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Sebastião Salgado: Trump pode provocar desequilíbrio ainda maior no planeta

Fernando Frazão/Agência Brasil
O fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, fundador do Instituto Terra Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Alicia García de Francisco

18/11/2016 19h47

 Após mais de 40 anos denunciando as desigualdades sociais com suas fotografias espetaculares, o brasileiro Sebastião Salgado acredita que a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos pode provocar "um desequilíbrio ainda maior no planeta".

"É impossível prever, (Trump) é um homem com algumas propostas muito radicais e espero que não seja capaz de executá-las", disse o fotógrafo em entrevista telefônica para a agência EFE de seu escritório em Paris.

Apesar disso, Sebastião Salgado se diz otimista, pois considera que "o planeta não depende somente da decisão de um único homem" e manifestou sua esperança de que será Trump que se adaptará ao mundo, e não o contrário, "porque há limites para o razoável em todas as partes".

"Espero que todas essas propostas más, cheias de violência, não encontrem eco no cenário internacional", disse o fotógrafo premiado, que, no fundo, se recusa a ser um pessimista e destacou que as expectativas no mundo político são difíceis de serem cumpridas.

Nesse sentido, lembrou que também esperava "que (o presidente dos Estados Unidos, Barack) Obama fizesse uma revolução no mundo e ele sequer interrompeu as guerras". A situação no Oriente Médio continua sendo um desastre e ele afirma que não pôde apoiar as negociações com o Irã porque "a maquinaria americana não permitiu", acrescentou.

"É preciso esperar para ver" o quê vai acontecer com Trump, insistiu o fotógrafo, que, no entanto, mostra através de seu trabalho, ano após ano, como o mundo parece retroceder em muitos sentidos.

Sebastião Salgado
Foto do ensaio "Êxodos", do mineiro Sebastião Salgado Imagem: Sebastião Salgado

Há 16 anos, o fotógrafo publicou um de seus volumes mais conhecidos, "Êxodos", que mostra a árdua realidade dos exilados, imigrantes e refugiados em todas as partes do mundo.

"Tudo está igual na África e na Europa. Os desequilíbrios são os mesmos na América Latina. A introdução que escrevi então, há 16 anos, não precisou ser mudada", disse Sebastião Salgado.

O brasileiro sequer fez novas fotos para o livro, que possui um dramatismo brutal, mas no qual a sensibilidade do olhar de Sebastião Salgado evidencia dignidade na pobreza, e o desespero de marroquinos clandestinos que tentam chegar à Europa em uma balsa, uma realidade que continua sendo vista no Mar Mediterrâneo.

Imagens feitas entre 1994 e 1999 que refletem a crise de fome dos deslocados afegãos; a agonia dos curdos; o drama dos refugiados da antiga Iugoslávia; os crianças-soldado do sul do Sudão; os desastres humanitários de Ruanda e do antigo Zaire (atual República Democrática do Congo) e a destruição de uma forma de vida milenar, a dos indígenas da Amazônia.

Rostos de crianças sorrindo no meio da miséria, seres humanos que dormem amontoados expostos às intempéries, gestos de dor, ou simplesmente de desespero, a câmera de Sebastião Salgado espera pacientemente para capturar a imagem mais clara que mostra o que o fotógrafo tem em mente.

"Na Europa, no Ocidente, vivemos em uma sociedade muito protegida. Isso não acontece na América Latina, no Sudeste Asiático, na África. É preciso mostrar essa forma de vida, que é a de onde eu venho. Tenho que ensiná-la, venho desse mundo, de um país como o Brasil, onde há pouco tempo houve um golpe de Estado", refletiu Sebastião Salgado, em alusão ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.

O brasileiro se considera um "fotógrafo ligado a um momento histórico". "Minhas fotografias são um espelho do que acontece. Meu objetivo é denunciar o que vejo e há muitas coisas que merecem atenção. Além disso, se eu não o faço, meus colegas fotógrafos se encarregam de fazê-lo".

Divulgação
Cena de "O Sal da Terra", documentário Salgado indicado ao Oscar 2015 Imagem: Divulgação

"Minha fotografia é minha maneira de viver, minha ideologia", resumiu Sebastião Salgado, que nasceu na cidade de Aimorés, em Minas Gerais, no ano de 1944.

Uma forma de viver que o leva a perseguir incansavelmente os projetos que passam por sua cabeça. Como outro livro recém-publicado, que traz 83 imagens feitas depois que as tropas de Saddam Hussein incendiaram por volta de 700 poços de petróleo do Kuwait em resposta à invasão dos Estados Unidos.

Trabalhadores e bombeiros cobertos de óleo, enquanto lutam até a exaustão contra as chamas, e para controlar os vazamentos, em imagens das quais Sebastião Salgado sente orgulho especial.

"Chegamos a dizer que o fim do mundo estava perto", escreveu o fotógrafo no prólogo de um livro que completou 25 anos, mas mostra uma situação "que pode voltar a ocorrer a qualquer momento e em muitas outras partes do mundo, como na Arábia Saudita, por exemplo".

O experiente fotógrafo brasileiro, que já recebeu prêmios como o Erich-Salomon, o Hasselblad, o Grande Prêmio Nacional da Fotografia da França e o Príncipe das Astúrias das Artes (Espanha), segue incansável a seus 72 anos, agora imerso em um enorme projeto sobre as comunidades indígenas da Amazônia, no qual vem trabalhando por mais de três anos, e que levará mais três ou quatro anos para finalizar.

Sebastião Salgado
Imagem da Geórgia do Sul, da série "Gênesis", de 2009 Imagem: Sebastião Salgado

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