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Apelo por filhos se mistura no Irã com cerimônias de luto

18/09/2018 09h59

Marinha Villén

Teerã, 18 set (EFE).- A iraniana Shahnaz Ahmadi implorou durante 17 anos, sem sucesso, para ficar grávida. Finalmente recorreu a Ali al-Asghar, filho do imã Hussein assassinado quando ainda era um bebê, e conseguiu realizar seu desejo de ser mãe.

Junto com a filha de 7 anos, Ahmadi compareceu a uma das cerimônias de luto em Teerã em lembrança de Asghar para agradecer, celebrações que acontecem nos dias prévios à Ashura, quando os xiitas lembram o martírio do imã Hussein e de seus familiares no ano 680 na Batalha de Carbala (atual Iraque).

"Durante 17 anos rezei para os diferentes imames para que intercedessem por mim diante de Deus para ter um filho, e quando já tinha perdido todas as esperanças, pedi a Ali Asghar e em um mês eu estava grávida", explicou à Agência Efe esta dona de casa de 40 anos.

Com a voz embargada pela emoção destas lembranças, Ahmadi afirmou que o filho do imã Hussein é "a porta do cumprimento dos desejos das mulheres que querem ser mães", embora tenha reconhecido que demorou em recorrer a ele por pudor, pelo pesar dos pais de Asghar com a perda.

Segundo a história, Ali Asghar faleceu com apenas seis meses atingido por uma flecha enquanto estava nos braços de seu pai Hussein, o terceiro imã dos xiitas e neto do profeta Maomé.

Sua morte, da mesma forma que a de seu pai, aconteceu durante a citada Batalha de Carbala contra o califa Yazid I, um fato que marcou o começo do briga entre os xiitas e os sunitas, os dois ramos principais do Islã.

Quem também recorreu a Asghar para tentar engravidar foi Mona Masrur, uma professora que buscava um filho há muito tempo.

"Prometi a Deus que se me desse um filho, viria com ele por sete anos às cerimônias em homenagem a Ali Asghar", disse à Efe esta mulher.

Em agradecimento pelo desejo cumprido, Masrur repartiu durante cinco anos leite e doou dinheiro.

A tradição marca que nas cerimônias em lembrança a Asghar, chamadas "Shir kharegane" (bebedores de leite) se ofereça leite às mulheres e crianças, protagonistas deste evento.

Muitas crianças comparecem usando lenços tradicionais e fitas verdes, a cor dos descendentes do profeta.

Após os cantos de luto frequentes do mês islâmico do Muharram, um berço passa entre os presentes, objeto que simboliza um bebê, ao qual as mulheres se agarram emotivas e no qual costumam depositar dinheiro.

Um dos responsáveis pela cerimônia em questão, Hamid Seifineyad, contou à Efe que "há uma crença especial sobre o dia de Shir Kharegane", principalmente entre as mulheres.

"Uma mulher trouxe ontem mil caixas de leite depois de ter feiro uma promessa no ano passado se ficasse grávida", indicou Seifineyad, encarregado da decorações do local, no qual também se oferece uma comida durante a cerimônia.

Segundo este homem, o leite tem uma importância destacada neste evento e muitas mulheres o bebem e pedem seu desejo, no marco das celebrações do mês de luto do Muharram.

O dia cúpula deste mês é o da Ashura, na próxima quinta-feira, quando as procissões de homens batendo no peito e nas costas com correntes, inundam as ruas de Irã para lembrar o martírio do imã Hussein.

Para iniciar as crianças nestes ritos de luto da Ashura, a festividade religiosa mais importante para os xiitas e de amplo seguimento na República Islâmica, um primeiro passo é a cerimônia de "Shir jaregane".

Como disse Ahmadi, trazem seus filhos para que "conheçam a cerimônia e compreendam a realidade do ocorrido ao ímã e sua família, e assim quando sejam maiores possam aprofundar nestes temas e seguir este caminho de fé".