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"Às vezes, acho que meus personagens vão bater na minha porta", diz valter hugo mãe na Flip

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
Em Paraty (RJ)

08/07/2011 21h00

Todos queriam ver a musa de perto. E ela não decepcionou. A argentina Pola Oloixarac é mesmo linda. Mas surpreendentemente, quem chamou mesmo a atenção foi o português que assina em minúsculas, valter hugo mãe. Suas falas foram recebidas com aplausos emocionados. Chegou a ser ovacionado, com o público de pé, depois que leu um texto explicando por que ama o Brasil.

O que não significa que Pola tenha sido desinteressante. Ao contrário, usando uma minissaia roxa e batom vermelho vivo, ela também surpreendeu, de certa forma. Oposto da mulher fatal, da imagem de vamp, mostrou-se tímida, doce e gentil. Interessada pela conversa, fez perguntas diretamente ao colega escritor.

Ambos colocaram-se na contramão do escritor romântico, que "sofre". Para ela, os personagens de seu "As Teorias Selvagens" (ed. Benvirá) são amigos, com quem conversa e se diverte, e o "romance é um laboratório, um lugar em que é possível entrar e brincar com a ideias". Valter concorda: “Às vezes, acho que [os personagens] vão bater na minha porta”.

Nascido em Angola mas criado em Portugal, hugo mãe, autor de "Máquina de Fazer Espanhóis" (Cosac Naify), livro elogiado por Saramago e Lobo Antunes,  vê a literatura como salvação: "O sofrimento está na vida". E apesar do basear-se em figuras reais, como seu pai, diz que seus livros não são autobiográficos, e que, na verdade, escreve para preencher o que lhe falta.

Quando falou de sua relação com o Brasil, mencionou a influência das novelas, da música dos Titãs e do Legião Urbana ("chorei muito quando morreu Renato Russo") e de suas vizinhas brasileiras, muito populares em sua cidade. No texto que leu ao final, contou, com bom humor, como elas foram indiretamente decisivas na sua iniciação sexual. Aliás, é provável que isso se repita, já que ele declarou que está louco para ter um filho. Depois dessa mesa, candidatas é que não vão faltar.

Mutarelli em cena

  • André Conti/Divulgação Flip

    Lourenço Mutarelli em apresentação na Flip (8/7/2011)

Lourenço Mutarelli estava lá. Viu o papo entre Pola e Valter e disse ter gostado muito. Ele é o autor da bela capa e da orelha do livro do autor português. Coincidentemente, é autor também das capas dos romances gigantes de James Ellroy, de quem leu tudo, com admiração. (Ontem Ellroy declarou que eram as capas mais bonitas de seus livros dentre as múltiplas edições que já viu. Conto isso ao artista e escritor, e seu rosto se ilumina).

Destaque da programação da Casa de Cultura, dentro do projeto Autores em Cena, com curadoria de Marcelino Freire e que pela primeira vez vem para Flip, desde que começou, há quatro anos, Mutarelli apresentou uma mini-peça chamada "O Outro". “È algo fotográfico, quase holográfico”, explica.

Primeiro eu tentei escrever, mas achei tudo meio afrescalhado

Lourenço Mutarelli, sobre texto para a peça "Os Outros"

Isso porque ele fica estático em cena quase todo o tempo, enquanto sua voz gravada é ouvida em meio a ruídos de respiração artificial e chiados. O efeito é forte. Ainda mais porque se trata da narrativa de como seu pai, em estado terminal por conta de um câncer, morreu depois de uma injeção de morfina. (Curiosamente, há vários autores da Flip falando sobre o luto: Esterházy e Carrère, por exemplo).

"Primeiro eu tentei escrever, mas achei tudo meio afrescalhado. Aí perguntei ao Niltinho (o ator Newton Bicudo, que dirigiu a peça) se podia simplesmente contar ao público. Ele disse que não dava, por causa da marcação. Então resolvi gravar e depois transcrever. Mas ele gostou tanto que acabou usando a gravação."

A montagem lembra Beckett, de quem ele se diz fã. E Ionesco. "Li a obra completa dele de uma vez. Acho que as pessoas o interpretam mal. Seu humor é desconcertante, perturbador. Ele faz um retrato implacável da nossa condição patética".

Humor também não falta no texto gravado pelo autor de "Natimorto e Cheiro do Ralo", entre outros. O público ri bastante quando sua voz conta que, depois que o pai o olhou "com desaprovação" (em relação ao uso misericordioso da morfina) e morreu, mão na sua mão, ele desceu com o RG para pegar o atestado de óbito e, como os nomes são iguais, viu que o atestado fora trocado. Pelo documento, era ele quem tinha morrido. "Pedi para ficar com o atestado, 'segue a gravação', disse que isso ia resolver um monte de problemas para mim”.

Certamente o pai, um delegado de polícia com talento artístico, que desenhava e pintava como o filho, "o outro", teria aprovado.

  • André Conti/Divulgação Flip

    O autor norte-americano James Ellroy em entrevista para a imprensa na Flip (8/7/2011)

'Fuck You!'

O norte-americano James Ellroy, por sua vez, também "se apresentou" na coletiva dessa sexta. Falando num ritmo pausado, oposto à velocidade alucinante das frases em seus livros, tirou sarro de tudo quanto pôde. Sobrou até para a mãe, objeto de obsessão, desde que ela foi assassinada, quando ele tinha dez anos, e tema do livro "My Dark Places": "Se você não tiver uma relação traumática com sua mãe, pode ter certeza de que sua vida sexual não será boa", disse.

O autor de "Sangue Errante" (Record), catatau que faz empalidecer outros livros policiais, detonou também a internet: "Hoje todo mundo acha que é escritor só porque tem um blog. Fuck You!" Tudo na maior lisura, o sarcasmo atenuado pela simpatia. Acha que e-mails são "para covardes" e, fazendo o famoso gesto onanista, diz detestar as redes sociais ("Arruma um emprego!").

Sobre a obra, declarou que suas maiores influências foram os músicos. Beethoven, Bruckner e todos os grandes românticos. Acredita que Beethoven foi precursor de muito do que veio depois, inclusive o bebop e o jazz em geral. Imagine se tivesse sido influenciado pelos Sex Pistols...

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