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Filme sobre romance do último czar estreia na Rússia com segurança reforçada

26/10/2017 16h05

Ignacio Ortega.

Moscou, 26 out (EFE).- O filme "Matilda", que 100 anos depois reabriu antigas feridas na sociedade russa ao abordar o romance entre o último czar e uma famosa bailarina, estreou nesta quinta-feira em meio a fortes medidas de segurança na Rússia.

"É uma história de amor que teve grande influência no destino do nosso país", afirmou o diretor do longa, Alexei Uchitel, na exibição feita para a imprensa.

O governo federal defendeu o filme, o Ministério da Cultura autorizou a distribuição e a Polícia deteve os que ameaçaram de morte os autores por prejudicar a imagem do czar e santo, mas a tensão voltou a crescer conforme a estreia se aproximava. A partir de hoje, mais de 2 mil salas de cinema do país exibem a produção, mas todas estão equipadas com detectores de metais na porta e policiais nas imediações para prevenir ataques de críticos, que tentaram, até o último instante, a proibição do que consideram ofensivo.

"O Estado deve garantir a segurança nos cinemas. Se começarmos a ceder, eles ganharão e isso sim seria inadmissível", afirmou o diretor de "Matilda", que teve a estreia coincidindo com o centenário da Revolução Bolchevique, segundo o antigo calendário.

As autoridades manterão os agentes pelo menos até o fim de semana, quando são esperados milhares de espectadores nos cinemas para ver um dos principais assuntos dos últimos meses.

"Ainda recebemos ameaças isoladas, mas agir agora contra o filme seria suicídio, já que qualquer tentativa será reprimido pela Polícia", disse o diretor-geral distribuidora Caro-Premier, Alexei Ryazantsev.

Neste momento todo cuidado pode ser pouco. Além das ameaças de morte, o estúdio de Uchitel foi atacado, o carro do advogado dele foi incendiado e um radical invadiu um cinema em Yekaterimburgo. Os líderes da organização responsável pelos atos, Estado Cristão, estão presos, mas na pré-estreia desta semana em São Petersburgo e Moscou vários suspeitos foram detidos e grupos de religiosos organizaram alguns protestos.

"Não desejo a ninguém o que vivi nesses meses. As ameaças foram brutais", disse Uchitel.

O diretor admitiu que o roteirista pediu para usar um pseudónimo nos créditos e os principais canais públicos optaram por não exibir anúncios sobre o lançamento. Tamanho é o receio que os protagonistas, o alemão Lars Eidinger, que interpreta o czar Nicolau II, e a polonesa, Michalina Olszanska, que vive Matilda Kshesinskaya, não participaram dos eventos de lançamento.

"Temos um grande respeito por Nicolau II. Temos admiração por ele como pessoa, mas não como santo", declarou Eidinger.

Uchitel, que há meses pede que os críticos vejam o filme antes de condená-la, insiste que "Matilda" é uma obra de ficção e que ele se permitiu certas licenças poéticas, embora a maior parte do enredo se baseie em fatos reais.

É sabido que o último czar se relacionou com a bailarina do Ballet Imperial, estrela do Teatro Marinski de São Petersburgo, entre 1892 e 1894, antes de se casar. Aparentemente o romance terminou assim que o herdeiro chegou ao trono, após o falecimento do pai, Alexandre III, e se casou com Alexandra Feodorovna no final de 1894. Os dois tiveram seis filhos, entre eles a famosa Anastásia.

"O filme conta uma história de amor em situações extremas. O czar escolheu o seu destino. Escolheu entre a liberdade e o amor, e o dever familiar", explicou.

"Matilda" começa com uma cena da jovem dançando em público com um seio descoberto depois que uma das alças da sua roupa arrebenta, mas não existem cenas que possam ferir a sensibilidade do espectador.

Um dos fatos que mais indignou os defensores do mártir, assassinado em 1918, é quando o czar desmaia durante a cerimônia de coroação ao ver à amada. Uchitel é convicto que isso aconteceu.

A chefe da Casa Imperial Russa, Maria Vladimirovna, por exemplo, discorda do fato de que Nicolau II seja apresentado como um "louco por sexo", mas, na verdade, era "um homem exemplar do ponto de vista familiar".

"Não me surpreende que tanta gente sinta indignação, ainda mais quando para os ortodoxos o imperador e sua família são considerados santos", explicou à Agência Efe o porta-voz da Casa.

Apesar das inexatidões históricas, o órgão não concorda com a proibição e defendeu que o melhor remédio contra a injúria é a verdade.

Diferentemente dela, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill, recentemente criticou o filme e acusou os autores de provocar novas divisões na sociedade e ferir um grande número de russos com mentiras. Conforme anunciado, os críticos do filme vão produzir uma versão alternativa com o objetivo de denunciar todas as "mentiras" de "Matilda".
 

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