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Cacá Diegues surpreende com cinema barroco e poético em sua volta a Cannes

13/05/2018 15h15

Alicia García de Francisco.

Cannes (França), 13 mai (EFE).- Considerado um dos diretores mais importantes do Brasil e um dos líderes do Cinema Novo, Cacá Diegues surpreendeu neste domingo em Cannes com "O Grande Circo Místico", um filme barroco, surrealista e poético.

O próprio diretor o definiu assim em um encontro com um grupo de jornalistas, muito satisfeito de estar em Cannes e pela recepção do filme, que marca seu regresso ao festival 30 anos depois de competir pela Palma de Ouro em 1987 com "Um trem para as estrelas".

"O Grande Circo Místico", no entanto, foi exibido fora de competição, em uma seção mais adequada para esta adaptação de um poema de Jorge de Lima que levou anos para sair do papel.

"É um poeta que lia muito na minha adolescência, um poeta barroco, surrealista. Queria levar um poema seu ao cinema, mas nunca encontrava um que fosse fácil de adaptar", afirmou Diegues.

Até que pensou em um poema do livro "A Túnica Inconsútil" que já tinha sido objeto de adaptação para um espetáculo musical em 1980, com música de Chico Buarque e Edu Lobo.

"Pensei que era o adequado para fazer uma história experimental barroca", explicou o cineasta, que manteve as canções originais para aquele espetáculo, mas que se afastou muito na história que conta.

Diegues, que também havia competido pela Palma de Ouro antes com "Quilombo" (1984) e "Bye bye Brasil" (1980), já não acredita no cinema de histórias reais e prefere as histórias barrocas.

Uma espécie de "antinaturalismo" no cinema, uma vez que considera firmemente que os filmes devem criar "uma alternativa à realidade que nos rodeia".

Com "O Grande Circo Místico", segundo relatou, "a ideia era construir um filme que defendesse a tradição barroca da cultura brasileira, falar mais dos sentimentos humanos que da realidade".

E para isso era ideal o poema de Jorge de Lima, que apenas indicava a história de cinco gerações de uma família circense, os Kieps, razão pela qual Diegues e o outro roteirista, George Moura, tiveram muita liberdade para pôr esses personagens em imagens.

Todo um leque de extravagantes personagens com comportamentos poucos comuns, interpretados por atores como Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer, Rafael Lozano, Marina Provenzzano e o francês Vincent Cassel, a quem o diretor considera um brasileiro a mais, como ressaltou entre risos.

Mas, embora se trate de um filme longe da crítica que caracteriza grande parte da sua obra, para Diegues "O Grande Circo Místico" também tem um cenário social, sobre a situação das mulheres e as relações de poder.

Não é, como reconhece, um filme sobre o Brasil de hoje, é mais sobre os estados mentais, segundo o próprio, porque hoje é impossível tomar uma posição sobre o Brasil atual. Era muito mais fácil, assegurou, quando era jovem, havia uma ditadura militar e as posições estavam mais claras.

Então ele estava contra, se exilou e criticou duramente o governo com seu cinema, mas também como crítico, poeta e jornalista.

"Agora a situação no Brasil é caótica, é muito difícil falar de uns ou outros. A única coisa que está clara é a grande desigualdade social que existe", lamentou.

Um problema que se vê no filme através da evolução do circo no qual se desenvolve a história, que vai de um 1910 no qual o mundo circense era prezado e respeitado até a decadência absoluta do começo do século XXI.

Cheio de cor e de magia, com personagens que vão do grotesco ao encantador, o filme se move entre o melodrama, o conto e a lírica, em uma homenagem ao Cinema Novo ao qual Diegues pertenceu.

Assim como Nelson Pereira dos Santos, falecido em abril deste ano e a quem Diegues quis dedicar o filme em Cannes.

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