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Zorba, o Grego, é exaltado como patrimônio em Grécia e Macedônia

01/03/2018 06h01

Ivan Blazhevski.

Skopje, 1 mar (EFE).- Muito se discute na Grécia e na Macedônia sobre o nome definitivo da ex-república iugoslava e sobre a herança cultural deixada por Alexandre, o Grande. Poucos sabem, no entanto, que ambos os países compartilham o legado de outro personagem de fama mundial: Zorba, o Grego.

No seu livro "Vida e Proezas de Alexis Zorbas" (1946), que foi parar nas telonas com a direção de Michael Cacoyannis e protagonizado por Anthony Quinn, o escritor grego Nikos Kazantzakis se inspirou em um personagem real, o seu amigo Georgios Zorbas.

Hoje, os paradoxos da vida querem que o túmulo de Georgios fique em Skopje, a capital da Antiga República Iugoslava da Macedônia, que há 27 anos vive em disputa constante com a Grécia sobre o seu nome definitivo.

De acordo com o historiador macedônio Danilo Kocevski, Zorbas, que morreu em 1941 e passou os 20 últimos anos de vida em Skopje, gostava de aproveitar a vida e era conhecedor dos melhores restaurantes e bares da capital. Possuía o direito de explorar várias minas em Drachevo e Zelenikovo, povoados perto de Skopje, onde se instalou em 1922 com a filha de 10 anos.

Em seu novo lar, no então Reino da Iugoslávia, Zorbas passou a se corresponder com frequência com Kazantzakis e relatava ao amigo a nova vida e o clima da cidade, que depois viraria um livro e duas décadas mais tarde serviria de inspiração para a produção de Hollywood.

Quase mais famosa do que o longa acabaria sendo a música do filme, composta por Mikis Theodorakis, que praticamente transformou a canção em um segundo hino da Grécia.

Agora, Theodorakis se tornou um estandarte do nacionalismo grego, o que afeta esta questão ao rejeitar visceralmente toda solução que inclua a palavra Macedônia na discussão.

Em uma recente manifestação em Atenas na qual foi o orador principal, o compositor, de 92 anos, sustentou que toda concessão à ARYM (República da Macedônia) representaria uma suspenção da soberania nacional grega e afirmou que, com o uso do termo Macedônia, o país vizinho tenta aumentar as suas fronteiras em detrimento da Grécia.

No principal cemitério de Skopje, na fileira 17, linha 3, número 23, tudo está extremamente calmo nestes dias. Nada nem dá sinal que sob o mármore jaz um dos homens mais alegres da cidade, cujas lembranças poderiam diminuir as tensões políticas entre Grécia e Macedônia, pelo menos por um momento.

Certamente Georgios Zorbas nunca sonhou em se tornar um dos gregos mais famosos do mundo e que seria enterrado em uma terra cujo nome é motivo de discussão na sua Grécia natal. Graças a um de seus netos, que conservou uma foto do avô e a colocou no túmulo, o mundo conhece o rosto do verdadeiro Zorba.

Após anos de disputas por causa do nome, muitos em Skopje acreditam que, com o passar do tempo, os vínculos culturais entre as duas nações estão se extinguindo. Mas o escritor Vladimir Martinovski, da Faculdade de Filologia de Skopje pensa diferente. Para ele, Georgios Zorbas poderia ser elemento de aproximação, se utilizado corretamente.

"O personagem de Zorba não gera nacionalismos. Brilha por seu cosmopolitismo, que é o que realmente precisamos neste momento entre os nossos países", disse Martinovski à Agência Efe.

O Sirtaki, a coreografia criada por Zorba, ainda tem milhões de adeptos no mundo todo, mas nunca conseguiu unir as duas nações.

O Ministério de Cultura da Macedônia tem uma iniciativa para fazer projetos que aproximem artesãos, músicos e trabalhadores culturais da Grécia e da Macedônia.

"Sem dúvida existem muitas personalidades, incluindo Zorba, que contribuíram para a construção da identidade cultural da região dos Balcãs e dos nossos países. Poderíamos construir pontes com base no que ele conquistou", defende o Ministério da Cultura.

Desde que a ARYM proclamou a independência, em 1991, a Grécia rejeita o uso do nome constitucional, República da Macedônia, com o argumento de que esse qualificativo faz parte da herança cultural grega e por medo de que o país vizinho possa apresentar reivindicações territoriais na região homônima no norte da Grécia.

Por esse motivo, o acesso de Macedônia à União Europeia e a OTAN continua sendo bloqueado.

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