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Projeto musical muda triste realidade de milhares de crianças na Colômbia

08/11/2017 10h00

Gonzalo Domínguez Loeda.

Bogotá, 8 nov (EFE).- Durante muitos anos, na Colômbia, o estampido de tiros foi um som muito comum para milhares de crianças e adolescentes que, com o objetivo de mudar essa complexa realidade, passaram a se refugiar na música em busca de um futuro melhor.

Aproximadamente, 45 mil meninas e meninos passam pela ONG Fundação Nacional Batuta todos os anos. Quase metade deles é vítima do conflito armado e a imensa maioria vem ou veio de regiões marcadas pela violência, pela pobreza ou pelo isolamento. Muitos nem sequer poderiam sonhar em ter acesso à música se não fosse o plano da fundação que se usa da arte para gerar paz.

A rede de Batuta, que recentemente ganhou um prêmio na Espanha, criou e opera 45 orquestras sinfônicas, 380 coros infantis e 700 turmas de iniciação musical para o desenvolvimento integral e a melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes em zonas vulneráveis.

"As crianças ficam mais calmas, atingem os seus objetivos e se tornam líderes fortes. São capazes de administrar a dor que as vítimas de um conflito enfrentam de uma maneira muito mais saudável", explica à Agência Efe a presidente da Fundação, María Claudia Parias.

De acordo com ela, através da música e do processo social que representa essa integração, os alunos criam a capacidade de sanar as feridas de maneira mais fácil e se transformam em heróis dos seus próprios processos.

"As crianças que também incorporam valores dentro da nossa metodologia, mas de um modo epistemológico. Não é um professor dizendo 'você tem que ser bom'. É introduzir valores de uma forma diferente e que envolva trabalho em equipe para um resultado de excelência", diz ela.

Ángel Isaac Ángulo Montealegre é um exemplo disso. Morador de Puerto Asís, no conturbado departamento do Putumayo, ele entrou para a orquestra e ganhou a possibilidade de sonhar com um outro futuro.

Segundo a presidente do instituto, o menino conseguiu alçar voo e viajar o mundo com uma orquestra antes do que se imaginava. Com o seu talento, entrou para um projeto da Itália e foi estudar em vários conservatórios do país. Em 2015, tocou com uma orquestra juvenil na Exposição Universal em Milão.

Na volta, foi recebido como herói pela população de Puerto Assís, que o levou em um caminhão do Corpo de Bombeiros por toda a cidade até chegar ao lugar onde ele nasceu, um povoado onde ter um colchão é um luxo.

"Se o projeto não existisse ele nem sequer teria pensado na possibilidade de ser um músico", ressalta Parias.

Para ela é claro: quando a intervenção social em uma região carente acontece a partir da arte, as pessoas começam a notar as diferença e percebem que algo novo está acontecendo. Isso foi o que ocorreu em Buenaventura. A cidade abriga o principal porto da Colômbia no Oceano Pacífico, mas tem um longo histórico de violência e homicídios.

Lá a Fundação trabalha com jovens de bairros como o de Lleras, onde os alunos não podem nem mesmo levar o instrumento emprestado para casa porque correm o risco de morrer numa tentativa de roubo do objeto. Para driblar a situação, alguns estudantes decoram a partitura e treinam com o travesseiro, segundo a presidente.

Criada em 1991, por iniciativa da então primeira-dama da Colômbia Ana Milena Muñoz de Gaviria, a Fundação também atua em grandes cidades, como Bogotá. Na capital colombiana, por exemplo, cresceu Indira Moreno, que nasceu num dos mais complicados bairros do sul da cidade.

Aos 18 anos e com um sorriso doce, ela conta que começou a frequentar o projeto ainda quando criança ao ver alguns vizinhos que já participavam. Agora, mais de uma década depois, conseguiu entrar para o Conservatório da Universidade Nacional para estudar música e aperfeiçoar os conhecimentos no violino.

Um pouco tímida, ela diz que não consegue imaginar como seria a sua vida se não tivesse entrado para o Batuta. Um sonho encaminhado, como o de dezenas de milhares de crianças que talvez, algum dia, olhem dos principais palcos do mundo para os olhos do público que não imaginará que os músicos ali em cima tiveram que ensaiar em travesseiros ou que escutaram os seus primeiros sons de suas vidas vindos de fuzis assassinos.
 

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