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"Nós, artistas, não somos máquinas", afirma diretor argentino Rodrigo García

09/09/2016 16h25

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Fabio Manzano.

Santos (Brasil), 9 set (EFE).- O teatro rebelde do argentino Rodrigo García inaugurou o MIRADA - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos com a obra "4", uma peça que no último ano evoluiu através das mãos do próprio diretor.

"Nós, artistas, não somos máquinas", destacou à Agência Efe ele, que está no Brasil para a apresentação de "4", título que faz referência ao número de atores em cena.

O espetáculo, segundo ele, mudou desde 2015, quando foi estreado pela primeira vez na França, e feito com base "nos conceitos" que lhe interessavam.

"Quando começamos com esta criação, trabalhei com conceitos que me interessavam à época, como arquitetura e espaços abandonados, mas tudo isto é um processo, mudamos muito desde o começo", explicou.

Sem uma linha de narração convencional - aspecto que marca sua obra -, o autor provoca diversos estímulos sensoriais com variações vocais, imagens, discursos e músicas nos quais não pretende que o espectador encontre um significado, mas sim sinta. Os recursos vão de filmes com estilo de clip a tomadas ao vivo do cenário gravadas pelos próprios artistas e que mostram detalhes do que ocorre no palco, como quando um dos atores joga o tênis contra a projeção do quadro "L'Origine du monde", do pintor Gustave Courbet.

"O uso de filmes é normal para mim, porque desde criança vejo filmes. Apesar de ter nascido em uma família muito pobre na Argentina, ia muito aos cinemas baratos para ver filmes que me influenciaram, como os da Cinemateca Hebraica e do Cinema San Martín", apontou o diretor.

Apesar das mudanças introduzidas na peça, García mantém sua crítica à chamada "sociedade da opulência", embora agora esta postura contra o consumismo, a sociedade do espetáculo e o capitalismo estejam menos explícitas do que em suas obras anteriores.

"Nunca me perdi de vista. Sempre vivi em bairros muito marginais da Argentina, em zonas muito duras que marcaram este contraste que eu vivi ao ir para à Espanha, dessa sociedade em crise para ir à Europa, onde encontro com uma realidade completamente diferente", disse o diretor.

A partir de uma "provocação", García põe em cena animais e crianças para discutir o tratamento que é dado à fauna no teatro, no circo e no cinema e o que recebem alguns pequenos que participam do "show business" e são forçados a crescer de maneira precoce.

Nas apresentações no Brasil, as crianças foram escolhidas entre várias do país depois de passarem por uma prova em vídeo e outra presencial nas quais tiveram que falar um "japonês inventado", língua que usam para conversar com um triste samurai, que representa sua infância miserável.

Em dado momento, o público é convidado a subir ao palco e um dos espectadores pegou o microfone e gritou: "Fora Temer". A intervenção espontânea foi aplaudida durante alguns minutos pelos mais de mil pessoas que assistiam ao espetáculo e que já tinham reagido positivamente quando o organizador do festival se pronunciou a favor da democracia.

A estreia de '4' marcou a abertura do Festival, que reúne 43 peças de países ibero-americanos e que nesta edição tem a Espanha como homenageada. O evento acontece até o próximo dia 18 e é organizado pelo Sesc Santos.

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