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Sean Baker denuncia "indigência oculta" dos EUA em "Projeto Flórida"

Divulgação
Cena do filme "The Florida Project", de Sean Baker Imagem: Divulgação

Magdalena Tsanis

De Madri (Espanha)

24/01/2018 11h58

O contraste entre o "feliz" Disneylândia e a precariedade em que vivem milhares de famílias ao longo da estrada 192 que circunda esse mundo mágico chamou a atenção de Sean Baker, que reflete essas contradições em "Projeto Flórida", um dos filmes independentes mais aclamados do ano.

Essas pessoas são "indigentes ocultos", muitos deles expulsos das suas casas por causa da crise hipotecária de 2007, explica Baker em uma entrevista com a Agência Efe um dia depois de ser anunciado que Willem Dafoe é um dos indicados ao Oscar de melhor ator coadjuvante por seu papel no filme.

"Não são incluídos nas estatísticas oficiais de pessoas sem casa porque não estão na rua ou em abrigos, mas é um problema nacional nos Estados Unidos, não só em Orlando", apontou durante uma visita a Madri o também diretor de "Tangerine" (2015), filme rodado com três celulares e que colocou Baker em evidência no mundo do cinema.

O diretor apresentou um dado, ainda que seja só uma estimativa: há três anos calculava-se que havia 5 mil crianças sem lar vivendo na beira dessa estrada, em motéis de baixo orçamento com nomes como "Magic Castle" e "Futureland" e fachadas coloridas, em sintonia com a fantasia prometida pela Disneylândia a poucos metros dali.

"É tudo real, as áreas externas, as paisagens incríveis, os pequenos negócios com luzes de neon para atrair as famílias com crianças que vão ao parque temático", afirma o cineasta sobre este local, que revela de forma estridente os paradoxos do sistema capitalista.

Baker busca conscientizar o espectador, mas também comovê-lo e fazê-lo rir, algo que consegue ao adotar na narração o ponto de vista de Moonee, uma menina de seis anos, e de seus amigos durante um verão.

Para eles, a vida é uma oportunidade para aventuras e travessuras, enquanto os adultos fazem o que podem para seguir em frente.

"A infância é algo universal que todos experimentamos", aponta Baker sobre o processo de criação destes personagens. "Você só precisa se colocar de volta lá, lembrar suas experiências, é o que fizemos, e também perguntar às crianças e deixa-las colaborar com as coisas".

O processo de escolha do elenco não foi nada convencional. Dafoe é o único ator experiente do filme. Brooklyn Prince, que dá vida a Moonnee, respondeu a um anúncio, enquanto Bria Vinaite, que interpreta sua jovem mãe, foi encontrada através do Instagram.

Dafoe conseguiu sua terceira indicação ao Oscar interpretando Bobby, o gerente do motel, um homem de paciência infinita que, apesar da sua aparente grosseria, age como protetor de Moonee e de sua mãe, Halley.

A investigação prévia foi fundamental para definir o perfil dos personagens.

"A nossa aproximação ao roteiro - escrito com Chris Bergoch - foi jornalística", afirma Baker. "Nós não pertencemos a esse mundo, portanto queríamos escutar a voz da comunidade para poder refleti-la de forma respeitosa".

"Entrevistamos os moradores reais desses motéis, proprietários de pequenos negócios, as agências que ajudam na região, e certamente os gerentes dos motéis foram essenciais, sobretudo, para o personagem de Bobby", acrescentou.

Não é a primeira vez que Baker volta seu olhar para histórias e personagens marginalizados. "Tangerine" (2015) contava o caso de uma prostituta transgênero que descobre que seu namorado e cafetão a engana com uma mulher, e em "Take Out" (2004), o protagonista era um imigrante ilegal chinês nos EUA.

Mas a consagração veio com "Projeto Flórida", um filme que já foi sensação no último Festival de Cannes, onde participou da seção paralela da Quinzena dos Realizadores, e que foi incluído pelo American Film Institute entre os dez melhores títulos de 2017.
 

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