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Dom Salvador, o pianista que inventou o samba funk e o Brasil esqueceu

Michelle V. Agins/The New York Times
Imagem: Michelle V. Agins/The New York Times

Matthew Kassel

19/11/2018 04h00

Em uma noite amena de terça-feira, um homem modesto com cabelo grisalho e vestindo um terno preto entrou no River Café, no Brooklyn, e se sentou ao piano de cauda Steinway. Em parte escondido pelas folhas de uma palmeira, ele começou a tocar os standards habituais.

Alguns poucos clientes balançavam a cabeça, mas ninguém parecia perceber que o homem ao piano era ninguém menos que Dom Salvador, uma das figuras mais influentes, apesar de não devidamente valorizadas, da história da música brasileira.

Houve um tempo em que ouvintes lotavam as apresentações ao vivo de Salvador. Nos anos de 1950, o menino prodígio tocava além de sua hora de dormir em salões de dança locais. Nos anos 60, ajudou a criar e tocava samba-jazz nos palcos mais ilustres do Rio de Janeiro. Nos anos 70, se transformou em um importante músico de samba-soul, uma variação brasileira do funk e soul americanos.

Mas ele se afastou de tudo. Em 1973, se mudou para Nova York com a intenção de ser bem-sucedido como músico de jazz, obtendo o cobiçado cargo de diretor musical de Harry Belafonte, logo após sua chegada. Ele também desistiu disso. Em 1977, aceitou um emprego regular tocando piano cinco noites por semana em um novo restaurante fino às margens do Rio Leste, em uma área então desolada próxima da Ponte do Brooklyn. Ele está lá desde então. Pelos últimos 41 anos, para ser mais exato.

Provavelmente é a mais longa residência na história de Nova York, apesar de não existirem estatísticas oficiais para referência. Um concorrente de Salvador com certeza superou: Bobby Short, o cantor de cabaré que fazia temporadas de seis meses no Café Carlyle, se apresentou ali por 36 anos.

É um estilo de vida que agrada a Salvador, um homem prático de poucas palavras e que aprecia estabilidade no emprego. Mas se você estiver familiarizado com seu passado, é difícil imaginar como (ou por que) Salvador acabou em relativa obscuridade. "Se fosse tão famoso quanto realmente merece ser, as pessoas lotariam aquele lugar", disse o DJ Greg Caz, um especialista em música brasileira.

Apesar de Salvador não ter arrependimentos, aos 80 anos, ele também está bastante ciente de que o tempo está acabando para deixar sua marca no mundo do jazz de Nova York, não como pianista solo, mas com sua própria banda. No último ano, ele confidenciou a pessoas próximas que está, finalmente, pronto para uma mudança.

Há muitos músicos que estouram, desaparecem e então são redescobertos décadas depois, como o cantor de jazz Jimmy Scott e Sixto Diaz Rodriguez, tema do documentário "Procurando Sugar Man". A história de Salvador é curiosa porque ele nunca realmente desapareceu. Ao longo das últimas quatro décadas ele esteve, literalmente, escondido à plena vista.

Michelle V. Agins/The New York Times
Imagem: Michelle V. Agins/The New York Times

O começo

Salvador da Silva nasceu em 1938 em uma família de músicos, na pequena cidade brasileira de Rio Claro. O mais novo de 11 filhos, ele praticava técnicas de dedilhado em folhas de papel que sua professora desenhava para ele, já que a família não tinha um piano. No início, Salvador estudava exclusivamente música clássica, mas obtinha uma educação diferente pelo rádio, que tocava a música de Pixinguinha, considerado o Louis Armstrong do Brasil, assim como o swing americano de Glenn Miller, Duke Ellington, Count Basie e Benny Goodman.
 
Salvador aspirava se tornar um músico de jazz, tocando em bandas locais, mas o fazia na surdina, usando um pseudônimo para que sua professora, uma mulher brasileira rígida descendente de alemães, não descobrisse. Mas aos 14 anos, ele já estava tocando piando em uma banda conhecida, de modo que o segredo veio à tona.
 
Ele era de longe o músico mais jovem da banda. As apresentações nos fins de semana começavam às 22h e terminavam às 4h da madrugada, mas Salvador só tocava até a meia-noite. Às vezes ele era avisado pelo porteiro quando um fiscal local passava pelo clube. "Eles me avisavam", ele disse, "e então eu tinha que me esconder, ir ao banheiro ou algo assim".
 
Em 1961, quando a bossa nova começou a ganhar prestígio internacional, Salvador se mudou para São Paulo. Foi lá que ele conheceu uma jovem cantora de jazz, Maria Ignes Vieira, em uma boate. Salvador viu Maria cantar "There's a Small Hotel", de Rodgers e Hart. Ele ficou encantado. "Era muito raro ver, naquela época, alguém cantar em inglês", lembrou Salvador. "Soava bem. A pronúncia era correta. Eu gostava da voz dela. Eu disse, 'Oh, minha nossa'."
 
Logo depois, Salvador se mudou para o Rio e Maria o seguiu poucos meses depois. Ele rapidamente se transformou em uma figura constante nas casas noturnas próximas do Beco das Garrafas, a travessa onde a bossa nova nasceu e para onde os músicos iam para se colocarem à prova. Foi lá que ele conheceu o baterista Edison Machado e o baixista Sérgio Barrozo, formando o Rio 65 Trio, que gravou dois álbuns de samba-jazz, que misturava a energia de improvisação do bebop com os ritmos brasileiros.
 
Havia vários trios para piano conhecidos no Rio na época, mas Salvador, que ouvia Miles Davis e Thelonious Monk, disse que considerava a abordagem deles muito limpa e "organizada" para o gosto dele. Sua meta era transformar o samba, mais leve, rápido e desorganizado, em uma força propulsora, uma reação, de certo modo, à forma como a bossa nova o suavizou.
 
Se Salvador tivesse parado aí, ele já seria lembrado como um importante inovador do jazz no Brasil. Mas ele estava se movendo rapidamente, tanto no palco quanto nos bastidores. Trabalhando como músico de estúdio no Rio, ele tinha contrato com o selo Odeon, mas fazia freelance para a CBS e outras empresas. Segundo o próprio Salvador, ele tocou em mais de 1.000 gravações (apesar de a maioria não creditada), com compositores como Antonio Carlos Jobim, autor de "Garota de Ipanema".

Na ditadura militar 

Na época, o Rio estava sob uma ditadura militar repressora que teve início com um golpe em 1964, mas também havia uma forte resposta contracultural. Em 1969, o produtor de Salvador na CBS trouxe uma pilha de discos de funk e soul de uma viagem aos Estados Unidos: Kool & the Gang, Sly & the Family Stone, James Brown. A ideia era Salvador fazer algo semelhante, mas ele se arrepiou com a ideia. "Eu gostei do que ouvi, mas eu lhe disse, se for para copiar, não vou", disse Salvador. "Eu fiz do meu jeito."
 
O resultado, em uma grande mudança em relação ao jazz, acabou se transformando em uma gravação seminal do soul brasileiro, na qual Salvador interpretou o funk americano pelo prisma do samba. A capa do álbum exibia uma foto de Salvador, com olhar sério para a câmera, vestindo jaqueta de couro, com o braço estendido na mesa à sua frente e punho cerrado, em um gesto sutil de desafio. Ele chamou o álbum de "Dom Salvador". O apelido pegou.
 
Em seguida, Salvador lançou uma banda de samba-soul, Dom Salvador e Abolição. Ele e seus companheiros de banda exibiam penteados afro e camisas de abotoar coloridas com golas altas muito antes do movimento de soul brasileiro, conhecido como Black Rio, decolar no final dos anos 70. 

"Ele é um pioneiro não apenas da música, mas de um novo entendimento da negritude no Brasil" e usar isso "como uma forma de poder cultural", disse Bryan McCann, um historiador da Universidade de Georgetown que escreveu extensamente sobre a música brasileira.

Salvador reluta em falar desse período de sua vida, mesmo com a eleição recente de Jair Bolsonaro, o presidente de extrema-direita do Brasil, trazendo à lembrança a antiga ditadura, e parece desconfortável em receber crédito por qualquer tipo de conscientização no Brasil. "Para mim, é apenas música", ele disse.
 
Os dias do samba-soul foram um período particularmente decepcionante para Salvador pelo lado criativo, ele disse. Além de um líder exigente, Salvador era quase uma década mais velho que a maioria de seus companheiros no Abolição.

Ele também não usava drogas e nem bebia álcool. "Eu dediquei energia demais àquela banda", disse Salvador com um suspiro, em sua atual casa suburbana em Port Washington, Long Island, enquanto se recordava à mesa de jantar, sob uma foto emoldurada de seu ídolo, Thelonious Monk. "Eu estava muito frustrado." Ele também se tornou um homem de família. Salvador e Maria se casaram em 1965. O primeiro filho deles, Marcelo, nasceu no ano seguinte, e Simone em 1970.
 
No final dos anos 60, o governo deu início a uma repressão a estudantes, artistas e ativistas. Gilberto Gil e Caetano Veloso, fundadores do movimento Tropicália do Brasil, foram presos e depois exilados. Não estava claro se o regime agiria contra Salvador.
 
"A polícia com certeza monitorava e mantinha arquivos sobre os músicos negros e as festas que davam, onde tocavam James Brown e outras coisas", disse Marc Hertzman, um historiador da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, autor de "Making Samba: A New History of Race and Music in Brazil" (Fazendo samba: uma nova história de raça e música no Brasil, em tradução livre, não lançado no Brasil). Mas o maior temor dos militares, acrescentou Hertzman, parecia ser a agitação marxista.

Frustração e recomeço

Salvador foi ficando frustrado com a indústria da música e com sua banda. Tudo isso foi fermentando até a decisão de, quase por capricho, deixar o grupo. "Comecei a ficar com o cabelo grisalho", ele disse. Alguns dos membros da banda formariam posteriormente a Banda Black Rio, o reverenciado grupo de funk considerado o Earth, Wind & Fire brasileiro.

Mas em meados dos anos 70, Salvador deixou a cena totalmente. Ele estava em Nova York, em busca de uma carreira no jazz. "Quando cheguei a este país", disse Salvador, "tive que começar tudo de novo". No Rio, ele tinha dois apartamentos próprios. Em Nova York, Salvador morou primeiro com um colega de quarto no Queens, lutando para aprender inglês. Um contrato de gravação com a CBS não deu certo, ele disse, "e os clubes não pagavam o bastante". Maria veio seis meses depois, e os filhos, que permaneceram no Brasil com primos de Maria, viriam um ano e meio depois. 

Então certo dia, Harry Belafonte ligou e o convidou para vir como arranjador. Salvador tocou no álbum de sucesso de Belafonte, "Turn the World Around", e fez turnê pela Europa em 1977, tocando no Jubileu de Prata da rainha Elizabeth 2ª na Inglaterra.
 
"Isso mudou tudo, financeiramente", disse Salvador. "Eu podia cuidar melhor da minha família." Ainda assim, ele era protetor em relação às suas ideias musicais (afinal, foi líder de uma banda no Brasil) e ocorreram algumas disputas criativas entre ele e Belafonte, apesar de nada muito sério. Acima de tudo, disse Salvador, ele se sentia culpado por deixar sua família para trás de novo, e considerou extenuante fazer turnês.
 
Em 1977, ele largou seu emprego com Belafonte para tocar piano em um novo restaurante no Brooklyn. "Tive muita sorte por tê-lo por um breve período, mas um bastante produtivo", disse Belafonte, que esteve presente no aniversário de 50 anos de casamento de Salvador há três anos. "Acho que ele era excessivamente qualificado para o que eu queria que ele fizesse, mas isso foi vantajoso para mim, pois o que ele trouxe à mesa foi algo de muito bom gosto. O considero um excelente pianista no mundo da cultura pop e do jazz. Ele é um troféu."
 
Salvador não imaginava que o trabalho no River Café duraria tanto e há alguma especulação a respeito do motivo para sua carreira não ter decolado nos Estados Unidos. Alguns dizem que foi por ele nunca ter tido um bom empresário ou relações públicas, enquanto outros se perguntam se apenas era recluso demais. "Ele é muito reservado", disse o saxofonista Dick Oatts, que já tocou várias vezes com Salvador desde os anos 80. "De certa forma, ele é seu próprio maior inimigo."

Vida reservada 

Seria fácil ver a carreira de Salvador como uma série de oportunidades perdidas, mas com a renda constante obtida no River Café, ele conseguiu que seus dois filhos cursassem a universidade e leva uma vida relativamente confortável.
 
"O ego dele às vezes atrapalha", disse Marcelo da Silva, o filho de Salvador, que atualmente tem 52 anos e é um psicólogo. "Meu pai sempre foi voltado para a música, posso dizer isso." Marcelo disse que seu relacionamento com seu pai sempre foi um pouco tenso, mas dá crédito a Salvador por sempre cuidar da família. "Ele foi um provedor", ele disse.
 
Mas o trabalho no River Café não parece ter sido um empecilho para Salvador, mas sim algo libertador, uma chance de melhorar seu ofício noite após noite. O trabalho o manteve em forma, ele disse, e ele aprecia o desafio de tocar novas músicas pedidas pelos clientes. (Salvador conta com cerca de 4.000 canções em seu repertório, ele disse, e a lista está sempre crescendo.)
 
Ele já se apresentou para várias celebridades, como Paul Newman, Joe Namath e Elizabeth Taylor. Aqueles dos quais se recorda mais vividamente são músicos: Tony Bennett, Frank Sinatra, McCoy Tyner, Herbie Hancock, George Benson, John Denver. Ele persuadiu certa vez o pianista Tommy Flanagan a se sentar em seu lugar e tocar "Autumn in New York". Billy Joel, observando Salvador certa noite, lhe disse que ele tinha "uma mão esquerda incrível", lembrou Salvador.
 
Mas recentemente as coisas têm sido difíceis para Salvador, que completou 80 anos em meados de setembro. Apesar de estar em relativa boa saúde, Maria, que tem 82 anos, sofre de demência. Salvador é seu principal cuidador, algo que é difícil de administrar, ele disse, dado seus horários exigentes.
 
Cerca de seis dias por semana, ele toma o trem vespertino para a Penn Station, toma o metrô para o Brooklyn, toca no River Café, e geralmente faz o mesmo caminho de volta, às vezes chegando em casa por volta das 2h da manhã.
 
No restaurante há pouco tempo, Salvador estava tocando "I Know Why (and so Do You)", que foi popularizada em 1941 por Glenn Miller. Ele fez uma pausa por um momento e olhou além do piano. "Eu aprendi essa canção em Rio Claro", ele disse, enquanto balsas estavam paradas no rio e a silhueta de Manhattan cintilava ao longe.
 
Ultimamente, Salvador, que se tornou cidadão americano em 2000, tem dito a amigos e conhecidos que deseja se concentrar de novo em seu primeiro amor, o jazz. Ele gostaria de se apresentar no Village Vanguard, ele disse. Seu grupo intermitente, o Dom Salvador Sextet, lançou um álbum, "The Art of Samba Jazz", em 2010, e ocasionalmente se apresenta em espaços como o Joe's Pub e o Django.
 
Também ocorreram alguns poucos triunfos maiores. Em 2015, Salvador se apresentou no Carnegie Hall para celebrar o 50º aniversário do Rio 65 Trio. Uma gravação ao vivo do show foi lançada no Brasil em agosto e o álbum deverá sair no ano que vem nos Estados Unidos. O baterista Duduka da Fonseca, que tocou no show no Carnegie Hall, lançou um álbum em tributo ao pianista e está em produção um documentário sobre a vida de Salvador.
 
Para aqueles que desejam vê-lo ao vivo, sempre há o River Café, onde Salvador ainda toca para uma casa cheia, geralmente toda noite, exceto aos sábados. Perto do final de um set recente, enquanto os clientes deixavam o restaurante, um homem parou para agradecer Salvador por sua música, lembrando que a primeira vez que o ouviu no River Café foi em 1982. Mas Salvador, com a cabeça abaixada no meio da canção, não estava prestando atenção.
 
Como sempre, sua mente estava focada na música.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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