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Portugal lembra os 50 anos do início do fim do regime de Salazar

03/08/2018 17h24

Cynthia de Benito.

Lisboa, 3 ago (EFE).- Ele foi ditador de Portugal por 36 anos, até cair de uma cadeira e precisar ser substituído. A queda que António de Oliveira Salazar sofreu há exatos 50 anos foi o princípio do fim do regime, que acabou em 1974.

Nesta sexta-feira, a data é lembrada pela imprensa portuguesa, que conta o que aconteceu naquele 3 de agosto de 1968, quando o ditador caiu de uma cadeira de lona na casa que tinha em Estoril, a 30 quilômetros de Lisboa. A queda ocorreu durante uma visita de um calista, que esperava Salazar se sentar. O ditador exagerou no movimento e caiu para trás, batendo a nuca no chão.

A pancada, aparentemente inofensiva, se revelou grave um mês depois, quando ele se submeteu a um exame neurológico. Começava então a busca de um médico para operá-lo.

Após vários candidatos serem descartados, António Vasconcelos Marques acabou sendo escolhido, e o governante foi internado com o maior sigilo no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, no dia 6 de setembro de 1968.

O ditador foi operado na madrugada do dia seguinte por uma equipe de dez médicos, algo "muito natural por se tratar da pessoa que era", segundo disse, em 2009, a anestesista Maria Cristina da Câmara, cujo relato voltou a ser reproduzido hoje pela imprensa portuguesa.

"Salazar estava completamente recuperado da operação e tinha uma conversa agradável e muito simpática. Reconhecia todos, o que era um excelente sinal. E, como se sabe, antes da operação ele se confundia com frequência", contou ela.

Nas primeiras horas de pós-operatório, Salazar recebeu um telegrama do ditador espanhol, Francisco Franco.

"Com o profundo afeto de sempre, faço fortes votos de rápida e feliz recuperação", dizia a mensagem.

Mas, em 16 de setembro, dez dias depois, Salazar sofreu um AVC, conforme consta nos arquivos médicos, e chegou a receber a extrema-unção de um padre de Lisboa.

Contrariando as previsões, Salazar conseguiu sair do coma, mas já não era o mesmo. Não se lembrava mais de assuntos recentes, a capacidade motora estava reduzida, e o Conselho de Ministros decidiu que Marcelo Caetano seria o novo presidente. Era 27 de setembro de 1968.

Salazar nunca soube. Voltou à residência oficial, o Palácio de São Bento, e convocava com frequência os ministros, que compareciam pacientemente, alguns deles inclusive depois de deixar a pasta, para fingir que continuavam no poder.

"Ninguém teve coragem de contar ao ditador, de 80 anos, que foi substituído", afirmou a revista "Time" em uma reportagem publicada em 1969, um ano antes de sua morte.

O início do fim da ditadura foi consumado com o mandato de Caetano, que foi atacado pela ala mais reacionária do "Estado Novo" adotado por Salazar, pela crise do petróleo de 1973 e pelo fracasso nas guerras coloniais portuguesas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, antes da explosão da Revolução dos Cravos, em 1974.

A história da fatal queda da cadeira que começou a desintegrar o regime continua tão fascinante para os portugueses que, no dia dos 50 anos do acontecimento, vários textos são dedicados exclusivamente à cadeira.

"Não caia nessa. Saiba como escolher a cadeira ideal", é o título de um artigo publicado pela emissora "TSF" no qual, aproveitando a data, explica "os cuidados para ter ao se sentar e como escolher a cadeira ideal, para evitar pequenas grandes tragédias como a que aconteceu com o ditador português". Além disso, proliferam as recomendações da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, que ressalta que tombos e quedas "são responsáveis por 70% das mortes acidentais" na terceira idade e que é preciso aumentar os cuidados.

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