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Rússia leva ao cinema sua versão da anexação da Crimeia

11/10/2017 10h09

Arturo Escarda.

Moscou, 10 out (EFE).- A Rússia salvou a Crimeia de uma guerra civil inevitável ao desdobrar suas tropas na península e neutralizar os radicais ucranianos: esta é a mensagem do filme "Crimeia", que estreou no final de setembro e foi filmado a pedido do ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu.

Os casal de protagonistas - ela, jornalista de uma emissora de Kiev que vai à Crimeia para fazer um documentário, e ele, ex-fuzileiro naval e filho de um alto oficial da Marinha ucraniana - se conhecem e se apaixonam perto do porto de Sebastopol pouco antes da revolução de Maidan.

Meses depois, voltam a se encontrar em Kiev, no mesmo dia dos sangrentos distúrbios que em fevereiro de 2014 tiravam a vida de mais de cem pessoas e que provocaram a queda do presidente Viktor Yanukovich.

Ela está nas barricadas, preparando coquetéis molotov para lançar contra a polícia antidistúrbios enviada por Yanukovich, enquanto ele salva um desses agentes que arde em chamas e que, além disso, vem a ser da Crimeia.

Desta forma, o diretor do filme, Aleksey Pimanov - que também é presidente do potente grupo midiático do Ministério de Defesa que financiou o filme - confronta em um casal apaixonado as duas posturas antagônicas do conflito, mas sem deixar nenhuma dúvida sobre os bons e os maus.

Antes da estreia, Pimanov prometeu mostrar em seu filme detalhes até agora desconhecidos "da primavera da Crimeia", como a propaganda russa chama a anexação da península em março de 2014, quando as tropas russas obrigaram de fato os militares ucranianos a traírem seu juramento ao permitir a invasão.

Esses "novos detalhes" desmentem a versão oficial do Kremlin, segundo a qual a anexação ("reunificação" na linguagem de Moscou) foi feita "sem um único tiro".

Quando a trama volta à Crimeia para relatar a operação militar russa, Pimanov mostra as forças especiais russas se desfazendo de um grupo de seus colegas ucranianos, armados e prontos para desatar a guerra.

Em outra cena, um franco-atirador ucraniano mata um amigo do protagonista.

Dias antes, perdeu seu melhor amigo no ataque de um grupo de radicais contra um comboio de ônibus com jovens que voltavam de Kiev após participarem das manifestações para apoiar o pró-russo Yanukovich.

Este foi um episódio da vida real, mas como demonstram os vídeos daquele brutal ataque publicados na internet, não se pode afirmar que houve mortos, embora seja certo que algumas testemunhas da agressão falaram de "desaparecidos" no incidente.

"Isto é a guerra", grita o protagonista à sua amiga no meio de uma deserta Sebastopol, e nesse momento o silêncio é rompido pelo rugir de uma fileira de tanques de guerra e o ruído dos helicópteros russos.

É a cena principal do filme, porque cristaliza a mensagem de que a Rússia não teve escolha senão intervir e anexar a Crimeia para evitar o derramamento de sangue.

"Todo mundo (que ver o filme) entenderá por que era necessário tomar a decisão e defender as pessoas na Crimeia que estavam condenadas a uma guerra civil", disse Pimanov antes da estreia.

Muitos habitantes da península mostraram sua indignação com o filme em fóruns de internet e em declarações à imprensa local, porque os 90 minutos de filme mostram paradoxalmente que a Crimeia foi invadida, enquanto seus cidadãos aparecem como meros espectadores.

"O filme está longe da realidade. Não mostra os comícios pela Rússia, mas mostra radicais e militares ucranianos atuando na Crimeia, o que é pura invenção do autor", disse ao jornal "Novaya Gazeta" Konstantin Ermanov, um dos líderes das forças pró-russas na península durante a anexação.

Pimanov teve um orçamento de US$ 7 milhões para fazer "Crimeia", e do ponto de vista técnico, se saiu bem.

As cenas dos distúrbios em Kiev, do ataque aos ônibus, e da chegada dos militares russos são dignas de um bom filme de ação, e definitivamente, os autores conseguiram entregar um produto interessante.

Mas o argumento sofre muitas incongruências, enquanto a narrativa, que afirma ser um reflexo fiel de eventos que já são história, dá saltos de um fato a outro sem oferecer qualquer contexto.

E assim, o espectador que não tenha sido bombardeado durante meses pelos noticiários russos terá dificuldades para unir as peças do quebra-cabeças sem procurar na Wikipedia.

A Rússia anexou a Crimeia em março de 2014, após meses de revoltas na Ucrânia que levaram à mudança de poder em Kiev e após um referendo considerado ilegal pela comunidade internacional.
 

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