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Exilada nos EUA, caricaturista venezuelana afirma que ditaduras não têm humor

07/03/2019 10h36

Ana Mengotti.

Miami, 7 mar (EFE).- A caricaturista venezuelana Rayma Suprani, que vive exilada nos Estados Unidos porque os "regimes ditatoriais não têm senso de humor", afirma que se sente "mais útil" em Miami para ajudar seus compatriotas, aos quais - literalmente - deu um coração.

Rayma, como os venezuelanos a conhecem pelos 19 anos em que fez caricaturas e humor gráfico para o jornal "El Universal", desenhou em 2014 um coração como "conceito positivo de venezuelanidade".

Aquele desenho viralizou e agora se transformou em uma peça de arte em série com ajuda de uma empresa de design de propriedade da também venezuelana María Eugenia Ulivi e seus sócios, com a qual espera arrecadar recursos para a fundação + is More, que se encarrega de fornecer leite e fórmulas lácteas para recém-nascidos na Venezuela que não podem ser amamentados por suas mães.

Os corações de Rayma, que buscam unir os venezuelanos em uma mesma batida, foram entregues a pessoas e instituições que foram "incondicionais" para a causa da liberdade na Venezuela, disseram Rayma e Ulivi à Agência Efe.

Além disso, os corações serão colocados à venda para que a + is More tenha mais receitas e possa mandar mais das 20 ou 30 caixas por mês com latas de leite que agora envia à Venezuela e assim ajudar mais crianças.

Cercada com esses corações com as cores e as estrelas da bandeira venezuelana feitos em acrílico e com o mesmo desenho impresso na camiseta que está vestindo, a chargista venezuelana de origem italiana falou sobre seu país, seu trabalho e a igualdade da mulher, entre outros temas.

Para Rayma, é inegável que houve mudanças no campo da igualdade de gênero, mas "o machismo ainda impera e, às vezes, o feminismo se comporta como um machismo gerado por mulheres".

Rayma acredita que "não há um equilíbrio real" e que a liberdade na educação e "a não imposição de papéis sociais" podem ajudar a alcançá-lo.

Para a chargista, a melhor mensagem que deve ser transmitida às meninas é que elas devem "ser elas mesmas", enquanto as mulheres têm que se permitir "a oportunidade de exercer e assumir com coragem e profissionalismo as novas áreas que estão nos esperando".

Quando pensa nas mudanças no mundo feminino, Rayma se lembra de sua avó, que "certamente teria sido levada para um hospício" se "tivesse se tornado caricaturista, pensasse livremente e não tivesse se casado ou tido filhos".

O dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, mas outra data, a de 5 de março, traz lembranças a Rayma, pois é o dia do aniversário do que ela define como a "morte decretada" do presidente venezuelano Hugo Chávez.

A caricaturista, um "trabalho" no qual há poucas mulheres, lembra o quão difícil foi criar o desenho que estamparia o jornal no dia seguinte à morte do ex-presidente, porque "fazer caricatura em paralelo à História de um país tem uma responsabilidade".

Em seu celular, Rayma mostra a imagem: um rei de um jogo de xadrez na cor vermelha, caído como em um xeque-mate.

Ter desconstruído a assinatura de Chávez para transformá-la no eletrocardiograma com o qual ilustrou a crise no sistema de saúde da Venezuela foi o estopim que provocou sua demissão do jornal "El Universal".

Rayma perdeu seu emprego, tinha problemas com o Ministério Público por suas caricaturas, recebia insultos e ameaças, até mesmo de morte. Tudo isso fez com que ela tivesse que deixar a Venezuela.

"A caricatura é o termômetro da liberdade de um país", disse a mulher de 49 anos, que estudou Jornalismo para equilibrar sua capacidade de comunicação, que até então tinha a ver quase que exclusivamente com a parte gráfica.

Rayma contou que foi "muito difícil" desenhar diariamente "os 20 anos de destruição" que o chavismo representou para a Venezuela, um país que, em sua opinião, está "em guerra", uma guerra não convencional, mas com o mesmo resultado: "a fatalidade do povo".

"Uma sociedade que não pode manter a estabilidade, a segurança, a saúde e a vida de uma criança está falida", opinou Rayma.

Agora que ela é sua própria editora, pois publica suas obras em seu site, se sente mais livre e mais útil, porque seu trabalho político está agora vinculado à solidariedade.

"A caricatura tem uma força incrível, tem muito poder, daí a responsabilidade", frisou Rayma.

Em relação à situação atual da Venezuela, a caricaturista disse sentir um "otimismo realista" e acredita que, se houver mudança, há "muito trabalho a fazer" e todos os que estão fora vão querer "retornar e contribuir".

Para Rayma, a Venezuela é um "narcoestado onde a criminalidade impera e há uma sociedade civil respeitosa que decidiu se manter no plano da civilidade".

"Contrapor civilidade a criminalidade é um 'duelo' que não sabemos como vai terminar", ressaltou Rayma. EFE