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Novas tecnologias revelam tesouro do Museu Egípcio de Turim

2019-03-26T10:01:00

26/03/2019 10h01

Gonzalo Sánchez.

Turim (Itália), 26 mar (EFE).- Kha e Merit viveram no Egito há mais de três mil anos, e suas múmias, guardadas em Turim, foram agora "virtualmente desenfaixadas" para revelar alguns de seus detalhes, graças à ciência e ao progresso tecnológico.

Este é só um exemplo das peças que o museu egípcio de Turim, considerado o mais importante do mundo depois do que fica no Cairo, exibe na mostra "Arqueologia Invisível", sobre como os modernos métodos científicos permitem analisar com cada vez mais detalhes artigos milenares, revelando páginas da história ainda desconhecidas.

"A matéria é como o 'CSI' da arqueologia: recuperamos as histórias dos objetos para depois dar a eles um novo significado como peça para recompor a história", contou à Agência Efe Enrico Ferraris, curador da mostra, que ficará aberta até janeiro de 2020.

Atualmente, especialistas estudam as múmias com métodos não invasivos, ao contrário de como era feito no passado, quando eram pilhadas, desenfaixadas em estudos descuidados e inclusive pulverizadas para serem ingeridas como medicamentos de eficácia duvidosa.

Na exposição, destacam-se as múmias de Kha e de sua esposa Merit, encontradas em 1906 pelo egitólogo Ernesto Schiaparelli em túmulo intacto na região de Deir el-Medina, perto do Vale dos Reis, às margens do rio Nilo.

Graças primeiro aos raios-X, depois à tomografia computadorizada e a um moderno software, o casal, ainda envolvido nas mesmas bandagens de linho, foi "virtualmente desenfaixado" para ter seus detalhes revelados.

Sobre o homem, sabe-se que foi um famoso arquiteto na XVIII dinastia (1425-1353 a.C), como mostra o colar de ouro que o faraó entregava aos seus funcionários mais importantes. Morreu com aproximadamente 60 anos, tinha algum tipo de artrose, 14 cálculos biliares e o cotovelo inflamado, provavelmente devido ao trabalho em pedreiras.

Sob o tecido que o cobre ainda estão peças de ouro, assim como um colar de um escaravelho em pedra com uma inscrição no dorso extraída do Livro dos Mortos, com a qual pretendia ganhar o favor de Osiris no juízo final.

Menos se sabe sobre Merit. Morreu jovem, antes de seu marido, e viajou para o além com uma longa peruca, assim como com um belo colar de ouro.

Além disso, a tomografia revelou que nenhum dos dois teve as vísceras extirpadas, como acontecia nos ritos funerários de então.

Esta "arqueologia invisível" desmascarou fraudes ancestrais, como o caso de um enorme crocodilo mumificado que foi vendido como "merchandising religioso", para servir de oferenda ao deus Sobek, mas que na realidade dentro só continha um pequeno lagarto.

Outro exemplo é o estudo do conteúdo de sete frascos de alabastro. É possível suspeitar que eles contêm os sete óleos sagrados, mas o certo é que estão selados e não podem ser abertos, pois na arqueologia, inclusive esse fechamento, é informação valiosa.

Os raios-X não revelavam seu interior, por isso os frascos foram estudados com radiografias de neutrinos por especialistas de Oxford, o que permitiu certificar que, de fato, contêm algum tipo de substância oleosa, embora não se saiba qual. Esse é outro mistério que a ciência que está por vir deverá desvendar.

Por outro lado, a nova técnica permite documentar uma escavação através da fotogrametria, que digitaliza um sítio arqueológico para preservar de forma precisa os dados das diferentes camadas de terra antes de retirá-las, como o museu fez no complexo funerário de Saqqara.

O papel da luz no estudo do passado também é repassado, já que, com o exame multiespectral, que usa as frequências invisíveis do espectro eletromagnético, é possível conseguir muitas informações sobre os artigos arqueológicos e os pigmentos usados para decorá-los.

Definitivamente, a mostra representa uma calorosa alegação a favor do humanismo, da ciência e da história e, por isso, inclui no final de seu percurso com uma advertência do pai do método científico, Galileu Galilei.

Ele afirmava que para ler o grande "livro" do universo era preciso entender a linguagem matemática e científica na qual está escrito, pois, caso contrário, olhar o mundo e a história dos que já passaram por ele seria como "vagar em vão por um labirinto escuro". EFE

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