamente  se sentir autorizados a replicar as velhas práticas. Nós não podemos dissociar a persistência da tortura e a brutalidade praticada por representantes do Estado ainda hoje da natureza da nossa transição”, afirma.

  • Divulgação

    Capa de "Tudo ou Nada", de Luiz Eduardo Soares

Soares ressalta que isso só acontece porque a sociedade brasileira “é marcada por valores autoritários, que às vezes enaltecem a violência”. Para ele, são esses mesmos valores que levaram grande parte do público a transformar em herói o Capitão Nascimento de “Tropa de Elite”, baseado no livro de que é coautor.

“O propósito do diretor, do roteirista, dos atores, não era de modo algum apresentar o Capitão Nascimento como herói, mas ao contrário, como o anti-herói, aquele que tinha boas intenções, mas estava atormentado e acabava produzindo o contrário do que desejava. Se ele imaginava contribuir para a paz e a segurança, na realidade realimentava o ciclo da insegurança e da brutalidade. Essa visão mais complexa do personagem não correspondeu à visão de segmentos do público que, justamente por apreenderem o filme a partir de valores autoritários, discriminatórios, capazes de tolerar e de endossar a violência, acabaram atribuindo ao anti-herói uma virtude e se identificaram com a brutalidade do personagem”.

Para o escritor, levar uma discussão como essa a uma festa literária é algo muito natural. “A literatura tem sido fundamental para esse debate. Se nós tomarmos como exemplo Shakespeare, eu não consigo imaginar que temas da violência, do autoritarismo, da brutalidade, do respeito à dignidade humana estivessem ausentes das suas grandes construções dramatúrgicas. As grandes obras da literatura são formadoras da nossa sensibilidade, de nossos valores, de nossas tradições”, diz.

Ainda assim, depois de mais uma imersão no universo da criminalidade, Soares deseja abordar outros temas. “Eu gostaria de sair um pouco desse universo, porque ele começa de tal maneira a fazer parte da sua vida que cobra um preço. Mas eu não tenho controle sobre isso. É uma ilusão achar que a gente escolhe os caminhos”, diz o escritor, que já tem entre seus próximos projetos uma graphic novel, sobre a qual ainda não pode dar detalhes. “Não aborda exatamente os mesmos temas, tem uma ligação, mas surpreende por uma abertura de ângulo e temática”.


"Tudo ou Nada"
Autor:
Luiz Eduardo Soares
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 352 páginas
Preço: R$ 34,90

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