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Desenhistas brasileiros esperam no "banco de reservas" por um espaço no disputado mercado de HQs dos super-heróis dos EUA

DELFIN

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

14/11/2011 08h38

Desbravado em doses homeopáticas pelos primeiros brasileiros que passaram a desenhar para as grande editoras na década de 90, o mercado norte-americano de histórias em quadrinhos de super-heróis está cada vez mais atento ao traço e às cores verde-e-amarela. Hoje, são mais de uma centena de profissionais brasileiros ilustrando para empresas como Marvel e DC: uns já verdadeiros popstars dos gibis, outros esquentando o "banco de reservas" das editoras, à espera de uma oportunidade de ouro para pegar carona na capa do Superman ou na teia do Aranha.

“É difícil, você tem que saber controlar a ansiedade, porque até você conseguir ser regular, pode ser que demore. Ainda não chegou a minha hora. Enquanto isso, tem que tentar melhorar o trabalho até conseguir o objetivo, que é ser um artista fixo em uma revista”, disse Eduardo Pansica, 29 anos, que já fez desenhos para revistas de Superman e Mulher-Maravilha e é um dos vários artistas nacionais que fazem o chamado "fill-in", trabalho temporário de substituir profissionais nas publicações das "majors" das HQs. 

“A cobrança do trabalho do artista que substitui o artista regular é maior - o que é legal porque você se cobra mais. O problema disso é que você pode travar. Se ficar pensando demais em como vai resolver aquele problema, você acaba travando, prejudicando seu tempo e consequentemente a qualidade do seu trabalho”, explica Eber Ferreira, arte-finalista que já trabalhou com o Homem de Aço e Asa Noturna, para a DC Comics.

Rodney Buchemi, 37, atualmente está fazendo "fill-in" para o título "Uncanny X-Men", na Marvel. Veterano, ele compreende bem a oportunidade que é assumir uma chance assim que ela aparece. “O 'fill-in' é o cartão de visita, a grande chance. Você tem que fazer certo, cumprir os prazos, deixar bonito o seu trabalho e entregar dentro da data. Fazendo isso, você dá a deixa para te chamarem para um título fixo.”

Um dos artistas nacionais que soube agarrar esta chance foi o mineiro Ig Guara. Hoje, ele é responsável por um dos títulos de maior sucesso do relançamento dos títulos da DC que está chacoalhando o mercado norte-americano. Seu trabalho em "Blue Beetle" (Besouro Azul) é elogiado pelo público e pela crítica e é um dos grandes novos nomes do momento.

Para Ig, é "simples" conquistar o respeito dos editores. “O que eles prezam é o seu profissionalismo, você ser claro em tudo que faz e ter prazo. Eles não se importam muito em como é o seu processo. Contanto que você entregue direito, algo bem feito, eles permitem que você trabalhe do seu jeito.”

Foi com essa liberdade que ele surgiu para o mercado fazendo um dos mais descompromissados títulos da Marvel, "Pet Avengers", minissérie sobre uma espécie de grupo Vingadores do reino animal em que Thor é o sapo Throg. “'Pet Avengers' me deu um nome legal, porque foi uma coisa descontraída, o pessoal não estava esperando muita coisa, mas vendeu muito bem nos Estados Unidos. Foi por causa desse nome relativamente bom que a DC me fez uma proposta no início deste ano para trabalhar com eles.”

"Os novos filipinos"
Alguns dos artistas brasileiros atingem o nível de verdadeiros popstars. É o caso de Ivan Reis, um dos mais badalados artistas do mercado americano. Ele, que já trabalhou inclusive nos estúdios de Mauricio de Sousa, é um dos responsáveis pela revitalização de dois personagens antes considerados de segunda linha para o público: Lanterna Verde e Aquaman.

Reis acredita que o reconhecimento do seu trabalho e dos outros brasileiros é mesmo digno de nota. “Os brasileiros conseguiram gerar uma geração de profissionais como fizeram os filipinos nos anos 80, mas de forma mais profissional e, principalmente, cumprindo prazos e tendo uma visão do trabalho que acaba se destacando para o estrangeiro, principalmente o norte-americano. Porque o brasileiro, em geral, não é só um bom artista, mas também é muito responsável. Por isso tudo, são os estrangeiros mais bem vistos pelos editores americanos hoje em dia.”, afirma o artista, que entre outros títulos também já foi responsável pela arte do Superman, carro-chefe da DC e síimbolo máximo do norte-americanismo nas HQs.

“É muito bacana esse reconhecimento, mas é importante lembrar que eles nunca tiveram preconceito com os artistas estrangeiros. Sempre receberam bem os artistas filipinos e europeus, por exemplo. Mas com a internet ficou muito mais fácil fazer seu trabalho chegar lá", relativiza Reis.

Uma das principais portas de entradas para o mercado estrangeiro de quadrinhos pode estar mais próxima do que se imagina. Eventos dedicados às HQs, como o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ-BH), que teve sua última edição encerrada neste domingo, aproximam os profissionais locais de editores e agentes internacionais, que guardam parte do tempo para avaliar os portifólios dos talentos nacionais.

Foi assim com Eduardo Pansica. “As coisas começaram a andar no FIQ de 2007. Eu ainda não trabalhava com o Joe Prado, mas ele veio, gostou muito do meu trabalho em uma avaliação de portifólio e disse: ‘Cara, seu trabalho tá quase pronto pra DC, vamos tentar’. Só que eu tinha um contrato com uma editora independente até o final de 2008. E em 2009, retomei o contato com o Joe, ele foi me dando umas dicas, fui ajustando o meu trabalho até conseguir entrar na DC”, lembra.

  • Nathália Turcheti/Divulgação

    Joe Prado, da Art & Comics, e Larry Ganem, da DC, avaliam portifólios durante o FIQ-BH

Trabalho de irmão mais velho
O Joe a que ele se refere é Joe Prado, 38, um dos primeiros artistas nacionais a desbravar o mercado americano e hoje agente do estúdio Art & Comics. Mas Joe não se considera uma espécie de chefe, de modo algum. “Você ser agente não é você ser chefe de ninguém. São os artistas que são chefes. Os artistas, que são os clientes, contratam o estúdio para prestar o serviço para eles. Se o cliente não está satisfeito com o serviço, ele pode sair”, diz Prado, explicando o seu papel no processo de produção. “Eu corro atrás de trabalho pra eles, eu cuido da carreira deles, junto com eles. É tipo um trabalho de irmão mais velho, psicólogo, confidente. É uma grande responsabilidade.”

Apenas o estúdio Art & Comics representa, hoje, 40 profissionais e está no mercado há vinte anos. Um grande número de artistas já se estabeleceu graças ao trabalho feito para o mercado americano. Por que, então, eles muitas vezes são desconhecidos do grande público?

Daniel HDR, professor da Unisinos e artista que já trabalhou com Vingadores, Homem de Ferro e a Legião dos Super-Heróis, acredita que é um problema do mercado local, que não está profissionalizado o suficiente para valorizar os profissionais da área. “Quando o mercado brasileiro, que ainda é muito ralo, conseguir alinhavar questões que estão em plena transformação, como internet, distribuição e produção, aí eu acredito que, sim, um autor que trabalhe frequentemente pro mercado americano vai se sentir mais seguro em produzir trabalhos para cá.”

É também a opinião de Rodney Buchemi. “Para repatriar os artistas que hoje trabalham no mercado americano, falta um investimento maior das editoras. Por exemplo, pagar o preço que vale o meu trabalho. E também questão de incentivo mesmo. Não se trabalha o autor brasileiro em eventos como esse, por exemplo”, cobra.

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