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Grafiteiro usa arte de rua para criticar junta militar da Tailândia

19/01/2019 10h11

Noel Caballero.

Bangcoc, 19 jan (EFE).- Com um spray certeiro, o artista tailandês Headache Stencil mira a lata de aerossol em uma parede e faz a silhueta do primeiro-ministro da Tailândia, o general Prayut Chan-ocha, junto com a frase: "Vote no ditador".

O 'Banksy da Tailândia', como foi apelidado, usa o sarcasmo para criticar a corrupção e os abusos de poder do governo militar, que já atrasou em várias ocasiões as eleições prometidas desde que tomou o poder em um golpe de Estado, em maio de 2014.

"As eleições marcadas para 2019 só servem como encobrimento para Prayut mudar o nome do seu cargo, de ditador a líder eleito", afirmou em entrevista à Agência Efe o grafiteiro, que em público esconde o rosto com óculos enormes, boné e lenço até o nariz para não ser identificado.

O jovem artista estava na cidade de Chiang Mai há quase cinco anos quando aconteceu o levante. Ele então decidiu deixar o trabalho que tinha em um escritório para começar a expor a sua arte em muros.

As obras denunciam, por exemplo, a suposta corrupção do vice-primeiro-ministro, Prawit Wongsuwan, que alegou que alguns relógios que ele usou em atos oficiais e avaliados em vários milhões de dólares pertencem a um amigo falecido, argumento que convenceu poucos tailandeses.

O trabalho do grafiteiro, incluindo uma pantera negra com o emoji de alto-falante cortado em referência ao animal protegido e caçado por um rico empresário tailandês em uma reserva natural, rendeu-lhe fama, mas também fez com que ele entrasse na mira das autoridades.

"Ficaram vigiando a minha casa durante dois ou três dias, mas por sorte consegui sair antes", lembrou Headache Stencil, que prefere não revelar seu nome verdadeiro.

Desde então, quando uma obra aparece em Bangcoc ou fora da capital, funcionários do governo se encarregam de pintá-la de branco.

A organização Human Rights Watch (HRW) denunciou a "deterioração" dos direitos humanos cometida pela junta militar tailandesa, à qual acusa de censurar a imprensa, além de reprimir e deter dissidentes por críticas contra as autoridades.

Headache Stencil pretende através da seu trabalho servir de exemplo para jovens artistas ou para outras pessoas para que também lutem e exerçam o seu direito à liberdade de expressão.

Na sua primeira exposição exclusiva em julho do ano passado, ele simulou um enorme labirinto repleto de obras críticas ao ditador e cujo final era uma urna eleitoral bloqueada com fita policial e rodeada por botas militares.

"Tomaram o poder com um argumento (de unir ao país e combater a corrupção), mas fizeram o contrário", afirmou o grafiteiro, que garantiu que seguirá sendo crítico do próximo governo democrático.

Após um tour por galerias da Austrália e do Japão, Headache Stencil previa inaugurar a sua segunda mostra em meados de dezembro, mas foi obrigado a cancelar por causa do receio do dono do espaço de possíveis represálias da junta militar.

"A luta é complicada, porque temos várias leis que bloqueiam os nossos direitos. O que a gente publica nas redes sociais também pode nos levar à prisão. São tantas leis que nos calam e nos impedem de nos expressarmos que nos acostumamos a isso. É horrível viver em uma sociedade silenciada", enfatizou.

Até o momento, o general Prayut não confirmou a sua futura participação na eleição, mas o pleito precisa acontecer até 9 de maio, de acordo com a Constituição.

"A arte de rua embeleza a sociedade", defendeu Headache Stencil, que em outra obra exibe a frase "Levante-se e erga-se" junto com o rosto do ativista Jit Poumisak, conhecido como 'Che da Tailândia' e assassinado em 1966. EFE