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"A Máquina Diferencial" une William Gibson e Bruce Sterling em narrativa steampunk

Guilherme Solari, do UOL, em São Paulo

11/02/2012 11h00

Lançado originalmente em 1991, “A Máquina Diferencial” é resultado do trabalho colaborativo de dois grandes nomes da ficção científica: William Gibson e Bruce Sterling. Os autores, que definiram o subgênero do cyberpunk em contos e obras como “Neuromancer”, misturam agora a atmosfera de hackers, inteligência artificial e redes de informação com o steampunk, a ficção científica baseada na época vitoriana. O resultado é surpreendente em diferentes aspectos.

A história se divide em “iterações” com histórias ambientadas em um século 19 paralelo no qual o Império Britânico desenvolveu os primeiros computadores 100 anos antes da realidade. Essas narrativas e personagens individuais se interrelacionam compondo uma trama maior de intriga política. Mas o ponto central de “A Máquina Diferencial” é mesmo a ambientação e imaginar o impacto que tecnologias como computadores de cartão e processamento de informação poderiam ter caso aparecessem antes.

Por esse motivo, “A Máquina Diferencial” traz para uma construção de mundo extremamente minuciosa, mesmo para os padrões da ficção científica. A vida pelas ruas da Londres da realidade alternativa do livro é descrita em seus mínimos detalhes, seja nas roupas, hábitos, tensões sociais, objetos, gírias e personagens históricos. Até mesmo o cenário internacional é reimaginado, com um império britânico mais fortalecido e os Estados Unidos dividindo a América do Norte com outras nações. Uma divisão que é fonte de constantes tensões políticas para o Reino Unido.

Não existe receita mais fácil para uma história enfadonha do que uma overdose de exposições em um livro com mais de 400 páginas como “A Máquina Diferencial” e é aqui que a experiência dos veteranos Gibson e Sterling faze toda a diferença. Cada parágrafo, por mais carregado de informações que seja, é bem preenchido e interessante, inserindo o leitor até o pescoço no universo da obra sem fazê-lo piscar de sono.

Fãs de ambos os autores ou da ficção científica em geral também devem apreciar que a versão nacional traz o postfácio incluído na edição comemorativa de 20 anos da obra. Nele, os autores explicam em parágrafos alternados o curioso processo de criação de “A Máquina Diferencial”. Ao longo de sete anos, Gibson e Sterling trocavam desde pilhas de disquetes com textos pelo correio quando os enviavam pela frágil conexão das redes discadas dos anos 1980. E no processo de escrita, as duas vozes dos autores se misturaram até aparecer outra terceira voz independente, um narrador resultante da própria interação entre os dois, um “Narratron”, como definem. “O resultado é um livro que não poderia ser produzido sem um processador,” analisa Gibson no postfácio.

“A Máquina Diferencial” é um livro repleto de neologismos, de termos antiquados ou de tecnologias não mais usadas; o que traz desafios bem particulares para se evitar uma tradução mambembe. Portanto é reconfortante constatar que a tradução da editora Aleph foi feita com o cuidado que a obra merece, levando em conta expressões idiomáticas, trocadilhos e adaptação de palavras ao português. O livro também contém ao final um guia de personagens e um muito bem-vindo glossário, que talvez ajude ser lido até antes da obra em si.

O interessante do steampunk dentro da ficção científica é como ele nos faz repensar a própria definição de ciência ao tornar futuristas tecnologias obsoletas. “A Máquina Diferencial” faz isso e vai além, sendo tanto uma história empolgante de dois veteranos do gênero como uma curiosidade narrativa sobre o processo de criação literário a quatro mãos.

 
“A Máquina Diferencial”
Autores: William Gibson e Bruce Sterling
Editora: Aleph
456 páginas
Preço sugerido: R$ 55

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