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Principal festival de foto do mundo inclui pinturas egípcias, paparazzo e web em Madri

MARIO GIOIA
Colaboração para o UOL
Em Madri (Espanha)*

09/06/2011 17h00

A 14ª edição do Photoespaña, que se estende até o próximo dia 24 de julho e sedimenta seu status como o mais importante festival de fotografia e artes visuais em âmbito mundial, elegeu o retrato como seu principal eixo temático. Mas isso não significa que haja apenas fotografias -- o curador cubano Gerardo Mosquera amplia a leitura das "interfaces" enfatizadas no título do Photoespaña 2011 para linguagens como o cinema, a videoarte, a instalação, a pintura e a web, entre outras.

As 21 mostras oficiais que se ramificam pelo circuito cultural de Madri (uma delas é exceção, ocorre em Lisboa) e as mais de 60 do circuito paralelo fazem com que as principais zonas turísticas da capital espanhola recebam a identificação em amarelo e preto do festival, bastante característica do evento. A maioria dos eventos tem entrada franca, o que confere um público cada vez maior ao festival. Grandes museus da cidade, como o Reina Sofia, também sustentam o prestígio do Photoespaña.

Mosquera, curador conhecido no Brasil -- assinou o "Panorama da Arte Brasileira, no MAM paulistano, em 2003 -- e com prestígio em instituições internacionais, como o New Museum, em Nova York, realiza a sua primeira organização, de um total de três, em plena crise econômica na Espanha (o desemprego chega perto dos 20%). Mesmo assim, conseguiu, com patrocínios privados garantidos pela direção do evento, frisar o seu olhar sobre a arte mundial, em especial destacando América Latina e Ásia.

"Quero ir ao extremo nas ligações entre fotografia e artes visuais, movimento que meu colega, Sergio Mah, fez nas três edições anteriores", afirmou o curador ao UOL, referindo-se ao curador radicado em Portugal que fez três edições exemplares do evento.

Subversões

  • The Trustees of the British Museum

    Retrato de múmia de um sacerdote. Pintura achada na necrópole de Al Fayum, no Egito, está no Photoespaña

A primeira "subversão" de Mosquera foi incluir o Museu Arqueológico Nacional no roteiro do Photoespaña e criar elos entre pinturas achadas na necrópole de Al Fayum, no Egito, realizadas entre os séculos 1º e 4º d.C., e o vídeo "Centro de Permanência Temporária", de Adrian Paci. As telas mortuárias, "que trazem imagens de cidadãos indo para o além", ganham interessante dramaticidade com os rostos angustiados dos imigrantes ilegais, dispostos em uma escada de avião deslocada na pista de um aeroporto, presentes na projeção de Paci. "O fotográfico existia muito antes do que aquilo que se convencionou ser a fotografia propriamente dita", explica Mosquera.

Outro trunfo de Mosquera foi incluir numa mostra bastante contemporânea no espaço Alcalá 31, ao lado dos badalados Cindy Sherman e Thomas Ruff, o desconhecido trabalho do mexicano Frank Montero, que viveu na virada dos séculos 19 e 20 entre Puebla e a capital do país. Nas 19 fotografias, Montero é quase um "performer", que se retrata de protagonista da ópera "Pagliacci", de Leoncavallo, a uma dama japonesa. "Os registros foram encontrados no ano passado por um colecionador mexicano e são inéditos. Achei que daria um bom complemento à conhecida mimese de Sherman e às 'desidentidades' das fotos de Ruff."

O fotográfico existia muito antes do que aquilo que se convencionou ser a fotografia propriamente dita

Gerardo Mosquera, curador

O crítico cubano também arriscou ao ter na programação as fotos em preto e branco do paparazzo norte-americano Ron Galella, expostas no andar de cima de uma elegante loja de roupas e no Círculo de Belas Artes. "Sou um romântico", diz o fotógrafo, que recebeu um soco de Marlon Brando, foi processado por Jackie Kennedy e salienta que seus melhores cliques aconteceram de forma "desprevenida, improvisada e espontânea".

Brasileiros

A exposição central do Photoespaña 2011, "Face Contact", tem uma única, mas forte presença brasileira. A série "O Debate", do fluminense Jarbas Lopes, preenchia em seu grande tamanho uma das paredes do espaço expositivo do teatro Fernán Gómez. O trabalho consiste em trançados que exploram um lado quase monstruoso das imagens de propaganda eleitoral originárias de outdoor e, no contexto da coletiva, propiciam um comentário político forte à construção da imagem. Lopes ladeava nomes importantes da arte atual, como a indiana Shilpa Gupta, o alemão Hans-Peter Feldmann (que estará na próxima Bienal de São Paulo, em 2012) e o chileno Eugenio Dittborn (homenageado da próxima Bienal do Mercosul, em setembro próximo).

Na mesma coletiva, Mosquera escolheu a blogueira e ativista cubana Yoani Sánchez para atestar a presença do fotográfico na internet. Com um terminal exibindo o blog Geração Y, da autora, uma espécie de fotonovela foi apresentada como o trabalho de Sánchez. O blog "Beautiful Agony", em processo, também foi integrado à coletiva e apresenta filmagens de pessoas tendo orgasmos ao redor do mundo (mas apenas seus rostos são enfocados).
 

  • Cortesia PHE

    Fotografia do gaúcho radicado em São Paulo Ricardo Barcellos, que exibe no Photoespaña vídeos derivados de série "Ruína em Construção"

A outra mostra com destacada participação nacional é "Peso e Leveza", no Instituto Cervantes. O mineiro Pedro Motta e o gaúcho radicado em São Paulo Ricardo Barcellos apresentam obras que estão entre as mais interessantes do recorte. Motta isola em sua série caixas d´água de aspecto modernista, anteriormente presentes em construções algo perdidas na paisagem do interior de Minas Gerais. "Há uma discussão entre a natureza e o que é construído, sempre debatida em minha obra", diz ele. Já Barcellos exibe vídeos derivados de série "Ruína em Construção", premiada com o Conrado Wessel no ano passado. "É como se suspendesse o tempo", afirma ele, cujos vídeos filmam em câmera fixa um prédio em construção em São Paulo.

Outras exposições e circuito off

Em um festival tão extenso, muitos artistas sem tanto status surpreendem o espectador. Na coletiva do Cervantes, por exemplo, a nicaraguense Mayerling García e a mexicana Eunice Adorno se destacam por um retrato sutil de universos urbano (García, do bairro El Crucero, em Manágua) e feminino (Adorno, registrando o cotidiano de uma comunidade de menonitas).

A nova fotografia romena também é responsável pela vibrante coletiva "Bucareste - Cidade Paradoxal", exibida no nada badalado Museu da Cidade. Com várias linguagens -- vídeo, filme, cartões postais e fotografias --, a curadora Oana Tanase reúne obras que atestam um certo panorama de ruína da capital do país do Leste Europeu.

O Matadero Madri, centro dedicado às novas mídias, tem na videoinstalação "48", da portuguesa Susana de Sousa Dias, um dos trabalhos mais impactantes da edição deste ano. Apenas com retratos de arquivos de presos políticos durante o regime salazarista  (que durou os 48 anos do título da produção), acrescidas dos depoimentos dos retratados, a obra de 90 minutos -- originalmente um filme que entrou em cartaz -- oferta uma leitura forte e nova sobre os anos de chumbo de Portugal.


14ª PHOTOESPANÃ
Quando:
de 1/6 a 24/7
Onde: em diversos museus e centros culturais de Madri, na Espanha. Mais informações no site oficial do evento


*O jornalista Mario Gioia viajou a convite do Centro Oficial de Turismo Espanhol, da organização do Photoespaña e da Iberia

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