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Cinema patriótico, a receita russa contra a propaganda de Hollywood

20/01/2019 10h02

Ignacio Ortega.

Moscou, 20 jan (EFE).- O cinema patriótico, sejam filmes de guerra, dramas históricos, façanhas espaciais e esportivas ocorridas nos tempos da União Soviética (URSS), é a receita cultural escolhida pelo governo da Rússia para combater a propaganda de Hollywood.

"Queremos contar a história da guerra de maneira que atraia os jovens e, ao mesmo tempo, não irrite os que ainda se lembram da Grande Guerra Patriótica", explicou Alexei Sidorov, diretor de "T-34", um filme com o lendário tanque soviético como protagonista.

Pelo segundo ano consecutivo, um filme russo está no topo da bilheteria russa desde as festividades natalinas. Se no ano passado foi "Dvizhenie Vverkh" ("Para o Alto", em tradução livre do russo), que narra a mítica vitória da URSS sobre os Estados Unidos na final de basquete dos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, agora é a vez do cinema bélico mais tradicional.

A estreia de "T-34" em 27 de dezembro, a versão russa de "Corações de Ferro" de Brad Pitt, foi um sucesso. O filme conta as aventuras de um grupo de soldados soviéticos que consegue fugir de um campo de concentração alemão a bordo de um tanque, deixando "Creed 2", de Silvester Stallone, em segundo plano na Rússia.

O ministro da Cultura, Vladimir Medinski, foi quem ordenou prioridade ao cinema russo frente ao americano caso as estreias coincidam no tempo e não hesitou em encorajar as famílias a comparecerem em massa aos cinemas em companhia de seus filhos para ver o filme.

"Quando crianças discutíamos quem era melhor, Superman ou Batman. Agora, já sei", foi a mensagem que o ministro recebeu de seu próprio filho após ver o filme.

O longa, que é inspirado nos tradicionais filmes soviéticos, embora menos melodramático e mais espetacular, é baseado em uma história real que já cativou mais de 5 milhões de espectadores.

Apesar da histórica arrecadação, os críticos não foram muito generosos com o filme e o aprovaram com muitas ressalvas, o que não agradou em nada ao ministro, que comparou os que criticaram "T-34" com os soldados que abandonaram a frente de batalha durante a invasão alemã em 1941.

Em defesa do filme, Medinski lembrou que "T-34" é baseado em um fato real, enquanto "Corações de Ferro" e "Resgate do Soldado Ryan", que são histórias de ficção, receberam críticas muito mais positivas.

"O heroísmo mostrado por Brad Pitt e o seu tanque em 'Corações de Ferro' nunca ocorreu. Casos como este na frente oriental houve muitos, na ocidental não. Esta é a nossa história, a que eles levam aos cinemas, e nós ficamos maravilhados. Isso significa que nós não devemos nos mostrar para nós mesmos?", disse o ministro.

O mesmo aconteceu há dois anos quando estreou "Os 28 Heróis", que fala sobre o heroísmo de um batalhão soviético que freou com quase nenhuma munição o avanço dos tanques alemães que se aproximavam perigosamente de Moscou, um episódio que críticos e historiadores consideram uma lenda soviética e não um fato verídico.

Isso causou indignação a Medinski, um nacionalista procedente do partido do governo que é muito criticado nos círculos culturais, que pôs fim ao debate afirmando que o filme conta um fato histórico irrefutável.

O ministro aprovou então uma série de medidas para defender a indústria cinematográfica nacional frente à americana, que lembram a política de "exceção cultural" preconizada pela França há mais de 20 anos.

A aposta, que não insiste no financiamento do cinema autoral ao estilo Tarkovski, mas em filmes para todos os públicos, teve sucesso, já que quase 60 milhões de espectadores compareceram aos cinemas para ver filmes russos em 2018.

Na próxima semana estreará "Spasti Leningrad" ("Salvando Leningrado", em tradução livre do russo), sobre o início do bloqueio alemão da atual São Petersburgo, um assédio que durou 900 dias e custou a vida de quase 1 milhão de pessoas, entre civis e militares.

Nos últimos anos foram grandes sucessos de bilheteria filmes como "Legenda Nº17" ("Lendário Número 17", em tradução livre do russo) sobre Valeri Kharlamov, considerado melhor jogador de hóquei da história; e "Vremya Pervykh" ("Tempo dos Pioneiros", em tradução livre do russo), sobre a primeira caminhada espacial da história, realizada pelo cosmonauta soviético Alexei Leonov em 1965.

O apoio à indústria nacional tem exceções, já que a filme "Prazdnik" ("Feriado", em tradução livre do russo), uma comédia de humor negro sobre o bloqueio de Leningrado, foi considerada uma "blasfêmia" por políticos russos, o que obrigou seu diretor, Alexey Krasovsky, a limitar a sua estreia ao YouTube.

Embora Medinski negue a existência de censura cultural na Rússia, outra comédia, a britânica "A Morte de Stalin", que aborda em tom de humor as lutas internas no Partido Comunista após morte do líder soviético em 1953, teve sua licença de exibição cancelada há um ano. EFE