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"Chamadas Telefônicas" é mais uma prova do domínio narrativo do escritor Roberto Bolaño

Marta Barbosa

18/03/2012 07h00

É impressionante a herança literária deixada por Roberto Bolaño, morto em 2003. “Chamadas Telefônicas” (tradução de Eduardo Brandão, Companhia das Letras) é mais uma prova do domínio narrativo desse escritor chileno que só começou a publicar dez anos antes de sua morte em Barcelona, cidade onde viveu sua última década.

Nesta coletânea de histórias curtas, há um pouco de tudo que marca a breve obra de Bolaño. O escritor latino-americano que custa a identificar seu espaço na sociedade e que está sempre às voltas do fracasso profissional está lá, marcando os textos da primeira parte do livro. A violência gratuita, que não está baseada em explicações muito racionais, também aparece determinando os enredos da segunda parte de “Chamadas Telefônicas”.

Finais abruptos e nada conclusivos são traços que identificam o autor, um mestre em esconder mais que mostrar de seus personagens. Bolaño abre possibilidades de leituras. Seus contos não são conclusivos, ao contrário, dão ao leitor inúmeros caminhos interpretativos. E na maioria das vezes o que parece no começo na narrativa já não é tão certo ao final.

Há muito de biográfico no livro, como em “A Neve”, onde o escritor relata a angústia de um jovem filho de comunistas chilenos, com vocação para a bandidagem e sem nenhum romantismo em relação à causa política dos seus pais. Antes de se exilar na então União Soviética, a família se refugia na embaixada daquele país em Santiago.

“Eu dormia no corredor e tentava paquerar a filha de um companheiro do meu pai, mas aquela gente passava o dia todo cantando a Internacional ou o No pasarán. Enfim, um ambiente deplorável, como de festa de crente.”

Nesse mesmo texto, o autor se ocupa em comparar as personalidades de eslavos e latinos. A despeito de todo racionalismo e mesmo frieza com que os russos do seu círculo de amizade encaravam a vida, o protagonista acredita numa similaridade de almas. “A alma eslava talvez agüentasse muito mais álcool, mas era só.”

Com uma narrativa clara, simples, econômica de adjetivos, a obra tem seu ponto alto no texto que dá título ao livro, “Chamadas Telefônicas”. Aqui o protagonista identificado apenas pela letra B leva um fora da namorada, chamada por X, por telefone.

A angústia de uma relação que termina sem as respostas que um homem apaixonado espera permeia todo o texto, marcado não exatamente por conversas telefônicas, mas por silêncios e ligações anônimas. Mais uma vez a possibilidade do real é o que determina o enredo. O desfecho trágico e inesperado coroam o estilo narrativo de Bolaño, um escritor de inúmeras virtudes que, no Brasil, só começou a ser publicado após sua morte.


“Chamadas telefônicas”
Autor:
Roberto Bolaño
Tradução: Eduardo Brandão
Editora: Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 39,00
216 páginas 

 

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