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Inhotim lamenta incêndio no Museu Nacional e debate como país encara cultura

08/09/2018 09h41

Carolina Radu.

Brumadinho (MG), 8 set (EFE).- Após o incêndio que destruiu o Museu Nacional, a preocupação com o futuro e a conservação dos centros de arte ganhou ampla repercussão no país, e o impacto da tragédia ocorrida no antigo palácio imperial no Rio de Janeiro, que tinha completado 200 anos em junho, também foi lamentado pelo Inhotim, um dos principais centros de arte contemporânea ao ar livre da América Latina.

"A primeira sensação é de grande perda, como cidadã e como museu. Não sei se está claro para todos que, muito recentemente, o Museu Nacional comemorou 200 anos e ele marca o início da cultura de museus no Brasil. Se não existisse o Museu Nacional, o que seriam os outros museus? Agora, com essa perda, a gente tem que entender qual é o papel do Museu Nacional, apesar do acervo ter sofrido essa violência e esse descaso", alertou a diretora artística adjunta de Inhotim, María Eugenia Salcedo.

De acordo com ela, a instituição tem uma série de medidas para tentar evitar que algo parecido possa acontecer.

"É um desafio, porque Inhotim tem um jardim botânico também. Então, estamos falando não só de espaços físicos, como galerias e acervo de arte, mas também de acervo natural. Todas essas medidas legais, como brigada de incêndio e alvará de funcionamento, estão em dia, e existe principalmente um olhar constante", explicou ela sobre possíveis adaptações a partir de observações feitas após a inauguração de cada exposição.

Para o diretor executivo de Inhotim, Antônio Grassi, o caso serve para provocar uma nova visão sobre como a cultura é encarada pela sociedade.

"É uma tragédia perder todo o acervo e o patrimônio histórico que tinha lá dentro, mas tem uma tragédia maior que é o formato com que a cultura é vista e cuidada no Brasil. Ficou muito evidente a falta de prioridade, o descuido e o descaso com que cuidados da nossa história. Eu falo 'nós' porque acho que a sociedade também tem que ser responsável por isso", argumentou o ator, que defende a proposta de "ciclos de patronos" como via de incluir pessoas físicas no cuidado desses patrimônios.

Segundo ele, uma "associação de amigos" é um formato possível no Brasil, já que muitos brasileiros já aderem a esse modelo em instituições no exterior.

"Isso é uma coisa totalmente plausível dentro do Brasil, visto que há mais de 700 brasileiros que são patronos do MoMA (Museu de Arte Moderna), lá em Nova York, e esses mesmos brasileiros às vezes não colocam nada aqui", afirmou.

Atualmente, Inhotim recebe cerca de 350 mil visitantes por ano, sendo 13% desse público estrangeiro, e tem avançado ao longo dos anos na busca pela expansão. Para María Eugenia, trazer mais público passa por dois caminhos.

"Existem dois desafios dentro de um mesmo: ampliar e aprofundar. Na verdade, a grande pergunta é quem não nos visita ainda. Essa é uma parte do desafio. A outra é, simultaneamente a esse processo, conseguir fazer com que aqueles que ou vêm pela primeira vez ou já nos visitaram outras vezes aprofundem", esclareceu.

Segundo ela, o fato de estar em Brumadinho, cidade que fica uma hora e 15 minutos de carro da capital mineira, é um diferencial.

"Os museus pertencem a todo mundo. O fato de estarmos deslocados do centro de Belo Horizonte e, digamos, em nível nacional nesse mapa faz com que as pessoas entendam que aqui é uma viagem mesmo, de prazer, lazer, curiosidade", ponderou.

A visão é semelhante à de Grassi, que destacou a marca de 3 milhões de visitações que o espaço atingiu em agosto deste ano.

"A evolução foi proporcional à evolução do próprio lugar, que hoje tem uma potência em número de obras de arte e que atingiu 3 milhões de visitantes. Esse é um feito extraordinário, já que não está localizado numa grande metrópole, como o MoMA, o Metropolitan ou Louvre, por exemplo. É um lugar aonde o acesso não é tão facilitado e está localizado fora do eixo Rio-São Paulo, fora até da capital mineira. Tem tudo isso para a gente dizer que chegar a 3 milhões de visitantes desde a abertura ao público, em 2006, é um marco extraordinário", argumentou.

Atualmente, Inhotim tem uma série de trabalhos para a captação de recursos e para manter não só o público, como a comunidade mais próximos.

"A Lei Rouanet também vale para pessoa física. Eu acho que essa é uma informação que as pessoas não têm e quando têm não são estimuladas a usufruir disso", apontou o diretor executivo.

Sobre o entorno, ele ressaltou que dos 600 funcionários, 90% são da região, e para a grande maioria o trabalho em Inhotim é a porta de entrada para o mercado de trabalho. Além disso, existem trabalhos com os quilombolas da região, a Escola de Cordas, a Orquestra do Inhotim e o Laboratório Inhotim.

"Acho que cultura e educação são irmãs siamesas, não dá para separar uma da outra. Por mais que tenham ministérios e organizações distintos, a cultura e a educação têm que estar de mãos dadas sempre", finalizou.

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