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Muros de São Paulo abrem espaço para arte, protestos e poesia

28/02/2016 06h16

Alba Santandreu.

São Paulo, 28 fev (EFE).- Cercada por imponentes edifícios de concreto e vidro, a Avenida Paulista é a coluna vertebral de São Paulo, cujas acinzentadas paredes deixam espaço para a arte de rua, as reivindicações e até a poesia.

O ritmo frenético e às vezes claustrofóbico de São Paulo, a imensa cidade de 20 milhões de habitantes, é sentido com ainda mais intensidade em sua principal avenida, de apenas três quilômetros, repleta de semáforos e carros e onde convivem homens de negócios e sem-teto.

Os músicos de rua fazem a trilha sonora de milhares de cidadãos que atravessam a avenida com passo firme e cabeça baixa. São pessoas que poucas vezes param, mas de quem às vezes a arte consegue roubar alguns minutos de tranquilidade de suas vidas agitadas.

Vários tapumes revestem há mais de um ano um edifício em obras repleto de andaimes e operários. Ali foi criada uma antologia improvisada de poetas anônimos e um espaço perecível de reivindicações que narram o momento político que o Brasil vive.

"Não vai ter golpe. Fora Cunha", clama um cartaz. A hashtag, repetida uma dezena de vezes, critica o processo de "impeachment" que ameaça a presidente Dilma Rousseff e que os movimentos de esquerda qualificaram várias vezes de "golpe".

Pede também a saída de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, um inimigo político de Dilma, que na condição de chefe do Legislativo aceitou no fim do ano passado iniciar os trâmites de um possível julgamento com fins de cassação do mandato da presidente.

"Contra a reorganização. Nenhuma escola fechada. Pela qualidade do ensino. Fora Alckmin", lê-se em outro cartaz.

É a crítica ao governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, que há alguns meses se viu obrigado a voltar atrás no projeto de reorganização escolar após meses de protestos dos estudantes pela redução de escolas.

Entre os cartazes impressos sobre política há pequenas folhas com poesias escritas à mão e frases dedicadas ao amor e à liberdade, que prendem a atenção dos pedestres.

"Cuide dos seus achados. Esqueça dos seus perdidos"; "O mundo sóbrio. Ela, de ressaca"; "Suas estrias são a poesia de quem sabe ler" são alguns dos poemas estampados nos muros da Paulista.

Apesar da aglomeração de palavras, há um espaço reservado para Pelé. O rei do futebol aparece de costas, com o eterno número 10 na camisa, dando um carinhoso beijo em alguma estrela, assim como fez em 1971 no pugilista Muhammad Ali.

Há algumas semanas, Pelé, em um grafite em preto e branco, abraça David Bowie, com seu cabelo tingido e seu rosto atravessado por um raio vermelho e azul, o mesmo que o cantor ostentou na capa do álbum "Aladdin Sane".

Mas pelos braços do melhor atleta do século XX também passaram a impávida Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o excêntrico Salvador Dalí, um sorridente Bob Marley e a exuberante Marilyn Monroe, imagens muito fotografadas e publicadas nas redes sociais.

"A ideia surgiu em 2009, quando uma amiga me mostrou uma foto de Pelé abraçando Muhammad Ali. Quis reconstruir essa imagem com uma técnica de papel e usá-la como uma base para que Pelé beijasse personagens variados, que tivessem algum significado", contou Luis Bueno, autor das imagens, à Agência Efe.

A imagem de Pelé dobra uma esquina da Avenida Paulista e se esconde dos olhos de um colossal Oscar Niemeyer.

Em um grafite gigante de cores vivas, o rosto de Niemeyer observa inerte a vida cotidiana de São Paulo, cidade que impressionou Caetano Veloso com a "dura poesia concreta de tuas esquinas" já em 1978, ano de lançamento do clássico "Sampa".

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