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"Il Primo Re", o filme que explora em latim o mito da fundação de Roma

Cena do filme "Il Primo Re" - Divulgação
Cena do filme "Il Primo Re" Imagem: Divulgação

Gonzalo Sánchez

De Roma (Itália)

20/02/2019 06h01

O cineasta italiano Matteo Rovere se aventura no mito da fundação de Roma em seu último filme, "Il Primo Re" ("O Primeiro Rei"), uma visão realista daquele mundo primitivo e violento narrada, além disso, completamente em latim arcaico.

A fundação de Roma, em 753 a.C, se assenta na lenda de Rômulo e Remo, dois gêmeos abandonados e amamentados por uma loba de cuja luta fratricida surgiu a cidade e, séculos depois, um dos maiores impérios que o homem conheceu.

Rovere (Roma, 1982) leva agora esta história às telonas primeiro para mostrar os dois míticos irmãos, tanto o vencedor, Rômulo (Alessio Lapice), como o que acabou nas sombras da história, Remo, interpretado por um dos atores italianos mais reconhecidos do momento, Alessandro Borghi.

Mas, sobretudo, para descrever de um modo "extremamente realista" aquele mundo anterior à fundação, primitivo, arcaico, sujo e violento, marcado pela luta entre tribos pelo domínio da área do rio Tibre.

"Queria uma visão muito mais realista que tirasse o espectador do cinema e o levasse ao século 8 a.C, através de um imaginário estético absolutamente novo, mas verdadeiro, profundamente real", explicou o diretor em entrevista à Agência Efe.

Rodado com luz natural na região do Lácio, o filme transcorre no meio de florestas frondosas e lodaçais ameaçadores, mostrando os costumes e formas de vida dos povos pré-romanos graças a uma reconstrução histórica dirigida pela Universidade Tor Vergata.

Ilustra o profundo sentimento religioso dos moradores da região, seus rituais funerários, suas técnicas de guerra e de caça, suas armas, assim como as cidades nas quais viviam, que não eram mais do que pequenos núcleos de cabanas, entre os quais se destacava Alba Longa.

Cena do filme "Il Primo Re" - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Il Primo Re"
Imagem: Divulgação

"O trabalho dos arqueólogos nos devolveu um mundo arcaico que não estamos acostumados a ver nos filmes tradicionais, que expõem um passado limpo, com atores com os dentes brancos e recém-saídos do cabeleireiro", explicou o diretor, também autor do aclamado "Veloce Come il Vento" (2016).

O seu desejo de mostrar da forma mais fidedigna possível aquele tempo é refletido no fato de que a produção tenha sido rodada completamente em latim arcaico, reconstruído para a ocasião por um grupo de filólogos e semiólogos da Universidade da Sapienza, diferente do litúrgico ou do que ainda se ensina nas escolas.

O cineasta explicou que, embora não exista uma "Pedra de Rosetta" da língua que se falava na época, os especialistas têm uma ideia básica do latim "protoromano" e que a esse foram acrescentadas algumas fontes encontradas em epígrafes, lápides e outros objetos.

O latim resultante não era suficiente para redigir um roteiro completo e, para preencher as lacunas, como se fosse um quebra-cabeças, os estudiosos de línguas romanas e sânscrito recorreram ao indo-europeu, base comum da maioria das línguas do continente.

Um esforço de reconstrução histórica, linguística e estética para retratar a parte "certa" escondida no mito, criado séculos depois pelos romanos para ilustrar sua própria origem.

"Construíram uma narração inventada, mas que contém no seu interior sua própria natureza", disse o diretor.

Do ponto de vista dos personagens, "Il Primo Re" mostra dois irmãos com visões antagônicas e se centra especialmente em Remo, forte e empenhado em evitar a vontade dos deuses, que já tinham escrito seu destino, o de morrer pelas mãos do seu irmão, descrito como mais frágil e misericordioso.

"Entre eles há uma síntese entre o bem e o mal que depois alcança a contemporaneidade e caracteriza os fatos atuais", declarou o diretor.

O cineasta está consciente de que um filme em latim antigo "a priori" pode assustar o espectador, mas acredita que também convida à curiosidade, e disse que as salas que decidirem exibi-lo poderão fazê-lo com legendas ou, diretamente, dublado.

Em qualquer caso o cosmos mitológico da fundação romana continua sendo para ele uma fonte de inspiração e fascinação e, por isso, reconhece que já trabalha na criação de uma série sobre o mesmo tema que, por enquanto, está em fase embrionária.