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"EUA têm um partido filiado a idiotices", diz Al Gore sobre mudança climática

29/07/2017 14h17

Antonio Martín Guirado.

Los Angeles (EUA), 29 jul (EFE).- Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ativista da luta contra a mudança climática, disse em uma entrevista à Agência Efe que é "estranho os EUA serem o único país do mundo com um partido conservador filiado a idiotices" nesse assunto.

"No meu estado natal, Tennessee, há um ditado: se você vê uma tartaruga em cima de um poste, deve saber que ela não chegou ali por si mesma. O fato de haver tanta gente que não acredita na mudança climática não acontece por acaso", afirmou Gore, que estreia neste fim de semana o documentário "An Inconvenient Sequel: Truth to Power".

Trata-se da sequência de "An Inconvenient Truth", vencedor do Oscar de melhor documentário em 2006.

Para o político, os maiores poluidores de carbono do mundo adotaram a mesma estratégia das tabacarias, que minimizaram as recomendações médicas sobre os riscos do cigarro para a saúde.

"As tabacarias contrataram atores se fazendo passar por médicos e os colocaram em anúncios para tranquilizar as pessoas e rebater os cientistas enquanto milhões de pessoas morrem de câncer a cada ano. Agora, os poluidores contrataram as mesmas empresas de relações públicas", indicou Gore.

"É algo completamente imoral e antiético, mas que consegue o seu objetivo. Há muita gente vulnerável nesse cínico negócio, gente afetada pela globalização que se sente abandonada, especialmente aqueles com salários baixos. Muito não acreditam nos especialistas. Isso os torna prontos para a manipulação dos demagogos. E Donald Trump é um deles", declarou o vice-presidente do democrata Bill Clinton entre 1993 e 2001.

De fato, "An Inconveniente Sequel" narra, através dos olhos de Gore, algumas das consequências da polêmica decisão do presidente dos EUA, o republicano Donald Trump, de retirar ao país do Acordo de Paris contra a mudança climática.

"Estava convencido, durante as conversas que tive com ele após as eleições e após chegar à Casa Branca, que talvez não o fizesse, mas estava errado", reconheceu Gore.

"Preocupava-me que outros países usassem essa decisão como pretexto para sair do Acordo, mas por sorte o que fizeram foi redobrar seu compromisso. Nos EUA, os governadores, prefeitos e líderes empresariais deram um passo adiante e afirmaram que estão com (o Acordo de) Paris e que cumprirão com as suas obrigações", manifestou.

Os diretores do documentário, Bonni Cohen e Jon Shenk, decidiram desde o primeiro momento que esperariam o novo presidente do país ser definido e quais seriam suas políticas ambientais para incluir tudo isso na história.

"Foi uma surpresa previsível. Mas para cada ação existe uma reação similar e oposta, como a realizada recentemente pelo governador da Califórnia", disse Gore em alusão à assinatura da lei AB398, que fortalece e estende o programa "Cap-and-Trade" por mais dez anos para garantir que a Califórnia cumpra suas metas de redução de emissões de gases poluentes até 2030.

"An Inconvenient Truth" abriu os olhos e advertiu as consciências para milhões de espectadores. Agora, esta continuação pretende explicar as grandes mudanças que aconteceram na Terra durante a última década.

"A crise climática é ainda pior. Os fatos extremos são cada vez mais frequentes e destrutivos, como a seca e os incêndios na Espanha, e inclusive as inundações que houve em regiões do país. Mas temos as soluções em nossas mãos", ressaltou o politico.

"A energia solar e eólica estão cada vez mais baratas que a dos combustíveis fósseis. Quero levar uma mensagem de esperança e também lembrar às pessoas que devemos fazer mais para resolver esta crise", acrescentou.

O sonho de Gore é que a cidade de Georgetown (Texas), uma área republicana do país que, motivada por razões econômicas, funciona 100% com energias renováveis, seja um exemplo.

"Por que Trump não presta atenção nisso? O escritor Upton Sinclair dizia: 'É difícil para um homem entender algo se o seu salário depende de não entendê-lo'. Ele recebeu muitas contribuições de grandes empresas poluidoras e lobistas, então não está interessado", finalizou.