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Edifício Martinelli abriga glória, decadência e ressurreição de São Paulo

14/07/2019 16h17

Laura López.

São Paulo, 14 jul (EFE).- De hotel de luxo à favela vertical, o arranha-céus que revolucionou a paisagem urbana brasileira, o edifício Martinelli, completa 90 anos em 2019 como símbolo do esplendor, da decadência e da ressurreição do centro de São Paulo.

O gigante de concreto rosado de estilo eclético, situado no centro histórico da cidade, se ergue ao longo de 30 andares, 130 metros de altura e 2.133 janelas que marcaram a memória dos paulistanos.

"Minha maior paixão é Vilma, a minha esposa; a segunda é o edifício Martinelli", afirmou em entrevista à Agência Efe Edison Cabral, responsável de relações públicas do arranha-céus, onde trabalha desde 2001 e do qual já foi porteiro e agente de segurança.

Dedicado durante os últimos anos a pesquisar a história da obra arquitetônica, Cabral é uma das pessoas que melhor narra a trajetória por trás dos seus muros.

O edifício tomou o nome do seu criador, um imigrante italiano chamado Giuseppe Martinelli, natural da Toscana e criado por uma família dedicada à construção que chegou ao Brasil em 1889, quando tinha 19 anos.

Pouco mais de três décadas depois, Martinelli já tinha conquistado uma grande fortuna, que lhe permitiu empreender seu grande sonho: erguer o maior edifício da América Latina.

"Vamos fundar este edifício com 30 andares, e não quero saber se a Câmara Municipal ou a Justiça nos deixará fazer isso", declarou naquela época o empreendedor italiano, parafraseado por Cabral.

O projeto criou toda uma polêmica em uma cidade cujas construções quase não chegavam a cinco andares, com exceção do edifício Sampaio Moreira que, com 12 andares e 50 metros, era então o prédio mais alto da cidade.

Depois de enfrentar a opinião pública e a prefeitura, que paralisou as obras quando estas chegaram ao 24º andar por medidas de segurança, Martinelli convenceu a todos com uma promessa: ele mesmo viveria com sua família em um palacete na cobertura do edifício para demonstrar que ele não cairia.

O edifício foi construído por 600 trabalhadores sobre o projeto inicial do arquiteto húngaro William Fillinger, mas acabou finalizado pelo sobrinho do empresário italiano, Ítalo Martinelli, dando como resultado um design que mistura os estilos barroco francês, neoclássico, rococó e art decó.

Desde a sua inauguração, em 1929, até meados dos anos 1930, o edifício viveu sua época de esplendor como ponto de encontro da elite paulistana que ia ao Cine Rosário, hospedava-se no hotel de luxo São Bento ou frequentava a academia de dança ali instalada.

Anos depois de Giuseppe Martinelli perder toda sua fortuna com a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929, a propriedade acabou nas mãos de um consórcio de corredores do Rio de Janeiro e do Banco da América.

"Ele se tornou uma pessoa triste, depressiva, e morreu dois anos depois, com 76 anos. Para ele já nada fazia sentido", relatou Cabral.

A partir dos anos 1950, começou a etapa mais obscura do imóvel, quando foi ocupado por cerca de 3.000 pessoas de forma irregular e se transformou em lar de delinquentes e prostitutas que conviviam com clínicas clandestinas de aborto, segundo explicou o estudioso do histórico edifício.

Estes anos de degradação se estenderam até 1975, quando, sob o mandato do prefeito Olavo Setúbal (1975-1979), a Câmara Municipal interveio no edifício junto com o exército.

Segundo relata Cabral, quando as autoridades entraram, a construção encontrava-se em tal grau de degeneração que havia um fosso de lixo de 30 metros de altura que chegava até o nono andar, onde foram encontrados desde ossos humanos até animais mortos e fetos.

Uma testemunha daquela época obscura do arranha-céus é Sebastião Martins, de 78 anos, que gerencia uma loja de canetas no edifício desde 1954 e que não gosta que se relacione a história do Martinelli com a violência, embora admita a degradação da época.

"Passar pela rua sem levar um banho de urina ou sem que te caísse um punhado de sedimentos era algo difícil", lembrou Martins, em tom jocoso, em entrevista à Efe.

O vendedor contou que no último dia 16 de junho completou "65 anos de Martinelli" e, na hora de expressar o que aqueles muros significam para ele, foi taxativo: "Tudo".

"Este edifício representa muito na história, não só de São Paulo, representa os imigrantes que vieram ao Brasil e transformaram o país", explicou Martins, descendente de expatriados.

Atualmente, 70% do Martinelli abriga secretarias municipais e o restante está distribuído entre a Caixa Econômica Federal, o Sindicato dos Bancários de São Paulo e 11 lojas, o que gera um fluxo diário de mais de 5.000 pessoas no edifício.

A Câmara Municipal abriu o terraço para visitas novamente este ano depois que em 2017 cancelou o serviço diante de alguns episódios de suicídios.

Desta forma, cerca de 300 pessoas visitam diariamente a parte mais alta do velho edifício para desfrutar de uma vista que no passado foi exclusiva de um homem que sonhou ver a cidade do mais alto e hoje está infestada por milhares de sucessores de concreto e aço que rasgam o horizonte de São Paulo. EFE

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