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Crítico de Mandela e Zuma, pintor sul-africano causa polêmica com novo quadro

30/10/2015 06h06

Marcel Gascón.

Johanesburgo, 30 out (EFE).- O pintor e ativista Ayanda Mabulu voltou a agitar neste mês a opinião pública sul-africana com um quadro no qual o presidente Jacob Zuma aparece abusando sexualmente de uma mulher que simboliza a maioria negra e pobre do país, junto com um homem com cabeça de hiena e roupas típicas da época colonial.

"Estamos sendo violentados por nosso próprio governo, em benefício lucro das grandes companhias internacionais", afirma Mabulu, um polêmico artista que classifica Nelson Mandela como "traidor" e culpa o colonialismo e os governos negros pela situação de pobreza vivida pela maior parte do país.

Mabulu, nascido na cidade de King William's Town, no leste do país, ocupa periodicamente as manchetes dos jornais sul-africanos por contundentes quadros de denúncia social e política que geram fortes debates entre a opinião pública.

Na última obra, Zuma está com as calças abaixo do joelho e ri ostensivamente, como habitualmente faz no parlamento - representado ao fundo como uma tenda de circo -, diante das perguntas sobre as enormes desigualdades do país e seu abuso de poder, diz Mabulu.

Em frente a ele, um homem usando roupas parecidas com a de lordes ingleses bebe vinho tinto - o "sangue" dos africanos - e explode em uma gargalhada perversa com o cinto desabotoado.

O pintor vê no massacre da mina de Marikana, onde 34 mineradores acabaram mortos por reivindicar melhores direitos trabalhistas, a imagem mais representativa da situação na África do Sul 21 anos depois da queda do apartheid.

O combativo artista apresentou sua visão sobre o massacre - ocorrido em agosto de 2012 - há dois anos, em uma pintura dantesca de uma arena, na qual um minerador negro era enganado por um toureiro com uma bandeira sul-africana como capa. Enquanto isso, um político governista do país instigava um cachorro contra a vítima e a rainha da Inglaterra assistia à cena na plateia.

"Nunca pensamos que veríamos algo como Marikana depois do apartheid", afirma Mabulu à Agência Efe, que lembra como um doloroso paradoxo o fato de policiais negros terem aberto fogo contra os mineradores, colocando-se ao lado da empresa britânica Lonmin, responsável pela exploração da mina.

O pintor aponta como origem desses males o primeiro presidente negro sul-africano, Nelson Mandela, a quem acusa de não ter feito o suficiente para reduzir as injustiças do apartheid e do colonialismo.

"Só olhou pelos interesses dos outros e não deu atenção a sua gente, que ainda hoje vive na pobreza", afirmou, em referência aos esforços de Mandela para fazer a minoria branca se sentir cômoda com a ascensão política negra ao poder.

Em outro de seus quadros, colocado em uma das paredes de sua pequena oficina, o rosto de Madela aparece impresso em uma lata de conserva com a palavra "Vendido" escrita.

Mabulu acha que preciso devolver aos sul-africanos negros o que é deles por direito: a terra e as riquezas ainda controladas hoje em grande parte pela população branca.

"É muito triste que soframos essas violações, esses abusos por parte de nossa própria gente. É como o pai que prejudica o próprio filho. Traíram as pessoas que confiavam neles", disse o pintor sobre Mandela e seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), que ainda está no poder.

Penduradas junto à entrada da oficina, duas bandeiras da China rompem a harmonia de um local repleto de pinturas sobre a situação política e social sul-africana.

"É para quem nos venderam", responde o pintor, se referindo à condição de sócio privilegiado que o governo sul-africano concedeu ao país asiático nos últimos anos.

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