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Pablo Neruda não morreu de câncer, concluem peritos 44 anos depois

AP Photo/Laurent Rebours
O poeta Pablo Neruda em foto de 21 de outubro de 1971, quando era embaixador Imagem: AP Photo/Laurent Rebours

De Santiago

20/10/2017 21h08

O poeta chileno Pablo Neruda, falecido em 23 setembro de 1973, não morreu de câncer de próstata, apesar de ter sofrido dessa doença, determinou nesta sexta-feira (20) uma equipe internacional de especialistas e peritos reunidos em Santiago.

"A caquexia está descartada. Isso está claro", disse o juiz especial Mario Carroza, que investiga as causas do falecimento do prêmio Nobel de Literatura, após se reunir com o grupo de peritos que, no entanto, ainda desconhecem a causa específica da morte.

A equipe de especialistas informou nesta sexta-feira em entrevista coletiva que o poeta, opositor ao golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet de 11 de setembro de 1973, não morreu por causa de uma caquexia cancerosa provocada pelo câncer que sofria, como aparece em seu atestado de óbito.

O juiz Carroza apontou que as conclusões da equipe apontam para um assunto que fundamentalmente "tem relação com uma outra toxina, que por sua vez requer outros estudos que nos permitirão ter uma conclusão definitiva".

O médico forense espanhol Aurelio Luna disse aos jornalistas que o que é "categoricamente certo" é que o atestado de óbito "não reflete a realidade do falecimento".

De acordo com Luna, se tudo correr bem, dentro de um ano será possível obter uma resposta concreta e clara aos estudos de genômica bacteriana.

Desde a última terça-feira, 16 especialistas de Espanha, Estados Unidos, Dinamarca, Canadá, França e Chile compartilharam seus estudos e análises na capital chilena.

Neruda morreu em uma clínica de Santiago em 23 de setembro de 1973, poucos dias após o golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende.

Em 2011, uma investigação judicial foi aberta para esclarecer se o poeta morreu por causa do câncer de próstata ou foi envenenado por agentes da ditadura de Pinochet.

Em abril de 2013, os restos mortais de Neruda foram exumados e, em novembro desse ano, um grupo de especialistas chilenos e de outros países descartou uma morte por envenenamento.

Apesar disso, o juiz Carroza manteve aberta a investigação por considerar que os resultados não eram conclusivos e ordenou um novo exame, que foi realizado no ano passado e cujos resultados foram analisados pelo painel de especialistas.

Eduardo Contreras, advogado do Partido Comunista (PC), do qual Neruda era militante, afirmou que está comprovado que na clínica Santa María, onde faleceu o poeta, foram cometidos "crimes" após o golpe de Estado de Pinochet.

Foi nessa mesma clínica que o ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) faleceu supostamente envenenado em 1982, após ser submetido a uma cirurgia de hérnia simples.

"Na mesma clínica, no mesmo quarto, com os mesmos médicos e algumas enfermeiras, morreu Pablo Neruda", disse Contreras.

O advogado ressaltou que o poeta, membro do comitê central do PC, morreu quando se preparava para viajar ao México para realizar "trabalhos muito importantes na política", que consistia em liderar e organizar a oposição a Pinochet.
 

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