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Colunistas do UOL elegem os dez lançamentos literários de 2010

Da Redação

23/12/2010 07h00

Para fazer um balanço dos melhores lançamentos literários de 2010, o UOL convidou os colunistas do portal Daniel Benevides e Marta Barbosa, que ao longo do ano resenharam diversos livros neste espaço. Abaixo, eles listam "alguns dos melhores do ano", como faz a ressalva Benevides, já que além destes outros grandes livros tiveram edição nacional -- o colunista cita “Diário da Guerra do Porco”, de Bioy Casares, e “Z, uma Cidade Perdida”, de David Grann, como alguns exemplos.

Posto isso, veja abaixo os dez eleitos do ano:

::LANÇAMENTOS LITERÁRIOS DE 2010, POR DANIEL BENEVIDES

"O mestre e Margarida", de Mikhail Bulgákov
Esse é um clássico (ed. Alfaguara, 456 pgs., R$ 59,90) que ficou soterrado por décadas sob a proibição stalinista e voltou à tona nos anos 60, revelando o grande talento satírico de Bulgákov. O diabo visita Moscou e espalha, em doses iguais, confusão e alumbramento por onde passa, escoltado por um sinistro gato em trajes e postura humanos. A bela Margarida do título, seduzida pelo irônico rei das trevas, abandona tudo em troca de salvar o amado, o “Mestre”, um escritor enlouquecido pela censura do regime, que chega a queimar sua obra. É claro porque a polícia secreta soviética não dava descanso a Bulgákov. Uma curiosidade: o livro inspirou outro clássico, mas do rock: “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones.

::Leia mais sobre "O Mestre e Margarida"

::Veja trecho do livro

“Uma Fome”, de Leandro Sarmatz
Se é verdade que todo grande escritor começa pelos contos, pode-se esperar muito do gaúcho Leandro Sarmatz. “Uma Fome” (Record, 128 pgs., R$ 29,90), seu livro de estreia, traz narrativas tão engraçadas quanto inquietantes, algo entre Kafka e Woody Allen. O conto central resume um pouco as intenções do autor: a busca por uma literatura “magra”, sem empolações e lirismos desnecessários. O que se lê em “Fome” são retratos espirituosos do absurdo, que desafiam a gravidade com humor, como um número de Fred Astaire. Um absurdo que pode assumir várias formas: um ator que interpreta um suposto Hitler foragido na Amazônia; um enfermeiro delirando diante de um paciente em coma; dois militantes comunistas foragidos na fronteira com a Argentina...

::Leia mais sobre "Uma Fome"

::Veja trecho do livro

"2666", de Roberto Bolaño
Grande livro do ano (ed. Companhia das Letras, 856 pgs., R$ 56), tanto pela qualidade literária como pelo número de páginas, “2666” representa o ápice da obra do cultuado Roberto Bolaño, autor também de “Detetives Selvagens” e “Putas Assassinas”. Dividido em cinco “livros”, é centrado em Ciudad Juarez, no México, onde mulheres são assassinadas como moscas, sem que as autoridades consigam esboçar nenhuma reação. O fato, tristemente real, é amenizado por histórias secundárias, como a que segue um quarteto de críticos em busca de um escritor desaparecido, ou a que mostra um filósofo lançando literalmente palavras ao vento em pleno deserto. Ao final, tudo faz algum sentido e sentido nenhum -- o que talvez seja o estofo de toda grande literatura.

::Saiba mais sobre "2666"

::Leia trecho do livro

“Deixe o Mundo Girar”, de Colum McCann
Outro grande livro (ed. Record), também polifônico, tecido com inteligência e emoção, com várias histórias se entrecruzando. Vencedor do National Book Award, principal prêmio literário nos EUA, o romance do irlandês Colum McCann, convidado da Flip nesse ano, parte da famosa travessia de um equilibrista entre as torres gêmeas para traçar um painel da Manhattan pós-11 de setembro, com personagens inesquecíveis, de carne, osso, sentimentos e reflexões, como o padre libertário que ajuda viciados no Bronx, ou a mãe de uma prostituta morta num acidente de carro. Um livro impactante, com várias cenas fortes, que reverberam muito depois de fechada a última página.

::Leia mais sobre "Deixe o Mundo Girar"

::Veja trecho do livro

“O Problema dos Desconhecidos: Um Estudo da Ética”, de Terry Eagleton
Livro raro e iluminador (Ed. Civilização Brasileira, 462 pgs., R$ 54,90), o estudo original de Eagleton, também presente na Flip no meio do ano, é uma verdadeira aula de filosofia do ponto de vista das idéias da esquerda histórica, voltadas para o bem comum. Baseado nos três registros elaborados por Lacan – Imaginário, Simbólico e Real -, Eagleton expõe e explica o pensamento de nomes como Espinosa, Kant, Schopenhauer, Freud e Badiou, entre outros, e propõe uma leitura radicalmente humanista do mundo atual. Um diferencial importante é a clareza e o senso de humor do polêmico estudioso, também bastante conhecido por seus livros sobre literatura, como o influente “Teoria da Literatura: Uma Introdução”.

::Saiba mais sobre "O Problema dos Desconhecidos"

::Leia trecho do livro


::LANÇAMENTOS LITERÁRIOS DE 2010, POR MARTA BARBOSA

“Caim”, de José Saramago
Este livro foi lançado no final de 2009, e foi uma das primeiras resenhas do ano publicadas no UOL. A morte do autor, em junho, apenas aumentou a expectativa em torno deste que pode facilmente figurar entre os melhores livros de Saramago. Enquanto em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", o escritor deu sua interpretação do Novo Testamento, em “Caim” é o Antigo Testamento a base do enredo. A história começa com a expulsão de Adão e Eva do paraíso. E desde as primeiras páginas está claro que o Deus de Saramago não é nenhum velhinho benevolente a passar a mão carinhosa na cabeça de seus filhos. O personagem central da trama é Caim, o primogênito de Adão e Eva que matou o irmão Abel. Caim é um anti-herói provido de boa retórica e com uma capacidade de interpretar os fatos que muito se aproxima do próprio Saramago. "Matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto", diz Caim, ao que responde Deus: "Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses". “Caim” (ed. Companhia das Letras, 172 páginas, R$ 36) é leitura imperdível. Exemplar de um momento de ótima forma do autor, que apresenta um trabalho narrativo marcado pela ironia, pelo humor negro e prosa moderna que caracterizaram a obra de Saramago.

::Leia mais sobre "Caim"

::Veja trecho do livro

“Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov
Obra de Leskov (1831 – 1895) é um livro envolvente, que dificilmente será esquecido na cabeceira depois que ao menos uma de suas páginas for lida. O grande mérito do autor neste caso é encaminhar o leitor num processo de desequilíbrio e possessão que culmina com a transformação de uma mulher comum numa assassina cruel. Lady Macbeth, ou Catierina, é mulher de um comerciante e leva uma vida entediante ao lado do marido e do sogro numa casa tão enfadonha que, nas palavras do narrador, “é até uma alegria a gente se matar”. Como passa a maior parte do tempo sozinha, a chegada de um novo empregado de passado misterioso e beleza juvenil terá efeitos dramáticos em sua vida. Serguiêi se torna seu amante e comparsa no futuro de crimes. E Catierina se transforma numa mulher determinada em seu projeto. O leitor a segue nessa saga de paixão e crueldade. Mal dá para piscar o olho até o desfecho trágico e surpreendente dessa anti-heroína. Lançamento da Editora 34, com tradução de Paulo Bezerra.

::Leia mais sobre "Lady MacBeth"

::Veja trecho do livro

“Lugar”, Reni Adriano
Uma das grandes surpresas da literatura brasileira em 2010, “Lugar”, do estreante Reni Adriano (editora Tinta Negra) pode nunca chegar a ser um sucesso de venda, mas sem dúvida é um livro que precisa ser lido. Chama atenção o primoroso trabalho de investigação narrativa deste que foi o vencedor da categoria "Ficção" do Prêmio Minas Gerais de Literatura, em 2009. É um romance que flerta com a poesia, com uma escrita sem sobras, sem rodeios. Uma narrativa tomada de significado, com trechos que convidam à leitura em voz alta, no melhor estilo Guimarães Rosa. Não é um livro fácil. Ao contrário, exige atenção e tempo. Também não é um livro leve. Ao contrário, se uma palavra puder resumir todo o enredo, essa palavra é “violência”. Há socos e pontapés narrativos. A morte está mais presente nas páginas de “Lugar” (ed. Tinta Negra, 112 páginas, R$ 29) do que a vida.

::Saiba mais sobre "Lugar"

::Leia trecho do livro

“Invisível”, Paul Auster
Em “Invisível” (Ed. Cia das Letras, 280 páginas, R$ 47,50), Paul Auster parece ter alcançado o ápice no que diz respeito a um texto marcado pela multiplicidade – traço de sua obra, aliás. As histórias neste livro não apenas se cruzam, mas se derivam e se multiplicam, formando uma instigante teia narrativa. Há quem aponte “Invisível” como o melhor do autor nos últimos tempos. Tanto entusiasmo não é de se estranhar. O enredo tem como figura central o jovem Adam Walker, estudante e aspirante a poeta na Nova York dos anos 60. A história tem quatro partes. Numa delas, Adam vive a intensidade dos 20 anos e nela o encontro com o professor Rudolf Born, um homem manipulador, de olhar inquiridor e algo suspeito; e com sua atraente mulher, Margot. Sua vida não será a mesma depois de cruzar com esse casal. Uma frase, que está logo na primeira parte do livro, resume bem o enredo de “Invisível”: “Só porque uma coisa é improvável, não significa que não venha a acontecer”.

::Leia mais sobre "Invisível"

::Veja trecho do livro

“Solar”, Ian McEwan
Um dos grandes nomes da literatura britânica desses dias, Ian McEwan supera as expectativas, mais uma vez, com “Solar” (ed. Companhia das Letras, 344 páginas, R$ 48). Um livro marcado pela impressionante construção do personagem. Michael Beard, o protagonista, é um homem “de funções mentais limitadas, desprovido de impulsos hedônicos, monotemático, ferido” e, ainda assim, vencedor do Prêmio Nobel. Anti-heróis são as especialidades de McEwan e em “Solar” ele prova isso. O Nobel, a fama e o aparente prestígio acadêmico não fazem de Michael um personagem grandioso. Ao contrário, é da inferioridade que se ocupa o autor. Mesmo tendo como pano de fundo o aquecimento global e outras discussões espinhosas, “Solar” é um livro muito bem humorado. A narrativa é de uma ironia fina e certo sarcasmo raros.

::Leia mais sobre "Solar"

::Veja trecho do livro

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