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"Meu avô morreu a caminho de uma festa na qual iria se apresentar", diz Alexandre Staut

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

20/06/2010 10h30

Com “Jazz Band na Sala da Gente”, lançamento da Toada Edições (154 págs., preço sugerido de R$ 23), o jornalista Alexandre Staut faz sua estreia na ficção. A obra narra a relação do seu avô com a música, no interior do Brasil, no angustiante ano de 1945. Mesmo em meio a um texto que ecoa os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, o autor consegue enriquecer o livro com momentos delicados e emocionantes. Em entrevista exclusiva para o UOL, o autor fala do seu processo de criação e da escolha do enredo.

UOL - “Jazz Band na Sala da Gente” é um romance?
Alexandre Staut - Assim que terminei, fiquei em dúvida se era um romance ou uma novela. A narrativa não é tão extensa, então o material pode ser considerado uma novela. Por outro lado, percebi que o livro traz vários centros, assim como os romances tradicionais. Traz a relação de um filho com seu pai; a história de uma banda de jazz caipira nos confins do Brasil; as desventuras e a vida privada de uma família, ante o acontecimento da Segunda Guerra; a negação da cultura caipira, pois os personagens têm o desejo de falar certo, apesar de nem sempre chegarem lá; e ainda traz um momento decisivo em que raças diversas começaram a se frequentar no município em que passa a história: os italianos, os judeus e os negros que nos anos 40 - momento em que se passa a ação do livro - abandonaram as comunidades quilombolas da região para tentar a vida no espaço urbano. Resolvi, ainda, colocar a palavra “romance” na capa do livro para que as pessoas não achassem que a obra é um estudo sobre jazz ou um livro memorialístico sobre uma banda de jazz. Foi uma ficção o que fiz.

É um livro de memórias inventadas com lembranças exageradas. Carreguei na tinta, para assim chegar ao tom de sátira que procurava

Alexandre Staut, autor do livro


UOL - Você se preocupou com a criação (natural no momento de narrar uma memória) no momento em que entrevistava pessoas no processo de pesquisa?
Staut - Classifico esta narrativa como um livro de memórias inventadas. Quase todas as ações são fictícias, apesar dos personagens serem todos reais: meus familiares, seus amigos, vizinhos. Para compor estas memórias inventadas recorri ao baú familiar de lembranças e à história oral de algumas pessoas. Vez ou outra, durante as entrevistas, alguém citava detalhes da vida privada na casa dos meus avôs. Estas lembranças alheias estão no livro, mas foram recriadas, aparecem de forma exagerada, carreguei na tinta, para assim chegar ao tom de sátira que procurava.

 

UOL - E você pessoalmente se rendeu à criação quando narrou a história do seu avô?
Staut - Morei na casa da minha avó, uma das personagens do livro, dos 5 aos 8 anos, então me lembro ainda hoje de algumas expressões que ela usava, como “boca de intanha”, entre outras, que estão espalhadas pelo livro. Lembro também da relação fanática que ela tinha com as imagens de santos, dela apelar para a nossa senhora das cabeças, quando alguma coisa ia mal em casa. Apesar de algumas pinceladas de realidade, de alguns fatos narrados pela minha avó, que era uma contadora de histórias muito imaginativa, quase tudo neste livro vem da minha própria invenção.

UOL - A decisão de partir para uma edição própria foi motivada pela falta de apoio no mercado?
Staut - Assim que percebi que o livro estava pronto, cheguei a mandá-lo para três editoras, sem qualquer tipo de apadrinhamento. Mandei e pronto. Liguei seis meses depois e eles ainda não tinham começado a ler a história. Passei então o livro para uma amiga, que é escritora, e ela me deu um empurrão. Disse assim: vai, publica, dá um jeito, este texto é legal! Aí me lembrei do trabalho dos poetas cariocas dos anos 70, dos quais sou fã. Eles amontoavam seus poemas com uma capa, grampeavam tudo e, pronto! Transformando suas criações em livrinhos muito simpáticos. Resolvi fazer o mesmo.

UOL - Por quanto tempo a história dessa banda de jazz rondou seus pensamentos antes de virar livro?
Staut - Desde criança penso nesta banda de jazz. Lembro de perguntar diversas vezes a minha avó sobre seu marido nos palcos e nas apresentações nas salas de cinema da cidade. Mas ela desconversava. Não gostava de tocar neste assunto, que se transformou em um trauma de família, pois meu avô morreu, em 1946, a caminho de uma festa, na qual ia se apresentar. Havia também o tabu de se falar na profissão do meu avô, que foi agente funerário da cidade. De alguns anos para cá me deu uma vontade enorme de remexer nesta história. Minha avó e todos seus filhos já haviam morrido. Não tinha a quem perguntar detalhes reais sobre este judeu e sua família. Apelei para a história oral do município, mas esta sempre vem distorcida. Então criei minha versão para este “causo”.

UOL - Fale um pouco do processo de criação.
Staut - O primeiro 'insight' para a criação desta história aconteceu em 2005, em Arromanches-Le-Bains, na costa da Normandia, praia onde os americanos desembarcaram para livrar a França da ocupação nazista. Passava uma temporada de três meses ali e todas as tardes subia numa falésia para ver o mar. Ficava observando aqueles blocos de concreto enormes no meio do mar, a paisagem horrorosa. Este vilarejo francês é meio macabro, muito sangue foi derramado ali. Enquanto observava essa paisagem, do alto, pensava no meu avô judeu, na barbaridade feita com o povo judaico durante a Segunda Guerra. Ali percebi que precisava escrever uma história sobre judeus, a perseguição nazista, mas ainda não tinha o foco do meu romance. Mais tarde juntei este desejo ao fato da história da banda de jazz do meu avô, um “causo” muito bonito, estar se perdendo na minha cidade, no interior de São Paulo.


A história “desceu” mais ou menos em um ano. Comecei a escrevê-la somente depois de senti-la com força dentro de mim. Para a escrita pensei numa linguagem super simples, queria que os adolescentes da minha família conseguissem ler este livro sem dificuldades. Por isso o livro não é "bordado". A linguagem fluida foi proposital. A inspiração para tal veio com a leitura de “Un Pedrigree” (editora Gallimard, sem tradução no Brasil), livro maravilhoso de Patrick Mondiano, do qual tirei uma frase que abre meu livro. Mondiano conta, em sua obra, como foi o encontro de sua mãe, uma atriz belga, com seu pai, um comerciante de pérolas franco-judeu, e dos esconderijos de ambos durante a ocupação nazista na França. Ele avisa que com sua obra quer somente enumerar fatos, sem muita preocupação com peripécias linguísticas. O livro parece até um boletim de ocorrência de delegacia, e, mesmo assim, emociona até estátua. Após ler este livro encontrei o tom que queria dar à história das desventuras da minha família.

Na minha cidade, concentrei as entrevistas em três personagens, para assim compor o cenário dos anos 40. Há um memorialista local, que tem um trabalho impecável, e que me ajudou muito. Ele se chama Kiko Sucupira e é o responsável pela preservação da história local. Conseguiu fazer com que o centro do município fosse tombado e já chegou a parar tratores, na madrugada, para que não destruíssem os casarões dos barões do café, espalhados pela cidade. Ele é uma fonte vida da história local. É outro personagem romanesco que quero visitar um dia.

 

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