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Livro explora relação entre Fidel Castro e a revista Playboy

O ditador cubano Fidel Castro -  AFP
O ditador cubano Fidel Castro Imagem: AFP

Miami (EUA)

04/07/2019 06h01

Embora considerasse a pornografia uma "praga capitalista", Fidel Castro teve na "Playboy", revista de nudez feminina mais famosa do mundo, um aliado incomum para propagar suas ideias e ampliar a simpatia do mundo pela revolução comandada por ele em Cuba.

O ensaísta cubano Abel Sierra Madero conta mais sobre essa relação no livro "Fidel Castro, El Comandante Playboy: Sexo, Revolução e Guerra Fria", publicado em meados de junho e que será lançado neste sábado em Miami, nos Estados Unidos.

Depois de ter vivido cinco anos em Nova York para concluir um doutorado em Literatura, Sierra Madero reúne nesta obra as pesquisas que fez sobre a relação do império Hugh Hefner com o líder da revolução cubana.

O autor também discute o status de celebridade dado ao "El Comandante" pela imprensa sensacionalista dos Estados Unidos, que publicava todo o tipo de fofoca sobre Fidel, com matérias que traziam desde detalhes sobre a vida sexual do presidente cubano aos ideais do comunismo militante, tornando-o em uma encarnação de todos os males do mundo.

A "Playboy" publicou duas entrevistas com Fidel Castro, a primeira delas em 1967, concedida a Lee Lockwood. O líder da revolução voltou às páginas da revista 18 anos depois, em texto assinado por Jeffrey M. Elliot e pelo congressista democrata Mervyn M. Dymally.

Entre as duas publicações, a francesa "Oui", que também pertencia ao grupo de Hefner, reproduziu extratos de uma entrevista que Frank Mankiewicz e Kirby Jones fizeram com Castro.

Fidel sabia perfeitamente o que fazia quando aceitou falar com a "Playboy", diz o autor do livro, destacando que a revista também ficou famosa pelas entrevistas com celebridades que acompanhavam o conteúdo erótico. Esta tradição começou em 1962, quando ninguém menos que astro do jazz Miles Davis foi ouvido pela publicação.

Hefner também tinha ciência que daria a Castro uma plataforma para conquistar simpatizantes para o regime cubano.

"A 'Playboy' desempenhou um papel fundamental nos debates sobre a normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba", disse o escritor.

Segundo o autor, ao lado de emissoras como a "CBS" e de empresas como a Boeing e a IBM, Hefner constituía um grupo que exercia pressão para que o governo americano restabelecesse os laços econômicos com a ilha.

O principal responsável pela ponte entre os empresários e Fidel era Kirby Jones, próximo ao senador democrata George McGovern, que era pró-Castro e perdeu as eleições presidenciais de 1972 para Richard Nixon.

Documentos secretos revelados recentemente pelo Departamento de Estado dos EUA mostram que Jimmy Carter tinha a intenção de encerrar o embargo econômico a Cuba se fosse reeleito presidente em 1981. No entanto, foi o republicano Ronald Reagan quem saiu vitorioso das urnas.

De acordo com um dos documentos, Carter teria dito que desejava "suspender o bloqueio econômico a Cuba" em uma reunião com integrantes do alto escalão do governo em Camp David, em 3 de maio de 1980.

O paradoxal é que, segundo Sierra Madero, nunca esteve interessado ver esses esforços prosperarem.

"O modelo de praça sitiada e de enfrentamento com os Estados Unidos era chave para os propósitos dele de controlar tudo em Cuba", ressaltou o autor.

Para Sierra Madero, esse é o principal "mal-entendido" que cercou a vida de Fidel, presidente de Cuba de 1959 a 2007, quando passou o controle do país a seu irmão, Raúl Castro, devido a uma grave doença.

"Foi um populista de esquerda, com um discurso de esquerda, que terminou mais perto da direita", afirmou o escritor.

Pamela Anderson em capa da revista Playboy - Reprodução
Pamela Anderson em capa da revista Playboy
Imagem: Reprodução

Na entrevista que concedeu a Lee Lockwood em 1967, o jornalista contratado pela "Playboy" não foi nada condescendente com Fidel. Entre outros temas, ele o questionou sobre a repressão aos opositores no país e sobre as divergências com Nikita Khrushchev pelas retiradas dos mísseis de Cuba após a crise que quase provocou um conflito nuclear entre União Soviética e Estados Unidos.

A resposta à última pergunta feita por Lockwood, para Sierra Madero, diz muito sobre o personagem de seu livro, que morreu em novembro de 2016, aos 90 anos. O jornalista questiona se o líder da revolução cubana se imaginava como um velho estadista aposentado.

Fidel diz que achava difícil se imaginar como uma pessoa de idade porque não poderia escalar montanhas, nadar, pescar e fazer outros passatempos que curtia naquele momento da vida. Ele também afirma que, quando se aposentasse, se dedicaria a estudar, experimentar e trabalhar na agricultura.

Sierra Madero acredita que Fidel se transformou em um mito devido à Guerra Fria, um período que o escritor acredita que convém ser revisitado.

"O turismo ideológico que ele promoveu para apresentar uma imagem falsa de uma Cuba alegre e feliz para intelectuais e personalidades internacionais foi uma das estratégias para manter a revolução", disse Sierra Madero.

"Se a 'Playboy' era uma Disneylândia para adultos, Cuba era a 'Castrolândia' e seu chefe a atração principal", completou o autor do livro.

O escritor não é otimista sobre o futuro do país. Para analisar os anos que virão para Cuba, Sierra Madero cita Katherine Verdery, autora de "What Was Socialism, and What Comes Next?".

"O socialismo é a rota mais longa e dolorosa para ir do capitalismo ao capitalismo", disse o escritor cubano. EFE

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