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Festival leva cinema dos marginalizados à capital do Quênia

01/09/2018 06h03

Patricia Martínez.

Nairóbi, 1 set (EFE).- Levar o cinema "dos sem voz, dos que são ninguém, dos mais pobres" às áreas mais favorecidas do Quênia, mas sobretudo, às entranhas de seus vários subúrbios, é o principal objetivo do Slum Film Festival, realizado em Nairóbi.

"São vários os produtores com talento que estão nos bairros marginalizados e o fato de que ninguém ir até eles nos parece importante", explica à Agência Efe o curador do festival, Tony Gachoki.

"Trata-se de uma oportunidade única para que todo esse talento bruto chegue aí fora", completou.

Com esse propósito, 20 de filmes gravados em diferentes assentamentos informais de todo o mundo - nos quais estima-se que já vivem 24% da população global, segundo ONU Habitat - estão sendo exibidos tanto nos subúrbios de Nairóbi como nas principais instituições culturais da capital queniana.

Albin, 11 anos, não tira os olhos da grande tela que trouxe o cinema até a porta de sua casa, nas vielas do imenso labirinto da favela de Kibera.

Trata-se de uma sessão múltipla, ao ar livre e gratuita, na qual as crianças se acomodam no chão enquanto os adultos permanecem de pé; todos atentos às legendas em inglês que os aproximam realidades do outro lado do mundo, ou da própria vizinhança.

"Olha, essa é a minha rua, eu moro ali atrás", comenta Albin, apontando as imagens do curta-metragem queniano "Not now", um dos indicados na edição 2018.

Laura Nayere, oriunda de Kibera e graduada em Transmissão Televisiva pela Universidade de Nairóbi, é a mente pensante por trás deste documentário em curta-metragem, que aborda o uso de anticoncepcionais entre as adolescentes de Kibera.

No "gueto", como denominam muitos de seus residentes, os problemas são incontáveis: ausência de um sistema de saneamento básico, aglomeração de pessoas, criminalidade, falta de educação sexual e, comandando todos eles, a miséria.

"Comer três vezes ao dia é uma bênção", lembra Laura.

Aos seus olhos, muitas jovens são seduzidas a fazer sexo, inclusive sofrem abusos sexuais, sem contar com nenhum tipo de informação sobre como, quando e por que devem usar anticoncepcionais.

"Quero que as adolescentes levantem a voz e falem sobre isso, embora se trate de um tabu moral", conta a cineasta.

Estima-se que uma a cada quatro adolescentes de Kibera (entre 15 e 19 anos) passou por uma gravidez prematura, segundo a ONG Witness, o que se traduz em uma alta taxa de abandono escolar (30%) e em um incontrolável índice de transmissão de HIV de mãe para filho, com mais de 50 mil bebês infectados a cada ano no Quênia.

Assim como este trabalho, muitos outros dos filmes indicados têm foco em temas sociais: "Falam de justiça ou injustiça, conforme queira chamar, de direitos humanos e de igualdade de gênero, mas também de amor, amizade e lealdade", comenta Gachoki.

"Gosto destes filmes porque são educacionais e informativos, e atividades como esta nos une e inspira a tentar coisas novas", expressa à Efe Slavey, um jovem rapper de 27 anos que compareceu ao festival por recomendação de um amigo cineasta.

Pouco depois, as 50 crianças que cercam o projetor, espalhadas pelo chão a poucos metros da tela, riem em uníssono enquanto assistem ao curta iraniano "Are you volleyball?!", no qual menores refugiados árabes jogam uma divertida partida contra um grupo de soldados fronteiriços.

Durante os 14 minutos do filme, as crianças parecem se esquecer de tudo: da agitação dos vendedores que foram embora ao anoitecer, da sujeira que os circunda e suja seus pés, da fome que foi ganhando espaço em seus estômagos e, inclusive, do sono. Graças à magia do cinema, só se escutam as risadas.