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Música intensifica tensão entre governo e religiosos no Irã

31/08/2016 06h00

Artemis Razmipour e Álvaro Mellizo.

Teerã, 31 ago (EFE).- A música costuma acalmar os ânimos, mas isso aparentemente não acontece no Irã, onde a realização ou não de shows na cidade sagrada de Mashhad intensificou as tensões entre o governo do moderado Hassan Rohani e o clero mais conservador do país.

Rohani, ele mesmo um clérigo xiita imerso em um delicado caminho de liberalização das rígidas normas sociais da República Islâmica, que inclui uma maior abertura às artes e à música, enfrentou duramente esta semana um dos aiatolás de maior renome no país.

O presidente iraniano e Ahmad Alamolhoda, responsável pelo sermão de sexta-feira em Mashhad e representante direto do líder supremo Ali Khamenei nessa cidade, trocaram farpas por conta da "permissividade" presidencial com relação à música.

Da mesquita central de Mashhad, centro religioso e espiritual para os xiitas e que abriga o santuário do venerado Imam Reza, Alamolhoda afirmou na semana passada que sua cidade não era lugar para a "orgia" nem para escutar música ao vivo e proibiu sua prática, inclusive acima das decisões tomadas por "funcionários de mente estreita".

A proibição e as palavras do clérigo desafiaram as próprias leis da República Islâmica, o que não foi bem recebido por Rohani, que, diferentemente do habitual, respondeu ao religioso indicando que o Irã tem um parlamento onde as leis são determinadas.

Rohani lembrou que o ministro da Cultura, Ali Jannati, é o único que pode dar permissões para a realização ou não de apresentações de música, e lhe pediu que cumprisse a lei e não seguisse as ordens dos demais.

O próprio Jannati entrou na polêmica e explicou à imprensa local que Mashhad não recebe um show de música há 11 anos devido exatamente ao fato de "o clero da reza da sexta-feira dessa cidade nem sequer permitir que haja música tradicional ou local".

O ministro disse estar esperançoso que possam acontecer apresentações na cidade a partir de agora "com a colaboração do Poder Judiciário", já que o objetivo da música é "proporcionar alegria e uma certa paixão" na comunidade.

Alamolhoda, por sua vez, não ficou atrás e advertiu ao governo que a "luxúria" é incompatível com "o sangue dos mártires", e considerou um fracasso as políticas culturais do governo por prestar tanta atenção "à minoria secular".

Assim como Alamolhoda uma multidão se reuniu na mesquita para se mostrar contrária ao governo, e criticaram Rohani e vários deputados considerados liberais demais.

Outros religiosos responsáveis pela reza da sexta-feira em diferentes cidades como Shiraz, Siryan, Orumiyeh ou Ramsar, entre outros, também se uniram à polêmica e pediram a limitação ou a proibição de shows em seus territórios.

No calor do debate, vários grupos religiosos têm tentado impedir a realização de apresentações em vários lugares do país, e normalmente com sucesso.

Há alguns meses, na cidade de Yazd, o cantor e compositor iraniano Mazyar Fallahi, que tem mais de 500 mil seguidores no Instagram, por exemplo, suspendeu uma apresentação devido à presença de um grupo de motoristas com "aspecto intimidador" que lhe esperavam no aeroporto.

Recentemente, a imprensa local informou que o músico Vahid Taj, com 16 mil seguidores, não pôde se apresentar na mesma cidade, enquanto seus músicos já estavam no palco, devido a proibições das autoridades religiosas.

Após o triunfo da Revolução Islâmica, em 1979, foram estabelecidas no Irã várias normas de inspiração religiosa que foram muito duras com as artes. A partir de então a música, principalmente a contemporânea, viveu um período complicado no qual muitos músicos e cantores tiveram que se exilar para poder continuar com suas carreiras.

Desde que Rohani assumiu, em 2013, a música vem sendo paulatinamente autorizada pelo governo do presidente, que ganhou as eleições exatamente com a promessa de proporcionar maiores liberdades públicas aos cidadãos.

No entanto, ainda é muito comum que shows e peças de teatro sejam censurados ou diretamente proibidos por organismos que funcionam de forma independente do governo, como grupos religiosos e milícias islâmicas, cuja missão declarada é manter a "essência" da Revolução Islâmica.

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