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Boicote a atores kirchneristas aprofunda polarização na cultura argentina

22/01/2016 06h17

Aldana Vales.

Buenos Aires, 22 jan (EFE).- A campanha de boicote a uma novela protagonizada por dois atores que apoiaram o kirchnerismo mostra uma nova faceta da polarização política e social na Argentina, que chega inclusive a dividir o mundo da cultura e do espetáculo.

Com a "união de todos os argentinos" como meta durante sua campanha, o próprio presidente, Mauricio Macri, teve que se manifestar contra o boicote.

"Sorte a Pablo Echarri e à equipe de #LaLeona em sua estreia. Não acredito em boicotes a nenhuma expressão cultural. Unamos a Argentina", escreveu o presidente nesta semana em sua conta no Twitter.

Protagonizada por Pablo Echarri e Nancy Dupláa, um casal de atores ligado ao kirchnerismo, "La Leona" ("A leoa") é uma telenovela que estreou nesta semana no canal "Telefe", uma história de amor que tem como pano de fundo um conflito sindical.

Após a mudança da tendência política do governo na Argentina, a estreia enfrentou um "boicote", um "castigo" convocado através das redes sociais por setores anti-kirchneristas que vinculam Echarri e Dupláa com os governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015).

Andrea Pietra, uma das atrizes que acompanham Echarri e Dupláa na nova novela, considerou que o boicote "é como voltar no tempo à época das listas negras".

"Todos estamos trabalhando, fazendo uma ficção e vivemos em uma democracia", disse a atriz ao jornal argentino "La Nación".

A iniciativa é "de covardes e de imbecis", completou o ator argentino Enrique Pinti, uma das figuras mais reconhecidas da esfera artística local.

"A produtora responsável pela novela é de Pablo Echarri, que é de linha kirchnerista, e de Martín Seefeld, que é macrista, e eles são amigos", ressaltou o ator.

Um dos roteiristas da telenovela também pediu para que o público "não seja preconceituoso", ao salientar que "La Leona" é "uma ficção política, não partidária".

"Se os que têm preconceito porque Pablo e Nancy são pessoas públicas militantes e apoiaram o governo que saiu não assistirem à novela, vão perder uma história muito bonita", comentou o roteirista Pablo Lago.

Essa campanha de boicote é apenas mais uma amostra da polarização que caracterizou a Argentina nos últimos anos, deixando o país dividido entre kirchneristas e anti-kirchneristas em todos os âmbitos: famílias, escritórios, jornalismo, centrais sindicais, universidades e esporte, entre outros setores.

No mundo cultural argentino, a divisão não é mais que uma expressão dos consumidores de telenovelas ou filmes.

Esta fratura foi decisiva durante os últimos anos da gestão kirchnerista, na própria produção cultural, com atores que, por um lado, manifestaram publicamente seu apoio a Cristina e a Néstor, e com personalidades que, pelo outro, os questionaram com dureza.

Os mais críticos lamentavam precisamente o "caráter discricionário" da gestão de Cristina em relação ao mundo da cultura, denunciando que as delegações enviadas a eventos internacionais estavam integradas por intelectuais e artistas ligados ao kirchnerismo e os subsídios na produção audiovisual eram recebidos principalmente pelos mais próximos da presidente.

A divulgação, há pouco mais de um mês, da lista de produtoras, atores e diretores que receberam recursos do antigo Ministério do Planejamento do kirchnerismo aprofundou a fratura e provocou a rejeição da Associação Argentina de Atores, que qualificou o texto como um "fracassado ato de repúdio".

"Dizemos fracassado porque o que para o jornalista deveria ser uma espécie de 'lista negra', para nós, longe de ser um subsídio, é simplesmente trabalho honesto e legítimo realizado por um salário como qualquer outro trabalhador", argumentou a associação.

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