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Manifestações políticas dão as caras no último dia do Cine Ceará

12/08/2017 05h03

Victor Machado.

Fortaleza, 12 ago (EFE).- Ao contrário dos dias anteriores, com ânimos bem mais contidos, a cerimônia de encerramento da 27ª edição do Cine Ceará contou com manifestações políticas de cineastas premiados e também do público presente no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, na noite de sexta-feira.

Minutos antes do início do evento, uma voz na plateia ecoou o grito de "fora, Temer", gesto que foi aplaudido e repetido por muitos. Começa a premiação, e com ela surgem outros protestos, alguns discretos, outros mais enfáticos, como o discurso de Julia Morim, vencedora do Prêmio Olhar Universitário com o curta "Simbiose".

"Passamos por um momento difícil, fomos golpeados e acho que precisamos usar todo o espaço que temos para nos posicionar", disse ao microfone a realizadora, que subiu ao palco com duas tatuagens temporárias nos ombros com as inscrições "Fora, Temer", expressão que também repetiu ao público.

Antropóloga de formação e vivendo sua primeira incursão no audiovisual no festival cearense, Morim confessou ter achado o tom político abaixo do esperado desde que chegou ao evento, na quarta-feira.

"Eu esperava mais. São espaços como esse, que têm visibilidade, que precisamos usar para demarcar nossa posição política. Achei tudo muito acomodado", comentou momentos antes da premiação à Agência Efe.

A percepção sobre o baixo número de manifestações também foi compartilhada pelo cineasta e diretor executivo do Cine Ceará, Wolney Oliveira, que afirmou ter presenciado mais protestos na edição de 2016.

"No ano passado teve bem mais, estava mais quente, até porque tinha acabado de acontecer (o impeachment de Dilma Rousseff). Neste ano houve algumas manifestações no palco, mas estamos em uma sociedade meio anestesiada. O palco é livre, quem quiser protestar, protesta. Mas, em relação ao ano passado, foi bem menor", relatou.

Uma das manifestações de destaque da noite foi a do argentino Guillermo Pfening, que aderiu ao protesto ao agradecer pelo prêmio de melhor ator por "Ninguém Está Olhando", dirigido por Julia Solomonoff, o grande vencedor da noite. "Amor ao cinema, amor à cultura, e fora, Temer", disse o ator ao receber o prêmio.

Se a questão política só chegou quase ao final do Cine Ceará, o oposto ocorreu no primeiro semestre com outro festival de cinema do Nordeste, que passou por uma turbulência antes mesmo de ser iniciado.

A 21ª edição do Cine-PE precisou ser adiada por conta da retirada de sete filmes cujos cineastas decidiram causar um boicote devido à participação de obras que, segundo uma carta divulgada pelos realizadores, favoreciam "um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito no Brasil".

No caso, os filmes aos quais a carta se referia eram "O jardim das aflições", documentário de Josias Teófilo sobre o filósofo Olavo de Carvalho, e "Real - O plano por trás da História", de Rodrigo Bittencourt, uma ficção que aborda a criação do Plano Real.

"Acho que eu retiraria um filme meu. Vale a pena porque está em jogo toda a nossa vida, o nosso futuro, e a sociedade está acomodada. Precisamos de momentos como esse para trazer reflexão e debate", declarou Julia Morim ao ser questionada sobre os acontecimentos no festival pernambucano.

Na opinião de Wolney Oliveira, independentemente da motivação, os cineastas devem ter total liberdade para fazer o que bem entenderem com os próprios filmes nos festivais.

"Não conheço os bastidores da história, mas o fato de colocar um filme em um festival e tirar é um direito seu. Parece que houve uma conotação política, mas qualquer cineasta que inscreve um filme pode retirá-lo, é um direito dele. Eu mesmo já tirei um filme de festival porque estava sendo combinada uma coisa e ofereceram outra", contou.

Discurso similar tem o ator cubano Jorge Martínez, de "Últimos Dias em Havana", dirigido por Fernando Pérez, filme que ganhou no Cine Ceará os troféus de melhor direção e fotografia, além do Prêmio Olhar Universitário de melhor longa-metragem.

"Cada um é dono do próprio destino. Isto é liberdade de expressão. As pessoas precisam entender que temos todo o direito de entrar e sair. É isso que dá autenticidade ao festival. Se você vai a um festival, acho que é para falar, exigir, denunciar, acho que a arte é para isso também. Isso é o que enriquece a arte", opinou.

A união entre os cineastas em prol de uma mesma visão é importante na opinião do também cubano Carlos Lechuga, diretor de "Santa e Andrés", filme que foi proibido no Festival de Havana por questões políticas e que levou dois prêmios no Cine Ceará: melhor roteiro, para o próprio diretor, e atriz, para Lola Amores.

"Eu recebi o apoio de cineastas cubanos durante vários meses de reuniões, na luta para que o filme fosse exibido em Cuba. Seria ruim se eu estivesse sozinho com a minha produtora. É bom que os cineastas se posicionem e tomem partido", considerou o cineasta.

O Cine Ceará foi encerrado na noite de sexta-feira com a cerimônia de premiação e a exibição do documentário chileno "O Botão de Pérola", de Patricio Guzmán. O evento contou com a presença do embaixador do Chile, Jaime Gazmuri Mujica, que prestigiou a homenagem ao cinema do país na edição deste ano do festival.

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