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"O politicamente correto está acabando com o mundo", diz o escritor Pedro Juan Gutiérrez em SP

Luiz Carlos Murauskas/Folhapress
Pedro Juan Gutiérrez durante palesta nesta manhã em São Paulo (18/5/2011) Imagem: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL

18/05/2011 12h42

A careca brilhante faz um contraste curioso com os olhos pequenos, escuros. Pedro Juan Gutiérrez, escritor cubano conhecido por livros em que descreve cruamente cenas de sexo, hedonismo e decadência, é uma figura magnética. No segundo dia do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, ele divertiu a plateia com sua franqueza e simplicidade. Citou autores brasileiros como Clarice Lispector (sua favorita), Paulo Lins e Rubem Fonseca e reforçou a ideia de que, para ele, "a literatura é um jogo", na qual o que importa é "o bom humor".

O mediador Xico Sá, também jornalista e escritor, apresentou-o como "animal literário" e, muito de acordo com Gutiérrez, conduziu com bom humor a conversa, arrancando risadas do público que lotava o teatro. Bem disposto, em forma aos 61 anos, o autor de "Trilogia Suja de Havana" e "Animal Tropical" disse que "vive com o pé no acelerador", mas que é muito exigente com sua escrita. "Estou pensando em meu livro novo há 13 anos. Não quero que tenha uma só palavra inocente. Sou meticuloso, não gosto que se vejam as costuras. Escrevo primeiro à mão, depois à máquina e então passo pro computador", diz ele.

O livro, ainda em fase de escrita, conta a história de um exilado cubano em Madri e Tenerife, lugares em que passa boa parte do tempo. Fã dos "jogadores" (no sentido de propor jogos literários) Cortázar e Kafka, diz se incomodar com autores que têm medo de escrever sobre sexo. Para ele, "somos mamíferos", e o sexo deve ser visto sem culpas. Gutiérrez deplora o politicamente correto, a que chama de hipócrita – acha que "está acabando com o mundo" e que 'a literatura na Europa e Estados Unidos está muito chata". Para ele salvam-se poucos, como Enrique Vila-Matas – também presente no congresso – e Michel Houllebeq.

Masturbação romântica

Apresentando os poemas visuais que fez recentemente na Europa, contou de sua adolescência, da paixão por uma prostituta de 40 anos, para a qual se "masturbava romanticamente". Falou dos 26 anos como jornalista de rádio e TV, e da censura do governo cubano, que impunha muitas restrições. “Escrever para mim era uma catarse; escrevia furiosamente, com raiva, minha natureza é não respeitar as regras", diz. Apesar disso, não gosta de falar de política, que acha "circunstancial, desinteressante".

  • Alexandre Rezende/Folhapress

    O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez durante jantar em São Paulo (16/5/2011)

Afirma-se "mais contista, por definição", e um "persistente", já que permanece em Cuba. Só agora seus livros começam a ser publicados timidamente no país, mas já são conhecidos de muitos pelas vias clandestinas. Curiosamente, reclama mais dos EUA, onde alguns de seus romances não são traduzidos, como “Rei de Havana”. "Não se atrevem a me publicar, são muito puritanos, ficam ofendidos com minhas histórias", diz o autor.

Apesar de ter uma página no Facebook e um website ("feito por um amigo – eu não queria"), acha uma bobagem falar com as pessoas virtualmente, "ontem vi esse filme assim assado etc.". Diz, mencionando a vida com sua mulher, que "é preciso tocar". Também não mostra interesse por eventuais adaptações de seu livros para o cinema. Quando perguntam se os cubanos são assim mesmo, "calientes", ri e diz que seu livros poderiam muito bem se passar no Rio de Janeiro ou São Paulo.

 

 

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