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Asghar Farhadi: "A origem da violência é o sentimento de humilhação"

27/02/2017 15h20

Magdalena Tsanis.

Madri, 27 fev (EFE).- Com nítida ausência na festa do Oscar, onde ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro, o diretor iraniano Asghar Farhadi ecoou novamente os dilemas que apresenta em "O Apartamento", uma reflexão sobre a violência e a dificuldade de entender o outro.

A escolha e o acerto de Farhadi ao colocar "O Apartamento" como um jogo de espelhos entre realidade e ficção fica mais evidente ainda depois de sua decisão de não comparecer à cerimônia de ontem, em protesto à decisão de Donald Trump de suspender os vistos aos cidadãos de sete países de maioria muçulmana, entre eles o Irã.

"A origem de toda violência é o sentimento de humilhação", advertiu o diretor à Agência Efe, durante recente visita a Madri para estudar seu próximo projeto, que ele rodará este ano na Espanha e terá Penélope Cruz e Javier Bardem como protagonistas.

"O Apartamento", a história de um homem com um inesperado desejo de vingança, deu a Farhadi seu segundo Oscar. Em 2012, ele venceu na categoria com "A Separação", a primeira produção iraniana a conseguir uma estatueta na história dos prêmios. Os dois filmes têm em comum o fato de tudo acontecer no âmbito doméstico, mas a sutileza e profundidade narrativa do diretor, de 44 anos, convidam a leituras universais.

"Acho que os filmes políticos são muito mais fracos do que os que tratam de pessoas. Elas oferecem uma visão mais profunda da sociedade, o que permite acessar também uma dimensão política mais interessante", defendeu.

Todos os filmes de Farhadi falam da dificuldade que os seres humanos têm para se entender e os conflitos que isso pode acarretar. Todos abrigam um apelo à compaixão e ao entendimento.

Em "O Apartamento" esse conflito se produz por causa de um assalto violento que Rana sofre quando está sozinha em casa. Seu marido, um homem gentil e responsável, tenta enfrentar a situação com racionalidade, mas nasce nele um inesperado desejo de vingança.

Construído com elementos de suspense, o roteiro usa dos paralelismos entre o que acontece com o casal protagonista na vida fora dos palcos e dentro do teatro, onde eles encenam a obra de Arthur Miller "A morte de um caixeiro-viajante".

"A obra de Miller funciona como um espelho dentro da história ou como uma caixa de ressonância", esclarece o diretor.

A humilhação também é um elo entre a o texto de Miller e a história de Farhadi. A humilhação como a base do que ocorre e do destino do casal.

Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, "O Apartamento" é o retorno do cineasta a seu país - depois de ter rodado na França -, o que o obrigou a voltar a lidar com a censura.

"A censura é parte do processo criativo em muitos países", adverte, ao ser perguntado sobre o tema.

Para ele, a censura tem efeito duplo. Por um lado, as restrições convidam a desenvolver "uma linguagem nova, uma criatividade na expressão que, em si, pode ser interessante". Por outro, existem temas praticamente impossíveis de ser tratados.

"Quando tenho ideias que sei que seria tão difícil desenvolver no Irã que no final não ficaria nada do filme, guardo para um futuro com menos censura ou para outros países. No Irã, procuro temas em que possa trabalhar e é interessante explorar a criatividade, apesar das restrições", defende.

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