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Cinquenta anos depois, "2001: uma Odisseia no Espaço" continua atual

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Cena de "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick Imagem: Divulgação

Dennis Overbye

New York Times News Service

20/05/2018 10h58

Em meados de 1964, o cineasta Stanley Kubrick ficou muito preocupado. A NASA estava prestes a lançar a sonda espacial Mariner 4 que iria além de Marte. Na época, Kubrick estava profundamente envolvido no desenvolvimento de sua megaprodução sobre a descoberta de inteligência alienígena. Dizia-se que a MGM havia apostado seu estúdio no filme. E se a Mariner descobrisse vida em Marte e chegasse antes deles?

Kubrick investigou se poderia comprar um seguro contra aquele acontecimento. Poderia, mas o preço era astronômico. O cineasta, então, decidiu se arriscar, segundo um novo livro sobre a realização do filme: "Space Odyssey: Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke, and the Making of a Masterpiece", de Michael Benson.

Isso aconteceu 54 anos atrás. Ainda não descobrimos inteligência e nem mesmo evidência aceitável de um laguinho com algas em nenhum lugar do universo – e não por falta de esforço. Uma nova nave, a TESS, projetada para procurar por planetas habitáveis nas proximidades, acabou de ser lançada no espaço, e um asteroide interestelar descoberto há pouco tempo cruzando o sistema solar foi inspecionado em busca de sinais de rádio. Outro robô está se preparando para ouvir o coração de Marte. 

Ainda não sabemos se estamos sozinhos. O filme de Kubrick, "2001: uma Odisseia no Espaço", finalmente estreou, tarde e acima do orçamento, em abril de 1968, para críticos perplexos e imensas filas de jovens. John Lennon confessou que assistia a ele todas as semanas. Foi o filme de maior bilheteria do ano e hoje está sempre nas listas dos críticos entre os mais importantes de todos os tempos, com frequência o primeiro que os cientistas mencionam quando perguntados sobre qual ficção científica preferem.

Em homenagem ao seu 50º aniversário, foi relançado no Festival de Cinema de Cannes em uma nova e brilhante versão supervisionada por Christopher Nolan, o diretor de "Dunkirk" e "A Origem", entre outros. Ele contou ao The Los Angeles Times que o filme havia sido um marco em sua infância.

Escrito por Kubrick e Arthur C. Clark (autor dos livros e histórias nas quais "2001" se baseia) e dirigido por Kubrick, é uma ode multissensorial ao mistério cósmico, ao destino e ao futuro. A história começa quatro milhões de anos atrás na África, onde um bando de primatas enlameados está perdendo a batalha do mais apto pela sobrevivência até que um estranho monolito negro aparece.

Ao trovão de "Assim Falou Zaratustra", um dos homens-macacos se inspira a pegar um osso e usá-lo como um taco para matar o animal que estava ameaçando o bando. De repente, os homens-macacos estão comendo carne e expulsando seus rivais para longe do poço de água. Em um momento de exultação, o macaco lança o osso para o céu e, no que foi chamado de o mais longo avanço rápido da história do cinema, ele se transforma em uma nave espacial. É em torno desse movimento que Kubrick baseia seu filme e toda a evolução humana.

Outro monolito aparece na Lua e outro ainda na órbita de Júpiter, ao qual um astronauta chamado Dave Bowman se conecta depois de subjugar um computador neurótico, o HAL 9000, que assassinou seus colegas de aeronave. No final, Bowman é enviado por um "portão estrelar" em uma viagem através do espaço e do tempo, morte e renascimento, voltando como uma Estrela Criança brilhante para flutuar como um feto sobre a Terra.

Vi "2001" pela primeira vez em 1968 na mesma condição farmaceuticamente comprometida de todos os meus amigos. De qualquer maneira, eu não precisava desse tipo de ajuda, já que cresci lendo as histórias de Clarke, principalmente "O fim da Infância" e o conto "A Sentinela".

A última vez que vi o filme foi em 2000. Não sabia o quando eu tinha perdido até que li o livro de Benson, um mergulho profundo, informativo e divertido na produção do filme. Uma das marcas do status do filme como obra de arte é que ele possui alguma coisa diferente para nos dizer cada vez que nos encontramos de novo.

Cinquenta anos atrás, foi um prenúncio do futuro. Estávamos prestes a vencer a corrida contra os russos até a Lua. Uma geração inteira foi pressionada e preparada para se sintonizar, se ligar e transcender o sombrio continuum de espaço-tempo que conhecíamos. Amplamente pesquisado por Kubrick e Clarke, grandes trechos da fita foram como um documentário do futuro: a estação espacial, a base lunar, o grande passo, exatamente como Clarke e gente como Wernher von Braun profetizaram.

Já se passaram 46 anos desde que alguém pisou pela última vez na Lua. É possível imaginar uma época em que não haverá humanos vivos que tenham estado por lá. Agora, porém, o roteiro original de ficção científica se transformou. Uma geração de bilionários fanfarrões ocupou o lugar central nos negócios espaciais, assim como uma nova classe de clientes abastados que podem pagar por seus serviços. Em vez de Estrela Criança, hoje temos o "Star Man" lançado em órbita para além de Marte, por Elon Musk, em um Tesla conversível.

Certa vez escrevi que não esperava mais pegadas em Marte durante a minha vida. Agora não tenho tanta certeza. Não é loucura pensar que equipamentos privados como o SpaceX, que parecem estar fazendo tudo com mais eficiência do que a NASA e o Congresso, poderiam bater a agência na corrida do espaço. Eu sairia feliz da aposentadoria em algum momento da década de 2030 para escrever que os humanos pousaram e andaram em Marte. Não que a NASA tenha planos confiáveis ou perspectiva de dinheiro suficiente para ir a qualquer lugar emocionante em breve.

Sob seu novo administrador, Jim Bridenstine, um ex-parlamentar, a agência está tomando medidas para avançar em um programa de longo alcance de exploração e pesquisa de recursos que poderá levar ao estabelecimento de uma base permanente lá. E líderes e entusiastas do espaço se reuniram recentemente em Washington para a Cúpula Humanos para Marte, patrocinada pela indústria aeroespacial. O encontro contou com o lançamento de um relatório descrevendo como os humanos já poderão estar em Marte em 2033.

O que realmente mudou no roteiro foi a parte da história futura da evolução. Os robôs assumiram a tarefa sagrada de explorar por nós. Máquinas cada vez mais sofisticadas e menores se espalharam por todos os mundos do sistema solar, zumbindo nos anéis de Saturno, desafiando as escuridões vazias além de Plutão, aterrissando em cometas e examinando os céus em busca de novos planetas e lugares com os quais sonharemos. Pior do que isso, todos podemos fazer parte de um sonho.

Segundo alguns físicos, como Stephen Hawking, o universo pode ser um holograma. Certos cosmologistas argumentaram que não é inconsistente imaginar que o universo inteiro como o conhecemos talvez seja apenas uma simulação, como em "Matrix". Na verdade, somos todos feitos de bits, então, de acordo com essa ideia, removíveis e deformáveis a um clique do mouse interestelar. Nesse caso, tenho alguns pontos a discutir com o diretor.

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