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Adaptação em HQ de "Uivo", poema célebre de Allen Ginsberg, é só um ganido tímido

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Página dupla da HQ "Uivo", adaptação do poema homônio de Allen Ginsberg Imagem: Divulgação

Jerônimo Teixeira

Do UOL, em São Paulo

24/04/2012 07h00

É preciso coragem para transformar um poema em pinturas, desenhos, música ou filmes. Se o poema é ruim, não vale a pena o esforço; se é bom, fala por si mesmo. Se é excelente, uma obra-prima, grita, agarra o leitor com suas próprias imagens e sentidos. No caso de "Uivo", o primeiro e mais celebrado poema de Allen Ginsberg, maior poeta dentre os beatniks, essa simples constatação fala ainda mais alto.

Daí que a graphic novel de Eric Drooker - lançada agora no Brasil pela editora Globo - passa bem longe de transmitir a força transgressora de "Uivo", a despeito da melhor de suas intenções. As ilustrações são, na verdade, quadros da animação do longa de mesmo título, dirigido pela dupla Rob Epstein e Jeff Friedman. Talvez no filme funcionem melhor. Em papel são impotentes como suporte para as palavras incendiárias de Ginsberg – não à toa o poema foi censurado quando lançado em 1957, e seu editor, o também excelente poeta Lawrence Ferlinghetti, preso por uma breve temporada.

O traço de Drooker, que já havia colaborado com o generoso Ginsberg em Illuminated Poems, é preciso, mas pueril. As cenas reproduzem literalmente o que dizem as frases – o que, convenhamos, é um partido muito fraco. As cores, azuladas, esfriam o conteúdo. Mas o pior mesmo é a disposição na página do texto traduzido. Muitas delas trazem apenas duas ou três linhas, quando um dos aspectos mais marcantes do longo poema é a sensação claustrofóbica que ele proporciona, com suas imagens se sobrepondo umas às outras num ritmo alucinante, que mal dá espaço para a respiração ou mesmo uma reflexão detida.

É também um poema cerebral, cheio de ideias novas, com foco na crítica feroz ao "American way of life" e na celebração de uma cultura que florescia no underground. Mas, acima de tudo, é um poema sensorial, a um só tempo perturbador e libertador, musical e cacofônico, lírico e bestial – quase é possível sentir o cheiro de suas palavras, tal a intensidade de cada vocativo, metáfora, gíria, convocação, provocação, citação de artistas marginais, chamada à luta. 

Basta ouvir o próprio Ginsberg recitando-o, numa das gravações disponíveis que se encontram por aí (iTunes etc.). Há momentos em que parece que ele vai perder o controle (nunca perde, senhor de sua arte), em que ele vocifera com a raiva justa dos que não toleram mais a mediocridade e hipocrisia do mundo. Já nessa pálida graphic novel, o que se “ouve” é um tímido ganido. Pouco, muito pouco para algo tão grandioso.

"Uivo - Graphic Novel"
Autor: Allen Ginsberg
Ilustrações: Eric Drooker
Editora: Globo
Páginas: 274
Preço sugerido: R$ 34,90

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