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Criaturas mitológicas do Antigo Peru emergem em templo milenar de Lima

19/06/2017 09h52

Fernando Gimeno.

Lima, 19 jun (EFE).- Ferozes e temíveis rostos de serpentes e felinos multicoloridos, entre novas representações de quiméricas criaturas mitológicas do Antigo Peru, começaram a emergir nos muros de um templo que é escavado em pleno coração de Lima, após permanecer enterrado durante séculos.

As figuras, esculpidas em profundos relevos de barro há cerca de 3.500 anos, são pela sua antiguidade uma extraordinária amostra artística das primeiras civilizações da América do Sul, já que não há evidências similares em outras culturas da mesma época, contou à Agência Efe o arqueólogo Héctor Walde, chefe das escavações.

Para encontrar esculturas coloridas de tipo similar deve-se viajar cerca de 800 quilômetros ao norte de Lima, até a huaca (santuário) de El Brujo e a huaca de La Luna, construídas muito após Garagay pela civilização moche, e ainda séculos antes de os incas submeterem esse povo para dominar grande parte da América do Sul.

Os relevos compõem um conjunto de frisos de tonalidades intensas que enfeitavam as paredes do átrio da huaca Garagay, um dos maiores templos pré-hispânicos da capital peruana, em forma de pirâmide escalonada de 30 metros de altura, e situado em uma área de 22 hectares, perto do centro colonial de Lima.

Ali, a equipe de Walde descobriu nas últimas semanas as representações de duas enigmáticas figuras, um felino com uma pelagem mosqueada e outra composta pelos dois lados de um imponente rosto com grandes presas, separados por uma fileira vertical de dentes.

As esculturas são provavelmente as representações dos animais nos quais acreditavam se transformar as pessoas que ali entravam em transe, ao tomar substâncias alucinógenas durante a realização de rituais e cerimônias.

"É muito comum até hoje que os participantes vejam seu interlocutor transformado em um jaguar ou uma águia", detalhou Walde.

As figuras foram pintadas em vermelho, azul e amarelo, mas nem sempre tiveram essa aparência, pois apresentam várias capas de pintura, o que denota que foram conservadas com cuidado durante muito tempo e pintadas em diversas ocasiões, segundo Walde.

A sua iconografia lembra as cabeças do templo de Chavín de Huántar, a máxima expressão da civilização chavín, que se expandiu pelos Andes ao mesmo tempo que Garagay entrou em decadência, o que dá a entender que esse povo andino absorveu a arte do litoral e a representou à sua maneira em pedra talhada, segundo o arqueólogo.

O rosto e o felino apareceram em uma posição simétrica a outra série de relevos com as mesmas características descobertos há cerca de 40 anos na parede oposta ao átrio, mas que foram destruídos anos depois pela população.

Entre as figuras já inexistentes estava o símbolo mais representativo de Garagay, um medalhão com o perfil de uma face com grandes dentes e um tentáculo, e outro de um crustáceo, chamado de a lagosta por causa de suas numerosas patas.

Ainda que as novas escavações contem com vigilantes, pelos arredores da pirâmide transitam a todo momento os moradores que vivem perto do templo, cujas casas são produto de uma invasão de 30 anos atrás.

Walde admitiu que o principal desafio para conservar as novas descobertas é conseguir que a população respeite o monumento e o possa usar para fins educacionais, culturais, recreativos e turísticos.

O gerente da Municipalidade Metropolitana de Lima (MML) para a recuperação do seu centro histórico, Luis Martín Bogdanovich, disse à Efe que "não se trata só da recuperação de uma memória e de um patrimônio, mas do sentimento de pertinência nas pessoas a esses achados".

Por enquanto, Garagay não receberá visitas turísticas até que se garanta a preservação dos relevos, incluindo a instalação de um telhado sobre o átrio, onde o objetivo é descobrir a maior parte das suas três paredes de 25 metros até o final de 2018, segundo Bogdanovich.

Durante esse período é provável que apareçam em Garagay novos seres cujas formas monstruosas e aterrorizantes ajudem a recuperar o imaginário e a cultura dos habitantes ancestrais do Antigo Peru.
 

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