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Museu em Assuão tenta preservar história do povo núbio no Egito

11/03/2018 05h58

Isaac J. Martín.

Assuão (Egito), 11 mar (EFE).- Alinhados e dissecados, dez animais estão expostos no chão simulando as áridas areias do deserto que contam o exílio do povo núbio no Egito em um museu que tenta fazer com que ninguém esqueça essa parte da história.

Cercado de verde e ruas sem asfalto na pequena ilha de Elefantina, em Assuão, no sudeste do Egito, Mohamed Sobhy, de 67 anos, abre a porta de sua casa-museu, Animalia, para que as pessoas entrem em um mundo onde ele tenta explicar uma realidade que considera ignorada.

"Não tinha muita informação sobre a Núbia, não existiam livros, nem nada, mas eu consegui fazer uma boa coleção indo ao Cairo. Então, eu tinha que fazer um museu, já que os guias não sabiam contar o que tinha acontecido", explicou Sobhy à Agência Efe.

Sobhy foi percorrendo todo o país para tentar juntar os animais que viviam na região e mostrar como foram afetados pela criação da Represa de Assuão, que terminou de ser construída em 1970 e provocou o deslocamento dos núbios.

"Andei por todo o país durante dois anos. Comecei em 2004 só com os animais, porque as pessoas aqui já abrem suas casas núbias aos estrangeiros. Queria contar a vida na Núbia através dos répteis, dos pássaros, dos insetos...", contou, enquanto mostrava o espaço.

Um grande crocodilo e uma serpente em posição de ataque impressionam o visitante logo na entrada. Atrás, montanhas foram desenhadas na parede e o chão foi pintado de azul, para imitar a água do lago.

Depois de aberto, os guias, que viram no local uma forma de aprender mais sobre a história, aconselharam que Sobhy criasse também uma casa típica dos núbios em outra parte "para a visita ser completa".

Herdeiros de uma lendária cultura, os núbios protagonizaram várias migrações ao longo da história e a mais recente foi consequência da inundação provocada pela construção da gigantesca Barragem de Assuão, que destruiu milhares de assentamentos núbios.

Isto obrigou a população a deixar suas terras e as pessoas foram forçadas a se refugiar em outros pontos do sul do Egito e do norte do Sudão, trocando o rio Nilo pelo árido deserto, por decisão do então presidente Gamal Abdel Nasser.

Além disso, este povo de pele escura e que fala um idioma proibido de ser ensinado nas escolas se considera marginalizado, já que o governo egípcio prometeu que eles voltariam às suas terras, mas isso nunca aconteceu.

"O Nilo foi uma bênção, mas depois se tornou uma maldição com a construção da represa. Foram 43 povoados da Núbia debaixo d'água", relatou Sobhy, que é agrônomo de formação, mas que também já foi guia de turismo.

E nem só de animais é feito o museu. O espaço vai se renovando e Sobhy acrescenta novos elementos para os turistas, que também podem dormir no local, em quartos montados na parte superior.

Durante o passeio, Sobhy ressaltou a figura da mulher núbia, "a mais respeitada e a que faz tudo". Para exemplificar, ele pendurou várias fotos que mostram as mulheres trabalhando no artesanato e na casa, enquanto os homens brincam com os gatos.

"As pessoas pensavam que no Nilo havia uma conexão espiritual. Pensavam que existiam anjos bons, mas foram levadas ao deserto. Não existem anjos no deserto. Esta é a agonia da Núbia", finalizou.

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